Deborah Colker encontra a emoção

Em Tathyana, coreógrafa se inspira em clássico da literatura russa

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

08 Abril 2011 | 00h00

Deborah Colker deixou a crueldade de lado para encontrar o amor na São Petersburgo do século 19. Com Tathyana, espetáculo que será visto amanhã no Festival de Curitiba, a coreógrafa muda um pouco o foco. Abre mão da violência que permeava Cruel, sua montagem anterior. E se debruça sobre o clássico romance em versos de Aleksandr Pushkin, Eugene Onegin.

Considerada uma das obras máximas da literatura russa, o livro de Pushkin foi escrito ao longo de sete anos como um longo poema. Dividido em 400 sonetos, trata do desencontro entre Eugene e Tathyana.

A trilha sonora escolhida também dá conta desse novo lugar onde Deborah Colker foi parar. Sai de cena o som picotado e cheio de batidas eletrônicas. Entram as composições dos russos Tchaikovski, Stravinski, Prokofiev e Rachmaninov. "É um trabalho bem diferente. Primeiro, porque existem interferências muito menores na música. E também porque parto de um livro", diz Deborah.

Todos esses traços sinalizam um percurso completamente distinto de Cruel, espetáculo de 2008. Mas a coreógrafa não deixa de ver em Tathyana um sentido de continuidade. Em suas criações recentes, ela acredita, já estava delineado o seu desejo de se deter mais sobre a narrativa. "Comecei a dar essa virada com Nó (2005). Lá, eu já me relacionava com a dramaturgia de uma outra maneira ", comenta. Com um sentido violento e alta carga de erotismo, Cruel era um compêndio de breves cenas que iam se sucedendo. "Ali me veio a vontade de contar uma história. Mas ainda não era a hora."

Neta de russos, Deborah disse ter encontrado nos livros que o avô lia em casa a inspiração para a nova obra. Foi depois de passar 2009 dedicando-se à criação de um espetáculo para o Cirque du Soleil, que ela encontrou a história de Pushkin. E decidiu transformá-la em movimento.

Não é a primeira vez que o romance em versos vai parar no palco. Tchaikovski transformou o tema em ópera em 1879. Já nos anos 1970, John Cranko valeu-se do enredo para criar um balé com a brasileira Marcia Haydée.

Na obra original, Tathyana se apaixona por Eugene, um dândi, e resolve se declarar por carta. Inicialmente, ele a rejeita, mas a situação se inverte. E, ao final, é Eugene quem rasteja pelo amor da heroína.

Deborah imprime à fábula seu olhar particular. Decidiu limar os personagens secundários e reparte a figura dos protagonistas entre vários bailarinos.

Ainda que o sentimento amoroso venha à baila, não convém esperar por nada muito "lírico" ou pretensamente delicado. Marca da coreógrafa, seu estilo vigoroso continua presente. Só que, agora, com outras nuances. "Privilegiei a emoção", constata.

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