De volta para o futuro

Às vezes você sai de casa e tropeça numa metáfora. Foi o que ocorreu outro dia no meu exame médico anual. Primeiro, porém, preciso lhes falar do meu médico, vamos chamá-lo de Doutor X.

Lee Siegel, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2011 | 03h07

O Doutor X costuma dizer que gostaria de ser escritor. Isso se deve, talvez, ao fato de que, como muitos de seus colegas, ele sente que perdeu sua autoridade para empresas de assistência médica burocráticas e processos judiciais onerosos. Os escritores, por sua vez, não precisam preencher 20 formulários para cada peça que publicam, e raramente são processados. E, enquanto as pessoas se sentirem indispostas por alguns minutos a cada dia, os escritores serão lidos. Mesmo que logo esquecido, ser lido confere uma migalha de autoridade.

De minha parte, eu cobiço a vida do Doutor X. Ele é calmo, responsável, senhor de si, e um curandeiro talentoso. E tem mais, ele é rico. Como gastroenterologista, ele realiza, assim me disseram, aproximadamente 20 colonoscopias por semana a US$ 1.500 cada uma. Se eu recebesse meros US$ 10 a cada vez que me deparei, socialmente, com essa parte particular da anatomia, o New York Times recorreria a mim e não a Carlos Slim na próxima vez que precisasse tomar US$ 250 milhões emprestados.

O tipo de escritor a que o Doutor X aspira ser, em suas breves fantasias vicárias, é o comentarista político. E assim, durante o exame da minha próstata - não, não é esta a metáfora, não ainda - ele trouxe à baila o tema da economia americana. Não dá para ficar empurrando com a barriga, disse ele sobre a dívida nacional. Não há vontade política para mudar isso, tampouco, ele prosseguiu. Há apenas resistência absoluta de um lado, e equívoco absoluto do outro. A situação, concluiu, enquanto terminava, arrancando sua luva de látex, é desesperadora. Não se preocupe, ele disse, dando-me um tapinha nas costas enquanto meus olhos se enchiam de lágrimas, 'eu não me referia a você'.

O exame prosseguiu e a conversa enveredou para outros países, outras economias. Então eu lhe contei - me gabei, se querem saber a verdade - que acabava de ser contratado por este jornal para escrever uma coluna quinzenal. Ele parou e me fitou, os olhos bem abertos. "Brasil!", exclamou. É um lugar notável, disse. Poderoso e crescendo, cheio de esperança e promessa. Sorriu para mim e se despediu com um aperto de mão.

Você chega ao outro lado dos 50 e suas visitas anuais ao médico mudam. Há mais temores, mais medicações, mais exames. O médico já não lhe pergunta como vão seus pais. Pergunta como eles morreram. O prazer de viver começa lentamente a se fundir no negócio de permanecer vivo. Civilizações são assim, também. Enquanto eu crescia, o Brasil era a forma empolgante do que estava por vir. Brasília começou a subir em seu planalto quase na mesma época em que nasci. São Paulo estava se transformando quando eu frequentava o primário. Em romances e filmes, o Brasil era retratado como o futuro dourado.

Agora, de uma perspectiva americana, o futuro do Brasil é o passado dos Estados Unidos. O Brasil é o passado americano dourado. Com sua economia florescente e suas classes sociais em ascensão, o País lembra os Estados Unidos logo depois da 2.ª Guerra Mundial, quando a política funcionava, as pessoas tinham empregos, e a mobilidade social era a norma para muitas pessoas. O Brasil virou o lado brilhante do capitalismo.

Nos Estados Unidos de hoje (eis a metáfora), o prazer de viver se tornou agora o negócio de permanecer vivo. Há muitos temores, muitos exames, mas nenhum remédio à vista. O capitalismo americano, impelido por seus excessos, caiu em seu lado escuro. O sentimento por aqui é de que não há ninguém nos controles. Ninguém tem uma autoridade decisiva.

Ninguém sabe cuidar de ninguém. Nessa situação, todos desejam ser um médico capaz de sanar a deterioração do ambiente. Mas, enquanto entregava meu cartão de seguro a uma dentre meia dúzia de assistentes do doutor, ali na mesa de recepção - junto com amostras para o laboratório -, eu me lembrei de suas palavras de despedida e sorri. Brasil, eu disse para mim, você pode perfeitamente acrescentar alguns anos à vida de um escritor americano.

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