Decifrando Godard

Livro reflete sobre as múltiplas possibilidades literárias inseridas nos filmes do diretor

Marcelo Miranda, de Belo Horizonte, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2013 | 02h09

Se o conceito de literatura pode ser entendido como "experimentação dos 'possíveis da linguagem'", conforme o poeta Paul Valéry, então o cineasta Jean-Luc Godard fez literatura em pleno exercício da atividade do cinema. Simplificadamente, essa é a tese do ensaísta e crítico Mário Alves Coutinho, desenvolvida em dois livros já publicados. O mais recente deles é Godard, Cinema, Literatura (Crisálida, 232 págs., R$ 36), que reúne 11 entrevistas com intelectuais franceses, realizadas por Coutinho em Paris, entre novembro de 2005 e fevereiro de 2006, durante a feitura de sua pesquisa para o doutorado. Em 2010, ele publicou o outro livro, Escrever com a Câmera - A Literatura Cinematográfica de Jean-Luc Godard, a partir do projeto defendido na UFMG.

Ambos, lançados pela editora mineira Crisálida, partem de inquietações do autor em torno de uma percepção bastante particular. "A minha ideia é que Godard, utilizando todos os recursos disponíveis na linguagem do cinema, fez literatura dentro dos filmes dele", afirma o ensaísta mineiro. A premissa foi levada às 11 conversas que Coutinho registrou na França com nomes expressivos do pensamento cinematográfico e literário, como Jacques Aumont, Alain Bergala, Michel Marie, Jean Douchet, Jean-Michel Frodon, Marie-Claire Ropars-Wuilleumier e Philippe Dubois, entre outros. "É claro que não fui a eles para impor qualquer tipo de visão particular. Queria ouvi-los sobre a relação da obra de Godard com a literatura", frisa Alves Coutinho.

As conversas reunidas no livro refletem as contradições e complexidades típicas de um artista da envergadura de Godard, hoje aos 82 anos e cujo último longa até o momento é Filme Socialismo (2010). Supervisionado por Philippe Dubois no andamento das pesquisas, Mário Alves Coutinho se deparou com opiniões e análises das mais diversas sobre a questão, muitas delas de acordo com alguns de seus pontos, outras fortemente opostas. Em muitos casos, é perceptível que vários entrevistados não enxergam o cineasta franco-suíço como alguém que "escreve com a câmera". Ao longo das respostas, porém, surgem argumentos perfeitamente utilizáveis para defender a tese. "Este foi um paradoxo que tinha absolutamente tudo a ver com o estudo em torno de Godard", frisa o entrevistador.

Jogos e pichações. Para Coutinho, logo nos primeiros 30 minutos de Acossado (1959), longa-metragem de estreia de Godard, é possível perceber quanto o realizador fazia literatura através do cinema, "utilizando a linguagem, a palavra, a língua de uma maneira variada, definidora e definitiva". Ao longo das décadas seguintes - com ênfase maior no período 1960-70 e depois dos anos 80 -, o diretor se fixou em citações (nem sempre identificadas ou fiéis aos originais), jogos linguísticos, pôsteres, cartazes, pichações, letras escritas na tela, livros sendo lidos por personagens ou utilizados como formas de diálogo (algo visto em Uma Mulher É Uma Mulher) e textos recitados ou reconstruídos, muitas vezes com sua própria voz. Alain Bergala diz, no livro de Coutinho, que "nunca houve um cineasta com tantos laços com a literatura como Godard".

Alguns conceitos instigam o leitor ao longo das conversas com Mário Alves Coutinho. Jacques Aumont diz, por exemplo, que Godard "amaria ser um homem da Renascença", por ser uma artista que quer absorver e reproduzir de tudo (cinema, literatura, música, pintura). Dubois define tal aspecto onívoro e característico do estilo godardiano como "bricolagem" ("para o bricoleur tudo é bom, as coisas estão à disposição, nós as tomamos, as adaptamos e avançamos passo a passo em função dos meios que temos"). Jean Collet enxerga Godard como um poeta; Michel Marie o pensa como ensaísta; e Francis Ramirez sintetiza os dois ao defender a ideia de que a intuição do cineasta é poética, mas sua inteligência é ensaística.

Filmes como Duas ou Três Coisas Que Eu Sei Dela (1966), Nouvelle Vague (1990) e o monumental História(s) do Cinema (exibido em 1988 e lançado posteriormente em livro) são citados como significativos para a representação das possibilidades literárias inseridas dentro dos filmes do diretor. São trabalhos que se conjugam ao pensamento do teórico francês Alexandre Astruc de que o cinema seria "um meio de escritura tão flexível e sutil como a linguagem escrita" e que tão bem se aplica ao realizador de Acossado. Em meio a tantas ideias e estímulos, é Jean Douchet quem parece encontrar a mais clara das verdades relativas a Godard: "Achávamos que ele estava sempre 20 anos à frente; começamos a achar que ele está um século à frente; na verdade, muito à frente".

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