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Debate em transe

Nelson Rodrigues comparou filme de Glauber de 1967 a ideograma chinês de cabeça para baixo

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2017 | 02h00

E assim se passaram 50 anos. Em 3 de maio de 1967, Terra em Transe, de Glauber Rocha, foi exibido no Festival de Cannes; cinco dias depois estreou nos cinemas do Rio; e em 16 de maio atraiu uma multidão de cinéfilos ao Museu da Imagem e do Som carioca para um debate memorável, o mais concorrido de sua história. O auditório apinhado, gente em pé e sentada no chão, plateia multiplicada nas salas contíguas, por que tamanho interesse por uma discussão em torno de um filme? 

Não era um filme qualquer, mas o primeiro de Glauber depois de Deus e o Diabo na Terra do Sol. Além da natural expectativa gerada pelo segundo e impactante longa do cineasta, Terra em Transe acabara de ser liberado pela censura e fazia uma semana que dividia a opinião do público e da crítica. Mais execrado do que admirado, acusado de confuso, incompreensível e excessivamente alegórico, inclusive ou sobretudo por uma ala da esquerda que exigia dos filmes políticos uma explicitude de difícil trânsito pela Censura da ditadura militar e incompatível com as opções estéticas de Glauber.

No quadro de cotações dos críticos do jornal Correio da Manhã, Terra em Transe levou uma saraivada de bolas pretas. No então mais prestigiado similar, o Jornal do Brasil, a recepção foi menos negativa: apenas uma bola preta (de Ely Azeredo) e quatro notas elevadas (de Alex Vianny, Mauricio Gomes Leite, José Carlo Avellar e deste colunista). 

Em abril, com o filme recém-proibido pela Censura por incitar a subversão e ser irreverente com a Igreja, um manifesto assinado em Paris por Yves Montand, Simone Signoret e toda a Nouvelle Vague aumentou a pressão sobre o governo, e o ministro da Justiça, Gama e Silva, afinal o liberou. Numa conversa com o cantor Roberto Carlos, o abominável Gaminha deixaria escapar que só suspendera a proibição do filme porque nenhum dos encarregados de julgá-lo entendera patavina do que se passava na tela. Convicto de que o público tampouco o entenderia, o ministro exigiu apenas que o personagem de Jofre Soares, genericamente identificado como “padre”, ganhasse um nome nos créditos. 

A ida a Cannes foi outra lenha. Donatelo Grieco, chefe da Divisão Cultural do Itamaraty, pediu a interdição do filme no festival. A direção da mostra limitou-se a exigir uma simples autorização do governo brasileiro para exibi-lo. Podia ser até por telegrama. Zelito Viana, diretor de produção do filme, ditou os termos da autorização por telefone a Glauber, que a redigiu e telegrafou, desmoralizando Donatelo e encerrando a conversa. De lambujem, saiu de Cannes com dois prêmios: o da crítica internacional (Fipresci) e o Luis Buñuel.

E finalmente chegamos ao debate histórico. Como secretário-geral do Conselho Superior de Cultura Cinematográfica do MIS, coube a mim organizá-lo e mediá-lo. O nome pomposo fora inventado pelo diretor do museu, Ricardo Cravo Albim, e batizava todos os conselhos (de teatro, música, etc.) responsáveis pela distribuição anual dos troféus Golfinho de Ouro e Estácio de Sá. À minha direita, sentaram-se Luiz Carlos Barreto (diretor de fotografia de Terra em Transe) e o crítico Mauricio Gomes Leite; à minha esquerda, o cineasta Alberto Salvá, Fernando Gabeira e o crítico Ronaldo Monteiro. De pé, atrás da mesa, o crítico e historiador Alex Viany. 

Quatro daqueles sete já morreram, que horror! Gabeira e Salvá eram os únicos com uma visão negativa de Terra em Transe. Ainda faltavam dois anos para Gabeira envolver-se com a luta armada e não sei quantos mais para ele rever sua posição, na época bitolada por uma exagerada ênfase no conteúdo político dos filmes, como ele próprio admitiria, ao voltar do exílio - e há dias reiterou num podcast sobre o debate, que por esses dias estará disponível no site da revista Piauí. 

Glauber não compareceu ao debate porque estava na Europa. Eduardo Escorel, o jovem montador do filme, chegou atrasado, na companhia de Joaquim Pedro, e, depois de atravessarem a massa humana que lotava o auditório, postaram-se atrás dos debatedores. Do auditório, a certa altura, emergiu a imponente figura do psicanalista Hélio Pellegrino. Convidado por Barreto a assumir seu lugar na mesa, Hélio deu um show. Com sua voz estentórea, contestou os argumentos dos que reduziram o filme a um amontoado caótico de cenas, cheio de som e fúria, significando nada para o chamado grande público. Em 1991, no décimo aniversário de morte de Glauber, Hélio retomou suas impressões sobre o filme num arrebatado ensaio publicado no Caderno B do Jornal do Brasil.

Uma cópia em áudio do debate do MIS permitiu que Escorel o reavaliasse e a partir dele escrevesse uma reflexão que sairá no próximo número da Piauí, nas bancas no final da próxima semana. Ouvi trechos dele, durante a gravação do podcast acima mencionado, e uma vez mais me diverti à beça com a intervenção do momesco Clovis Bornay. Sentado na primeira fila, à paisana, ou seja, sem a fantasia imperial com que aparece na tela e desfilava nas passarelas carnavalescas, Bornay confessou não haver entendido o filme nem seu papel, meramente decorativo, descreveu em detalhes pitorescos como Glauber dirigia os atores e reclamou “daquele menino” (Escorel) que lhe havia cortado as melhores tomadas. 

Fora dali, a coisa mais engraçada gerada pela polêmica em torno de Terra em Transe foi uma crônica de Nelson Rodrigues, publicada no Correio da Manhã, justo no dia do debate. Além de comparar o filme a um ideograma chinês de cabeça para baixo, Nelson confessou só ter gostado da cena em que “dão a palavra ao povo (...) e este faz uma pausa ensurdecedora” por ser, segundo ele, “débil mental”. 

Nelson, porém, saiu do cinema “sentindo nas entranhas o seu rumor”. Depois de uma conversa ao telefone com seu grande amigo Hélio Pellegrino, convenceu-se de que Terra em Transe “era o Brasil” e que Glauber nos dera “um vômito triunfal”. Aos gritos de “genial!”, em uníssono com Hélio, arrematou: “Os Sertões de Euclides da Cunha também foi o Brasil vomitado. E qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil precisa ser essa golfada hedionda”.

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