Decanos do POP

O escocês Jim Kerr, líder do Simple Minds, na estrada desde 1977, fala sobre o show [br]que a banda do eterno hit Don't You (Forget about Me) fará em São Paulo na terça-feira

Entrevista com

Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Formado em Glasglow, Escócia, nos anos 1970 por Jim Kerr e Charlie Burchill, o grupo Simple Minds lançou alguns dos grandes "ganchos" do pop internacional que vingariam nos anos 1980: flerte com o drama, inflexões trágicas na voz do cantor, digressões orquestrais, melodias limpas em busca da amplidão das montanhas, dos mares, dos céus. Canções pacifistas, como Belfast Child, viraram hinos. E seu maior hit, Don"t You (Forget about Me), tem seu refrão reciclado continuamente, ano após ano.

Distante três décadas do tempo das ombreiras, Jim Kerr reuniu o núcleo original da banda (ele e Burchill, além de Mel Gaynor na bateria e Eddie Duffy no baixo) e está de volta à estrada. Ex-marido da estrela Chrissie Hynde, dos Pretenders, Kerr lançou no ano passado Graffiti Soul, 15.º álbum do Simple Minds, e retorna a São Paulo (esteve aqui nos anos 1980) para um show na semana que vem.

Kerr e Burchill começaram em 1977 com a banda punk Johnny and the Self Abusers, que só durou um single. Uma semana depois, refizeram o grupo e o batizaram com um verso da música Jean Genie, de David Bowie. Seu pico no pop foi quando seu hit Don"t You virou tema do filme Clube dos Cinco (Breakfast Club), de 1985, com Molly Ringwald e Emilio Estevez. Por telefone, Jim Kerr falou ao Estado sobre a turnê.

Não o incomoda cantar pela milionésima vez Don"t You (Forget About Me)?

É só um dos clássicos. A plateia nos deu tudo que temos. Sem o público, não seríamos nada. Então, por que não dar à plateia o que ela quer? Eles conhecem cada canção, adoram cantar junto, e é muito lisonjeiro. Nunca vou me cansar. Então, vamos cantar músicas de cada período de nossa carreira.

Você vê alguma banda similiar ao Simple Minds nos dias de hoje?

Não igual, não reconheço especificamente um riff de guitarra idêntico, uma linha melódica. Mas há várias bandas que parecem influenciadas, e outras que gostam de homenagear a gente. Sei que o pessoal do Coldplay é muito fã da gente, por exemplo.

Como explicar que aquele som pós-punk dos primórdios dos anos 80 ainda seja tão influente nos dias de hoje?

Acho que é porque tinha melodias. O punk veio com atitude e energia, e era necessário. Mas quando surgiram bandas como Magazine e Ultravox, as pessoas notaram: hey, esses caras tocam bem, não estão apenas espancando os instrumentos. Se há boa música, ela permanece, isso é básico. O pós-punk vinha com uma certa finesse, um refinamento.

A cena musical escocesa mudou muito desde aquele tempo, não? Hoje há grupos de lá, como Franz Ferdinand, Belle and Sebastian, que fazem sucesso no mundo inteiro?

Acho que há muitas bandas diferentes, você pode procurar qualquer tipo de som que encontra lá nos dias de hoje. Eu cresci em Glasglow e naquela época não havia ninguém fazendo nada. Agora, está efervescente, há grandes coisas sendo feitas no cinema, nas galerias, nas artes. Mudou radicalmente. Ainda carrego muita influência da minha vida na Escócia, até porque trabalho muito lá, componho, pesquiso.

Você está com um sotaque esquisito. Está vivendo na França?

Não, vivo na Itália. Na verdade, na Sicília. Gosto muito daqui. Para mim, é um lugar mágico, por causa das tradições da comida. Muita gente sempre pensa no mito, a coisa da Máfia, os filmes. Por falar nisso, Robert de Niro esteve aqui há uma semana. É engraçado isso, a vida cotidiana é bem diferente na Sicília.

O Simple Minds sempre foi uma banda muito simpática à experimentação. Como vocês estão se relacionando com as novas tecnologias de gravação, os novos efeitos?

Sempre me animei com as novas tecnologias. Ao longo da carreira, misturar coisas é uma das marcas da banda. Mas, essencialmente, fazer música é uma única coisa: como achar as melodias, como achar a forma de dizer as coisas. Não importa o que você use, que tipo de bugiganga, o importante é a ideia que tenta transmitir com aquilo. É evidente que nós temos o desejo de fazer sempre um som contemporâneo, novo, mas queremos principalmente deixar lembranças clássicas, músicas que tenham a capacidade de sobreviver ao teste do tempo.

Você sabia que sua ex-mulher, Chrissie Hynde, chegou a viver aqui em São Paulo por uns tempos?

Ela ama o Brasil, e fala com entusiasmo de São Paulo, da arquitetura, da vida urbana. Somos muito amigos, conversamos muito sobre tudo. Eu confesso que conheço mais o Rio de Janeiro, mas ela adora São Paulo.

O que julga que o Simple Minds lhe possibilitou de mais agradável nesses 30 anos?

A oportunidade de cantar com grandes artistas, como Bowie, Iggy, Lou Reed, Peter Gabriel. E de poder ter cantado para Nelson Mandela e o dalai-lama.

SIMPLE MINDS

Via Funchal. Rua Funchal, 65, Vila Olímpia, telefone 2144-5444. 3ª, às 22 h. R$ 180/R$ 300.

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