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Luis Fernando Verissimo
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Definição

Dependendo de quem você é, a que tribo pertence e que valores tem, suas referências são diferentes das do vizinho. O Garrincha, por exemplo, quando quis contar que estivera em Paris com a seleção não recorreu à torre Eiffel, ao Arco do Triunfo ou ao Sena para identificar o lugar, como você e eu faríamos. Disse "Aquela cidade em que o seu Feola caiu na banheira". (Como todas as histórias sobre a inocência do Garrincha, esta também deve ser apócrifa, mas como ensinou o John Ford, na dúvida publique-se a lenda.) Há alguns anos, por razões nunca explicadas, latas de leite em pó cheias de maconha foram dar numa praia do Estado do Rio. Muitas latas, contendo maconha da melhor qualidade - e era só pegar e levar. Houve quem agradecesse a Deus pelo milagre, pois a origem de tanta erva só podia ser divina. E até hoje o ano de 1987, em que muitas outras coisas importantes aconteceram (Gorbachev começou a abertura na União Soviética, houve o acidente com o Césio radioativo em Goiânia, morreram Drummond e Golbery, o Brasil derrotou os Estados Unidos no basquete, etc.) é lembrado em certos círculos apenas como o ano em que deu maconha na praia.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 02h05

Fiquei pensando no que eu escolheria como sendo emblemático dos tempos atuais. Um fato, uma pessoa, uma curiosidade que resumisse tudo o que estamos passando. Escolher a frase símbolo destes dias seria fácil: é "às favas com os escrúpulos", dita pela primeira vez na reunião do alto comando do golpe de 64 que instituiu o AI-5. Os escrúpulos mandados às favas, então, eram quaisquer considerações de direitos humanos e processos democráticos - ou seja, qualquer frescura que atrasasse a ditadura. Com o passar do tempo, os escrúpulos mandados longe adquiriram outros significados - ética, moral, honra, vergonha na cara - e sua falta trouxe os escândalos em série que nos assolam. Frases podem definir eras - já se disse que a frase símbolo do século 20, o século dos campos de extermínio e das bombas nucleares, poderia ser "Estávamos apenas cumprindo ordens" -, mas só frases não satisfazem nossa necessidade de uma definição perfeita, pela qual vamos nos lembrar destes tempos para sempre. E acho que a encontrei.

A notícia saiu nos jornais sem muito destaque: membros do batalhão de elite do Exército que formam os Dragões da Independência foram pegos assaltando um posto de gasolina. Claro que a corporação não tem nada a ver com o comportamento de três ou quatro delinquentes, que serão castigados, mas a posteridade não vai querer saber disso: o lembrado será que houve um tempo no Brasil em que a falta de escrúpulos era tanta que membros da guarda cerimonial da presidência da República estavam assaltando postos de gasolina. Gente: Dragões da Independência!

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