Debate sobre identidade também atraiu cineastas

Diversos filmes dialogaram com propostas do movimento

O Estado de S.Paulo

12 de setembro de 2012 | 03h09

Embora tenha durado apenas 'um ano e pouco', o tropicalismo foi suficientemente forte para se manter até hoje como referência cultural - e de vanguarda - no imaginário dos brasileiros. Por isso mesmo, apesar da utilização da linha de tempo como fio condutor de Tropicália, o diretor Marcelo Machado nega o possível caráter de exumação do seu filme. "Como exumar o que permanece vivo?" E ele exemplifica - "Minha banda preferida era os Mutantes, que agora é a favorita da minha filha."

Passaram-se 43 anos desde que Caetano Veloso - em 1969 - decretou o óbito do tropicalismo. A partir daí, emprega-se o pretérito passado para focar o movimento - Ninho Moraes e Francisco César Filho mudam o conceito ao chamar de Futuro do Pretérito o filme em que polemizam sobre o assunto, ao levantar as questões da massificação da arte e da mediocrização contemporânea (leia acima). O tropicalismo foi um movimento cultural que surgiu no Brasil sob a influência das correntes artísticas de vanguarda e do pop nacional e estrangeiro, como o pop-rock e o concretismo. Misturou manifestações e tendências, assimilou a guitarra elétrica ao som de raiz. Tinha, como se diz, objetivos comportamentais que encontraram eco em boa parte da sociedade, sob o regime militar, no fim da década de 1960.

Sempre que se fala em tropicalismo, a associação imediata é com a música, e principalmente com artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Torquato Neto, Os Mutantes e Tom Zé. Tropicália, o filme, perpassa essa trajetória, mas pode-se ampliar um pouco o registro para abordar o tropicalismo no cinema brasileiro. Há um conjunto de filmes que, bebendo na fonte das ideias que se cristalizaram no movimento, terminaram por levá-lo para as telas. Muitos desses filmes, senão todos, remetem ao Modernismo de 1922. Um ou outro são em preto e branco, mas a maioria não é apenas em cores. São cores especiais, em alguns casos o próprio verde-amarelo da bandeira nacional.

Haveria polêmica, certamente, na indagação se Terra em Transe, de Glauber Rocha, é tropicalista? O filme talvez não fosse, mas Glauber era (tropicalista)? Os filmes marcos são - Brasil Ano 2000, de Walter Lima Jr.; Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade; Os Herdeiros, de Cacá Diegues; Meteorango Kid, de André Luiz Oliveira; Hitler Terceiro Mundo, de José Agrippino de Paula. O dublê de escritor e cineasta não foi um tropicalista ao pé da letra (como Glauber), mas foi um protropicalista que exerceu profunda influência sobre o movimento.

Por isso mesmo, Marcelo Machado gostaria de ter usado sua imagem - retirada do filme A Mulher de Todos - em Tropicália, mesmo consciente de que outro filme de Sganzerla, O Bandido da Luz Vermelha, se integre mais nos preceitos do movimento. No cinema e na música, em todas as suas manifestações artísticas, o que o tropicalismo fez foi antecipar a discussão contemporânea sobre a mistura. Com ela veio a questão da identidade. Panis Circensis, Terra Brasilis - tudo passa pela Tropicália. / L.C.M.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.