De volta para escola

Eva Wilma, que completa 80 anos em 2013, retorna à cena como protagonista do espetáculo Azul Resplendor

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

17 de julho de 2013 | 02h10

Com seu melhor vestido e luvas nas mãos, estava sempre a postos nas escadarias do Teatro Municipal. Olhava de um lado para o outro, como se esperasse alguém. Era só um jeito de disfarçar até que o público todo entrasse. Só depois que aqueles que tinham ingresso já estavam acomodados, é que o bilheteiro vinha recolher Eva Wilma e tratar de colocá-la para dentro. Foi assim que assistiu aos seus primeiros espetáculos. Mas, bem pouco tempo depois, seria ela quem estaria em cima do palco.

No mesmo Municipal, Eva apresentou-se com as bailarinas do Balé do 4.º Centenário. Havia sido selecionada entre candidatas do Brasil inteiro. Puxava a fila ao som da marcha militar de Schubert. "Foi meu primeiro emprego, o primeiro contrato de trabalho", conta. "Seriam 19 coreografias. Mas eu pedi demissão depois do primeiro balé, logo no terceiro mês."

Para explicar o porquê da radical decisão, Eva Wilma diz que precisa recuar um pouco mais no tempo. Até o momento em que conheceu John Herbert, seu primeiro marido. "Um dia, fui visitá-lo em um set da Vera Cruz. Ele estava gravando Uma Pulga na Balança. E eu acabei chamada para fazer uma pontinha. Tive que dizer uma fala. Nunca me esqueci."

Foram só algumas palavras. Parece, porém, que tudo havia saído do lugar. "Tudo aconteceu naquele mesmo ano: 1953", lembra. De pronto, foi chamada para fazer três filmes. Na sequência, conheceu também José Renato, diretor que a carregaria para o Teatro de Arena e a faria encenar, de uma só vez, dois espetáculos: Esta Noite É Nossa, de Stafford Dickens, e O Demorado Adeus, de Tennessee Williams. Já seria o bastante para uma estreia. Mas a história não termina por aí. Cassiano Gabus Mendes surgiu no caminho e Eva ganhou o papel de protagonista em Alô Doçura - a série que permaneceu no ar por dez anos na TV Tupi.

Não foi preciso muito esforço para que o reconhecimento viesse. Dali em diante, a atriz apareceu em filmes marcantes do cinema brasileiro, como Cidade Ameaçada (1960), de Roberto Farias e São Paulo S/A (1965), de Luis Sérgio Person. "Com Cidade Ameaçada participei da Semana de Cinema Brasileiro em Roma. Foi quando conheci a Europa. E também Person, Gustavo Dahl e Paulo Cesar Saraceni. Quando os filmes terminavam, nós saíamos pela cidade de braço dado, cantando a noite inteira."

Da intensa passagem pela televisão, na qual se revezou entre mocinhas e vilãs, ela também guarda boas lembranças. De um tempo em que tudo era mais simples, em que as novelas eram gravadas quase ao vivo, quando figurino e maquiagem se resolviam em cinco minutos. "Quando fazia Mulheres de Areia, a mudança de uma personagem para outra era muito simples: para Ruth, dividia o cabelo no meio e colocava uma fivela. Para Raquel, soltava tudo, sacudia e punha um batom vermelho. Era só isso", conta ela, que participou de outras tramas de Ivani Ribeiro, como Barba Azul (1974) e A Viagem (1975).

Alcançar o sucesso foi fácil. Só que ninguém o mantém por anos a fio sem certa ciência. "Desde o início, sempre fiz questão de ser livre. Não tinha contrato com a Tupi. Queria estar sempre pronta para ir fazer outra coisa, para voltar ao teatro", observa. "Sabe o que é? O cinema é a arte do diretor. Na televisão, quem manda é a audiência. Mas no teatro quem é soberano é o ator."

Azul Resplendor, espetáculo que ela encena sob a direção de Renato Borghi e Elcio Nogueira Seixas, marca seu retorno aos palcos após um hiato de cinco anos. A última montagem havia sido O Manifesto (2007/2008). Mas, aparentemente, essa distância foi apenas circunstancial. Quando fala da profissão que escolheu, Eva lança mão de uma imagem: teria sido "infectada por um micróbio." Alguma doença que pode até amainar-se. Mas não tem cura.

A veterana atriz diz que se "formou" no Teatro de Arena. Lá, recebeu os instrumentos de que precisava. Mas nunca teve um pouso só. José Renato a dirigiu até o início dos anos 1960. Depois vieram outros: Eugênio Kusnet, Ziembinski, Ademar Guerra, Antunes Filho.

Todos eles aparecem em sua fala. Cada nome mencionado parece abrir uma gaveta, de onde saltam histórias e ensinamentos. Não lhe fogem datas, nomes, detalhes. Sentada no sofá de sua casa, ela viaja no tempo. Vai e volta. E o passeio só termina quando precisa partir para mais um ensaio. "É hora de ir para o teatro", ela se despede. "Hora de voltar para escola."

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