Deixar de ser virgem

Helen Hunt concorre ao Oscar, mas John Hawkes é a alma do emotivo As Sessões

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

21 Fevereiro 2013 | 02h10

Mais um filme do Oscar está em cartaz nos cinemas da cidade. As chances de As Sessões são mínimas, mas isso não diminui o significado humano e estético do filme de Ben Lewin. Helen Hunt foi indicada para o Oscar de coadjuvante, mas é o ano de Anne Hathaway e dificilmente a Fantine de Les Misérables, o musical de Tom Hooper, deixará de empalmar a estatueta no domingo. A indicação de Helen é muito mais o reconhecimento para uma atriz que já ganhou como protagonista - por Melhor É Impossível, de James L. Brooks -, mas cujas participações posteriores estão longe de ter sido memoráveis (exceto com Woody Allen em Escorpião de Jade). As Sessões nos lembra como ela pode ser boa, mas é uma injustiça do Oscar - mais uma - que John Hawkes não tenha colhido uma indicação para melhor ator.

Tudo bem - é o ano do Lincoln de Daniel Day-Lewis (e Steven Spielberg), e ele não ia ganhar, de qualquer maneira. Mas a indicação poderia impulsionar a carreira do ator e, acima de tudo, ele merecia. John quem? John Hawkes tem marcado presença em filmes como Inverno da Alma, de Debra Granik, que já lhe valeu uma indicação como coadjuvante (em 2010), e séries como Deadwood. Mas nunca, como aqui, ele foi tão bom, marcando um papel difícil com densidades e sutilezas. Em Berlim, entrevistada pelo repórter, Isabelle Huppert disse como é difícil interpretar uma personagem que só tem o rosto para se expressar e, na maior parte do tempo, fica com o corpo escondido pelo hábito que usa em A Religiosa, de Guillaume Nicloux.

Hawkes faz um paralítico em As Sessões. Um pouco como o protagonista de Meu Pé Esquerdo, de Jim Sheridan, que deu a Daniel Day-Lewis seu primeiro Oscar, ele é prisioneiro de um corpo imobilizado. Mark O'Brien teve poliomielite quando crianças e a doença lhe deixou sequelas. Ficou paralítico - consegue mover alguns músculos do corpo todo - e, na maior parte do tempo, a dificuldade para respirar o mantém ligado a um pulmão de aço. Day-Lewis mexia só o pé esquerdo, lembram-se?, e ele virava a ferramenta para que se expressasse. A imobilização forçada de O'Brien/Hawkes não inibe sua vontade de viver e o filme apanha o personagem num momento decisivo, quando ele, antecipando a própria morte, decide que não quer morrer virgem.

O'Brien confessa-se com seu padre (William H. Macy) e ele, olhando para a imagem do Cristo na cruz - outro prisioneiro -, compreende tanto a angústia quanto a necessidade. A questão é - como, e com quem, realizar o ato? O cinema contou muitas histórias de adolescentes virgens, e até a de um virgem, de 40 anos, todos ansiosos para dar vazão à testosterona. O caso de O'Brien talvez seja um pouco mais radical. Difícil, mas não impossível. Entra em cena a terapeuta sexual Cheryl Cohen Greene (Helen). Ela garante que O'Brien estará pronto, e atingirá seu objetivo, num máximo de seis sessões.

De cara, numa cena exemplar, Cheryl/Helen esclarece que não é prostituta e é curioso, senão revelador, que à medida que o objetivo se aproxima é a mulher, mais que o homem, que fica perturbada, experimentando algo mais que uma ligação profissional.

O amor, dizia um especialista - o diretor francês François Truffaut, romântico que desconfiava do romantismo -, realiza-se numa espécie de oposição entre o gesto instintivo e a palavra consciente. O próprio diretor Ben Lewin teve pólio e também conviveu com um pulmão de aço. Aos 62 anos, ele ainda se movimenta com bengala. E entende perfeitamente o misto de vergonha e desejo que caracteriza O'Brien. Só que isso não é característico somente de deficientes físicos. Pode ser universal, e, ao compreendê-lo, Lewin e seus atores fizeram um filme emocionante - e é melhor guardar silêncio sobre o desfecho, para que você o desfrute, com um tanto de surpresa.

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