DE VOLTA PARA CASA

Iracity Cardoso, que já dirigiu o Balé da Cidade, retorna à cia. com desafio de se aproximar dos corpos do Municipal

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2013 | 02h09

A troca de comando no Teatro Municipal impactou também o Balé da Cidade. Ligada à casa lírica, a companhia de dança ganhou uma nova diretora - Iracity Cardoso - e abraçou uma nova ambição. Em declarações à imprensa, John Neschling já expressou seus planos. Quer que o conjunto se integre ainda mais aos outros corpos estáveis do Teatro. "Podemos trabalhar mais com as orquestras, com o coro. Isso deve acontecer", observa Iracity, em sua primeira entrevista desde a nomeação.

O maestro também sugeriu que gostaria de ter o balé participando das óperas. E vê-lo, inclusive, "dançando nas pontas". Seria essa uma dificuldade para uma companhia que há tanto tempo deixou o repertório clássico? A nova condutora do Balé da Cidade acredita que não.

"Neschling e eu falamos a mesma língua. Não vejo o menor problema em colocar o Balé para fazer ópera. Essa não é uma companhia que faz balé clássico tradicional, mas fazemos treino de clássico diariamente. Dançar na ponta é uma técnica, você precisa de um tempo para exercitar, mas é algo simples. Eles podem fazer perfeitamente", observa. Há cerca de três semanas, Iracity Cardoso assumiu o posto que era de Lara Pinheiro. Este é seu primeiro cargo desde que deixou a condução da São Paulo Companhia de Dança, grupo que ela ajudou a fundar em 2008 e no qual permaneceu até 2012. "A SPCD é um sonho realizado. Mas chegou a um momento em que houve uma ruptura. Um olhar diferente na maneira de trabalhar e eu preferi me afastar", diz ela, que acumula passagens pela direção do Ballet Gulbenkian, em Portugal (1996 a 2003), e do Ballet du Grand Theatre de Genebra (1980 a 1993).

A despeito das experiências internacionais e do tempo que passou fora do País, a bailarina está ligada aos primórdios do Balé da Cidade. Entre 1974 e 1980, dançou no conjunto e também o dirigiu. "Ao voltar para cá, me senti fazendo uma viagem no tempo", contou.

É fácil entender essa sensação de retorno ao passado. À época, ela ajudou a definir o perfil de dança contemporânea que ainda hoje caracteriza o grupo. E escolheu o prédio, na Bela Vista, onde até hoje funciona a sede do Balé. "Nos disseram que seria um edifício provisório. Mas já se passaram quase 40 anos. Espero ter a oportunidade de fazer agora a mudança para a sede definitiva", comenta, referindo-se à Praça das Artes, legado da administração anterior que a atual direção do Municipal promete completar este módulo em 2014.

Não é só a mudança de sede que está no horizonte da companhia. Outro importante desafio será a transição e adaptação ao novo modelo administrativo da instituição. Em 2011, foi aprovado na Câmara o projeto que transforma o Teatro Municipal em uma fundação de direito público, o que deve lhe dar maior autonomia e independência para atuar. Apesar de sancionada, a proposta do ex-secretário, Carlos Augusto Calil, ainda não foi completamente implementada.

"Minha expectativa é de que os problemas que temos agora, alguns deles de décadas atrás, finalmente se resolvam", diz Iracity. "Será muito importante solucionar a situação de precariedade dos contratos de trabalho. E a passagem para a estrutura de fundação deve resolver isso." Curiosamente, ela acompanhou de perto as primeiras discussões sobre a atual transformação administrativa do Teatro. Entre 2006 e 2007, fez parte da equipe da Secretaria Municipal de Cultura. "Conhecer as dificuldades a fundo certamente me ajuda a ter a paciência necessária para lidar com elas."

Para 2013, o Balé espera conciliar os planos para o futuro - que incluem a estreia de duas novas coreografias - com as comemorações de seus 45 anos. Em seu primeiro programa do ano, que ocupa o Municipal entre 4 e 7 de abril, irá dançar ao lado do Ballet Stagium e da Cia. Cisne Negro. "São grupo pioneiros, desbravadores como o Balé da Cidade."

Também existe a intenção de recuperar, ao longo da temporada, obras marcantes de sua trajetória. "Há peças importantes do Balé que ficaram na memória do público, mas nunca mais foram dançadas. Vamos trazê-las de volta. É tempo de olhar para nossa história e celebrar."

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