Dedo na ferida

Gravada em 1939 por Billie Holiday, Strange Fruit é o primeiro clamor contra o racismo, como conta um novo livro

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2012 | 03h09

A primeira década deste século assistiu à gênese e floração de um novo tipo de "biografia", a de discos e canções memoráveis. Entre as primeiras, estão A Love Supreme (2002) e Kind of Blue (2007), ambos de Steve Khan e lançados no Brasil em 2007 pela Barracuda. No domínio das canções célebres, Will Friedwald deu a largada com Stardust Melodies em 2002, no qual biografou 12 canções célebres do "songbook" norte-americano, da canção do título até Lush Life, passando por Saint Louis Blues, Body and Soul, Night and Day e I Got Rhythm.

Paralelamente, David Margolick, jornalista como Khan e Friedwald, mergulhou na história e no significado da famosa gravação de Billie Holiday, em 1939, da canção Strange Fruit. Mais de dez anos depois, este ótimo livro Strange Fruit - Billie Holiday e a Biografia de Uma Canção chega ao Brasil em tradução de José Rubens Siqueira, com apresentação de André Midani, veterano capo da indústria do disco no Brasil.

Margolick desfaz equívocos, mentiras e mitologias em torno de Strange Fruit. E a trata como ela é: sintoma de uma das feridas mais perversas de seu país, o racismo. De fato, ela é, como disse o crítico Leonard Feather, "o primeiro protesto relevante em letra e música, o primeiro clamor não emudecido contra o racismo".

Em 1939, foi cantada pela primeira vez por Billie Holiday (1915-1959) e, naquele mesmo ano, o 78 rotações foi lançado pelo selo Commodore (Billie gravou-a mais uma vez para a Commodore e depois outras quatro para a Verve). Um ano chave, o mesmo do clássico filme ...E o Vento Levou, "repleto de condescendência com os negros e com os artistas negros", diz Margolick. Neste contexto anestesiado, Strange Fruit "devolve o elemento de protesto e resistência ao centro da cultura musical negra contemporânea", nas palavras da ativista Angela Davis.

O impactante poema do judeu branco nova-iorquino comunista Abel Meeropol compara a "estranhas frutas" os cadáveres dos negros mortos em linchamentos e/ou enforcados no sul dos EUA e pendurados por cordas nas árvores. "Árvores do Sul dão uma fruta estranha/Folha ou raiz em sangue se banha/Corpo negro balançando, lento/Fruta pendendo de um galho ao vento", dizem os primeiros versos. A sequência é de arrepiar: "Cena pastoril do Sul celebrado/A boca torta e o olho inchado/Cheiro de magnólia chega e passa/De repente o odor de carne em brasa/Eis uma fruta para que o vento sugue/Pra que um corvo puxe, pra que a chuva enrugue/Pra que o sol resseque, pra que o chão degluta/Eis uma estranha e amarga fruta". A versão em português é de Carlos Rennó.

Billie, prostituída aos 12 anos e drogada daí em diante, parece não ter entendido de cara o trágico sentido da letra. Mas quando percebeu o impacto que causava nas plateias, assumiu a autoria de letra e música. Só voz e piano, Strange Fruit escapa, como diz Margolick, "a qualquer categorização musical fácil (...) é artística demais para ser música folk, politicamente explícita e polêmica demais para ser jazz" (pág. 25). Na página 79, o escritor Stud Terkel aponta uma inesperada, mas adequadíssima, afinidade entre Strange Fruit e Der Leiermann, ou O Homem do Realejo, a desolada canção final do ciclo Der Winterreise, Viagem de Inverno, obra-prima de Franz Schubert, em que o protagonista está face a face com a morte.

Há um vídeo na internet em que Billie, em 1959, entorta a boca imitando a expressão dos cadáveres pendurados nas árvores e dá um grito contido nos versos finais - sobretudo em "For the sun to rot, for the tree to drop". É lancinante. Muita gente diz que ninguém mais teria direito a gravar e/ou cantar Strange Fruit. Muitos tentaram, de Tori Amos a Sting, de Abbey Lincoln a Carmen McRae, de Diana Ross (ridícula no filme biografia de Billie) a Low Rawls. Apenas uma construiu uma interpretação tão bela quanto a de Billie: Nina Simone. Quem duvidar, que a ouça na internet. Mais over e visceral, Nina faz um glissando descendente delirante em "tree to drop". E nos esfrega estas amargas frutas na cara.

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