JF Diorio/ Estadão
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De volta e em forma

Em 'Operação Trem-Bala', Naum Alves de Souza encena o primeiro texto próprio em 15 anos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2013 | 10h45

Naum Alves de Souza nunca deixou de escrever. Ao longo dos últimos anos, o consagrado autor de Aurora da Minha Vida também continuou a atuar como diretor, conduzindo espetáculos de dramaturgos clássicos e contemporâneos. Com Operação Trem-Bala, porém, volta a fazer algo que as plateias não puderam presenciar nos últimos 15 anos: ele encenando um texto de sua autoria.

A partir de um conto inédito Almoço de Ação de Graças, Naum criou o argumento da peça que estreia hoje no Instituto Capobianco. Em foco, estão as agruras de um casal de velhos. Marido e mulher já estão senis. A família, então, faz planos de livrar-se deles e apressar a divisão de bens. “É o que acontece com a maioria das pessoas hoje”, afirma o diretor. “Conforme vão envelhecendo, começam a perder espaço. São desalojados, a casa é vendida, vão morar em apartamentos pequenos, perdem as suas coisas. Até chegar a um ponto, quando os sintomas de Alzheimer aparecem, em que as famílias não sabem mais cuidar dessas pessoas dentro de casa.”

O tema escolhido pelo escritor parece estar na ordem do dia, reforçado pela longevidade da população e o esgarçamento da estrutura familiar. Mas não é a primeira vez que esse momento cruel da vida – o envelhecimento e seu desamparo consequente – desponta em sua obra. Lançada em 1979, No Natal a Gente Vem te Buscar contava a história de uma mulher que toma um trem acreditando ter como destino a casa de uma irmã, mas é conduzida a um asilo. Desse ponto em diante, a estrutura em flashback revela o interior dessa família. Seus vícios, sua moral, sua vontade de, enfim, desvencilhar-se da protagonista, uma solteirona desinteressante. “Ela é chata, sempre foi. É boba, inconveniente. É a chance de mandá-la embora. Fiz de um jeito que incomodasse mesmo”, conta ele, que conquistou os prêmios Molière de direção e autoria pelo espetáculo.

Uma diferença essencial da nova criação em relação às anteriores é o contexto social das personagens. A classe média deixa de ser o lugar de onde se fala. Operação Trem-Bala vem falar de figuras endinheiradas, gente que está no poder desde sempre, perpetuando-se. A queda, neste caso, é de mais alto. E, talvez por isso, soe ainda mais aguda.

Na atual trama, Sua Excelência, um velho governante, e sua primeira mulher, Bluma, são enganados por suas filhas. Preparam-se para embarcar de bom grado em um trem-bala sem saber que este os levará para um forçado exílio. “As pessoas não pensam na velhice, gente que trabalha a vida inteira para acumular coisas, para deixar bens para os filhos. Não se pensa em mortalidade, mas em imortalidade”, observa o encenador, que completa 70 anos e comemora 40 de carreira. “Os velhos tornam-se estorvos. E ninguém imagina que um dia também será esse estorvo para alguém.”

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