De volta às novelas, Falabella ruge

Faz oito anos que Miguel Falabella não aparece em uma novela da Globo - seu último trabalho foi o vilão Mauro, de Cara ou Coroa, de 1995. Mas o público não teve chance de sentir saudade: sua presença na mídia foi sempre tão maciça que parece que ele foi visto pela última vez ontem à noite. Agora Falabella, que nunca se foi, está de volta ao ar, como o protagonista Juca Tigre, novamente um vilão, em Agora é Que São Elas, novela das seis de Ricardo Linhares que estréia na próxima segunda, dia 24. Mas é claro que o ator não limita sua rotina "apenas" à teledramaturgia. Famoso por "fazer mil coisas aos mesmo tempo", Falabella ainda intercala as gravações diárias com outras cinco atividades. Por partes. Desde janeiro, o ator dá plantão no campo administrativo, como gestor dos dez teatros e seis lonas culturais mantidos pela prefeitura do Rio de Janeiro. "Quero levar o povão ao teatro, torná-lo uma arte plural, que abrigue todo tipo de espetáculo", diz. No mesmo mês, ele voltou a pisar no palco, no espetáculo Batalha de Arroz num Ringue para Dois, ao lado de Claudia Jimenez, novamente em cartaz no Rio de Janeiro. Batalha deveria ter se transformado em um seriado na Globo, no estilo de Os Normais, mas foi engavetado pela emissora. "Foi engavetado, ué! O que é que tem? Mas repórter vem com cada perguntinha...", dispara, enraivecido. Desde o ano passado, Falabella trabalha no lançamento de seu livro infantil (aliás, sua estréia nessa área), O Eleito, um romance que será dedicado a Enzo, filho dos atores Cláudia Raia e Edson Celulari. "É um romance para que as crianças aprendam a amar o País. Já devia estar pronto, mas falta tempo para terminar a história", explica o ator, substituindo a expressão anterior de contrariedade por um sorriso paternal. Ele ainda responde pela direção do espetáculo Veneza, com Laura Cardoso, Tuca Andrada e Arlete Sales, com estréia prevista para abril, no Rio de Janeiro. E, para completar a rotina, ainda atua como garoto-propaganda de um banco. "Tá difícil, tá difícil... Só consigo conciliar tudo isso por um milagre divino. Mas eu gosto deste ritmo", disse, em um dos momentos bem-humorados da entrevista coletiva para o lançamento de Agora é Que São Elas, ocorrida semana passada, no Projac, Rio de Janeiro, à qual compareceu o Jornal da Tarde. Jornal da Tarde - Por que voltar às novelas em uma trama das 18h? Miguel Falabella - Entrei em Agora é Que São Elas como substituto. O papel foi escrito para o Fábio Junior (que, por questões contratuais, recusou o convite em cima da hora). Em janeiro, estava no teatro ensaiando Batalha de Arroz... quando o diretor Roberto Talma chegou, do nada. E ele me pediu para que aceitasse o papel. Não tem como dizer não ao Talma. Por quê? Quando cheguei da Europa, em 1982, eu estava na pior. Via todos os meus amigos trabalhando e eu sem nada. Então, em uma festa, fomos apresentados e ficamos horas conversando na varanda. Eu todo chateado, um Maria Madalena de tantos lamentos. Dias depois, ele me convidou para trabalhar em Sol de Verão, meu primeiro papel na Globo, e então fui ficando. Definitivamente, não tem como dizer "não" ao Talma. E o que achou agora do papel? O máximo. Ele tem muito da minha zona de brilho, que é a comédia. Além disso, tem o texto do Linhares, que é ágil, muito bom e o personagem é bem estruturado. Como autor, você tem colocado "cacos" no texto? Não tem como. Gravamos 20 cenas por dia e não dá para trabalhar ou improvisar dessa forma. Não tem tempo para isso. Depois de tanto tempo afastado, como é estar de volta a uma novela? Novela tem disso: tem que gravar enlouquecidamente todos os dias. Não adianta estar com dor de dente, de mau humor, de mau hálito. Problema da gente e da produção também. Mas, por enquanto, tudo certo. Não adianta: nasci para fazer mil coisas ao mesmo tempo. O Juca parece que tem muito do Caco de Sai de Baixo, ainda mais fazendo par romântico com Marisa Orth, a Magda... Minha filha, tomara que o público lembre mesmo de Caco e Magda! É muito difícil fazer sucesso no Brasil, meu amor, nesse país dominado por popozudas e políticos corruptos. É ótimo voltar a atuar com Marisa. Temos uma intimidade cênica muito grande, nossa comunicação deslancha via olhar. (Nesse momento, coincidentemente, Marisa passa ao lado.) Ai, como é bom estar de novo em contato com essa coxa e essa bunda! E tem também a Vera Fischer com quem nunca tinha contracenado e batemos um bolão nas primeiras cenas. Veja só como é a vida: eu, entre dois mulherões. O que dever ter de neguinho com inveja de mim não é brincadeira. (Risos.)

Agencia Estado,

18 de março de 2003 | 11h30

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