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Luis Fernando Verissimo
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Debutantes

As três almoçavam juntas todas as terças-feiras. Amigas antigas, mesma idade (o lado ainda ensolarado dos 30), casadas, sem filhos.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

29 de novembro de 2015 | 02h00

Heloísa fora a última a se casar.

– E então? – quis saber a Carol.

– Então o quê?

– O casamento, como vai?

– Vai ótimo!

– É tudo que você imaginava?

– Que pergunta, Carol! Claro que é!

A Carol parecia amarga, por alguma razão. Logo a Carol, a mais divertida das três. A que organizava as reuniões dos casais. A que cantava nas festas.

– Diz a verdade, Helô – insistiu Carol. – O Rui é tudo que você esperava?

– É um homem maravilhoso. Eu estou felicíssima.

– Felicíssima, Helô?

– Está bem. Felicíssima é exagero. Mas estamos muito bem.

A Maria Helena interveio.

– Por que esse interrogatório, Carol?

– Porque eu acho que nós estamos vivendo uma mentira. Três mentiras. Nós três. Nenhum dos nossos maridos é maravilhoso. Nossas vidas não são maravilhosas. No outro dia, eu estava olhando o Edgar roncando na frente da televisão e me dei conta. Então é isso? Minha vida é isso?

– Carol – disse a Maria Helena – o que mais você quer da sua vida? Você é uma mulher saudável, sem problemas de dinheiro, com um marido que pode não ser um galã, mas...

– Não é o Edgar. Você não entende? O Edgar roncando na frente da televisão é só um detalhe. É tudo. É o futuro que me espera. O futuro que nos espera. É a vida que nós nunca vamos ter.

– Que vida você queria, afinal, Carol?

– Quer saber? Eu queria que minha vida fosse uma comédia romântica.

– Ora, Carol...

– Uma comédia romântica americana.

– Mas isso não existe, Carol. Só existe no cinema. Na vida real, ninguém...

– É isso! A vida real. Nós não fomos feitas para a vida real. Nós merecemos mais do que a vida real. Lembra do nosso baile de debutantes? Nós não estávamos lindas? A vida que nos esperava era outra, sorridente, muito diferente da vida real. A vida real não é para debutantes.

Então, Carol levantou-se e disse que iria embora.

– Mas nós ainda não pedimos o almoço! – protestou Maria Helena.

– Eu estou sem fome. E, hoje, sou uma péssima companhia. Até terça que vem.

Quando Carol se foi, Heloísa comentou:

– O Rui não ronca, eu acho.

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