Debate na ABL opõe escritores

O primeiro dia de debates sobre o futuro do livro, realizado nesta segunda-feira na Academia Brasileira de Letras (ABL), no Rio, conseguiu, numa única mesa, colocar de modo simples e até mesmo didático a grande questão que está por trás da discussão: o texto depende ou não do formato que o envolve.O fato ocorreu no debate O Que Acontecerá com o Livro na Era Eletrônica, que se seguiu à cerimônia de abertura (em que estiveram presentes o presidente da Fundação Biblioteca Nacional e organizador do debate, Eduardo Portella, e o presidente em exercício da ABL, Carlos Nejar). Num campo mais conservador estava a escritora Lygia Fagundes Telles, autora do romance As Meninas e da coletânea de contos Invenção e Memória. No outro, confiante na autonomia do texto e no avanço da tecnologia, se postou o também acadêmico Carlos Heitor Cony, autor de Quase Memória.Os debates na ABL, que terminam nesta quarta-feira, são promovidos pela Fundação Biblioteca Nacional e pela Unesco. Além de um belo time brasileiro, o colóquio conta ainda com a participação de nomes como o do francês Michel Maffesoli, do italiano Gianni Vattimo, do espanhol Rafael Argullol e do argentino-canadense Alberto Manguel.Lygia foi apoiada por Ziraldo, "pai" do "Menino Maluquinho", que recusou a alcunha de escritor infantil ("Parece escritor retardado, prefiro escritor de livros para crianças").A escritora paulista também fez troça: "Eu digo sempre que sou do tempo dos ´dinosauros´; uma vez, um alguém me corrigiu, disse que eram dinossauros, e eu respondi: não, meu filho, eu sou tão de antigamente que sou do tempo dos ´dinosauros´ mesmo", afirmou, arrancando risos das quase 200 pessoas que não lotaram, mas que ocuparam bem o auditório da ABL.Lygia diz que se acostumou a, por meio do livro, se exprimir e a levar seus leitores ao lugar em que está. "Eu não posso perder esse interlocutor!", emendou.Livro único - Um dos assuntos que já haviam sido tratados, na sessão de abertura, foi o da permanência do cinema após o surgimento da TV. Lygia retomou o assunto. "Pregou-se o fim de tudo, não só do cinema, mas também do livro, do rádio, de tudo; e, depois disso, é que foram feitos filmes como Morte em Veneza, por Visconti, e Macunaíma, por Joaquim Pedro de Andrade, ambos adaptados de livros", disse. Lygia afirmou que acredita, sim, na imortalidade do livro, e que não acredita, não, na ocorrência de mortes anunciadas. Ainda citou o parnasiano Olavo Bilac, que diz, num versinho, que o acadêmico, "sem pão, sem lar, sem conforto", só é imortal porque, afinal, "não tem onde cair morto". Até para comprovar essa tese, contou que, por sugestão de Cony, adotou um computador, e que está tentando desvendar seus mistérios.Cony avisou, de cara, que estava surdo, culpa de uma gripe. E que, portanto, não estava ouvindo os colegas. O problema de saúde funcionou como uma metáfora perfeita. O escritor lembrou que as tábuas em que Moisés gravou os Dez Mandamentos não formavam um livro tal qual o conhecemos hoje - eram, aliás, bem mais pesadas. Viria do suporte e do uso do estilete para esculpir as letras o fato de a escrita oriental se encaminhar da esquerda para a direita. O livro de Isaías, guardado no Palácio do Livro, em Jerusalém, também não é um livro, mas um rolo, continuou o escritor. "Nem Sócrates nem Cristo deixaram nada escrito", foi além.Cony afirma ser impossível imaginar o futuro da computação. Mesmo assim, faz previsão. Acha que as telas dos aparelhos de leitura de livros eletrônicos ficarão cada vez mais finas, até atingirem a espessura de uma folha de papel. A lógica do raciocínio é que o homem foi, no passar do tempo, encontrando formas de manter e acumular os textos que criou. E que no futuro próximo o avanço técnico criará ferramentas para que a cultura do texto se torne mais prática e mais barata."Pode haver um livro único, capaz de ler todos os livros." Para Cony, a tecnologia introduzida na década de 90 já ajudou a formar uma geração diferente de leitores. "Recebi um e-mail de um menino que havia gostado de uma crônica minha", conta. O menino, de 12 anos, continua Cony, quis expressar um sentimento que a palavra "muito" não dava conta - e escreveu "muitomuitomuito", tudo junto. Essa nova geração de que Cony fala estaria revertendo uma tendência de pelo menos 30 anos de predomínio da linguagem visual, na opinião do autor.Quando chegou a vez de Ziraldo, o autor deixou claro, de modo polido e engraçado, mas sem buscar conciliação, que não estava de acordo com Cony. "Só se esse único livro tiver cheiro de tinta." O escritor de livros infantis disse que fez muitos de seus livros já pensando no formato -- e foi dando exemplos: a borboleta grampeada, o planeta lilás que na verdade é uma flor, etc.Ziraldo contou que a avó gostava de charadas. Uma pedia que fosse definida "a ferramenta que move a mina desde o princípio". A ferramenta é pá, a mina é lavra. A ferramenta é a palavra, portanto. E, para ele, a palavra encontra sua expressão na voz ou no livro. E ponto.O debate sobre o futuro do objeto seguiu, na tarde, com a reunião de uma seleção internacional: o argentino Francisco Delich, dirigente da Biblioteca Nacional e da Universidade Latino-Americana de Ciências Sociais, a escritora de Uganda Goretti Kyomuhendo e o ensaísta e ex-ministro da Cultura Sérgio Paulo Rouanet, mediados por Muniz Sodré.Livro é ferramenta - Nesse encontro, o livro deixou de ser a preocupação essencial, apesar de o título do debate ter sido O Lugar do Livro no Espaço da Cultura. Os seus limites foram pensados, assim, além das questões meramente físicas.Goretti apontou as dificuldades de se escrever e de se publicar em Uganda e na África, onde não há várias línguas nem ao menos se fala uma língua única deixada/imposta pelo colonizador. Lembrou os altos índices de analfabetismo, da ordem de 40 a 50% e afirmou: "A África forma uma sociedade oral, a figura do livro é uma introdução recente; se você precisa dizer algo importante na África, o melhor caminho talvez seja a música ou o teatro, formas orais." Assim, na sua opinião, não é o momento de se lutar contra o desenvolvimento de novas tecnologias, mas de buscar tornar o objeto livro mais acessível e mais atraente para as populações africanas.Delich, por sua vez, se recusa a ver na informatização o maior inimigo do livro. "O que deveria preocupar é o pensamento único, esse, sim, o grande inimigo do livro, ao pôr fim a todos os debates", afirmou. Ele também apontou uma desvalorização crescente da palavra escrita e uma fetichização do gesto, "como se a imagem pudesse dizer tudo".Rouanet, por sua vez, acredita não estar havendo uma crise do livro, mas, talvez, da cultura. Distingue dois movimentos crescentes: o da cultura globalizante, um verdadeiro cataclismo, e o da cultura universalizante, essa positiva. Sobre o medo de que o livro sucumba, diz: "Nós nos assustamos, em parte, por tradicionalismo; em nossa imaginação, somos todos diretores da biblioteca de Babel, ou ainda, da de Alexandria." Na sua avaliação, é preciso reconhecer o papel das novas tecnologias até para a formulação do pensamento. "O livro é um instrumento valiosíssimo, mas só um instrumento."

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