Década digital

Nos últimos dez anos, o avanço tecnológico provocou mudanças decisivas na cultura, alterando até mesmo o comportamento do espectador

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2010 | 00h00

Em dezembro de 2000, uma sofisticada opção de presente de Natal era um aparelho ainda pouco conhecido, chamado MP3 Player, que armazenava digitalmente até meia hora de música gravada. Uma revolução, mas para poucos, pois o preço era salgado. Mais prático era apostar no velho CD, cujo sucesso continuava de vento em popa - além do surgimento de aparelhos que gravavam nos disquinhos o conteúdo do velho bolachão, coleções resgatavam clássicos, como a caixa com 7 CDs que traziam praticamente toda a obra de Dorival Caymmi, o melhor lançamento do momento.

Dez anos depois, uma revolução tecnológica praticamente varreu a forma tradicional de se produzir e escutar música. Surgiram o download ilegal, o comércio virtual, o iTunes, o iPod, o YouTube, o MySpace, o Spotify, o estúdio doméstico dentro de um laptop, democratizando a oferta para o ouvinte e levando a indústria a um questionamento sobre a própria sobrevivência.

A música foi a que mais sofreu mudanças com os avanços da tecnologia na primeira década do século 20 que agora termina, mas outras áreas da cultura sentiram abalos semelhantes. O cinema, por exemplo - em 2000, um dos hits de dezembro foi a estreia da animação A Fuga das Galinhas, que utilizava técnicas tradicionais de desenhos, ou seja, a história foi filmada, fotograma por fotograma, acompanhando passo a passo os bonecos. Os computadores só entraram para dar o toque final envolvendo iluminação e cenários.

No início da segunda década do século 21, filmes (e não apenas animações) são produzidos visando exibição em 3D, em salas de cinema equipadas com moderno sistema de som digital. Uma alternativa para tentar frear a ação da pirataria que, de tão intensa, chegou a antecipar (e quase ofuscar) o lançamento oficial do primeiro Tropa de Elite, em 2007.

Já na literatura, as mudanças aconteceram mas ainda não se consolidaram. No início da década, surgiram os primeiros formatos de e-book, ainda rudimentares e com capacidade de armazenamento reduzida. O avanço tecnológico, porém, que permitiu o surgimento de modelos como o Kindle, fez acender o sinal amarelo no mercado editorial do planeta, imprensado pela dúvida: estaria o tradicional formato em papel condenado?

Uma pesquisa realizada na Feira de Frankfurt, a mais tradicional do setor, em 2008, apontava 2018 como o ano em que os livros eletrônicos superariam em volume de negócios os existentes hoje, em papel. Em julho passado, a Amazon, uma das maiores livrarias virtuais do mundo, anunciou que já vendia mais livros digitais que impressos, colocando sob suspeita, portanto, qualquer prognóstico.

Nessa edição especial, o Caderno 2 Domingo traz um balanço das grandes mudanças que marcaram a música, cinema, literatura, artes visuais, teatro, arquitetura e televisão, na surpreendente primeira década do século 21.

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