De volta aos tempos do rádio

Há cinco anos, a cantora paulistana Silvia Handroo surpreendeu-se diante de uma das reprises em preto e branco do programa Ensaio, apresentado pela TV Cultura. Não conseguiu afastar os olhos da entrevistada, uma mulher de rosto arredondado, fala fácil, um indisfarçável sotaque paulistano que privilegiava os ´erres´ e um estado de espírito que ia do bom humor à introspecção em questão de segundos. A mulher do programa era Isaurinha Garcia, a ´Personalíssima´, primeira e única rainha da rádio paulista em uma época em que os súditos cariocas da música brasileira dividiam-se entre Emilinha Borba e Marlene. Desde aquela reprise que a vida, a voz aguda e o repertório de Isaurinha (1923-1993) não abandonaram mais os projetos profissionais de Silvia Handroo. A partir dali, a jovem cantora mergulhou em um cuidadoso trabalho de pesquisa do qual emergiu, neste ano, com o espetáculo Personalíssimo Coração, que ela prefere chamar de monólogo musical e que, em elogiadas apresentações em casas noturnas da cidade, apresenta Isaurinha Garcia para uma geração que cresceu a quilômetros dos velhos programas de rádio. Formada em composição e regência pela Unesp e durante três anos integrante do Coral do Teatro Municipal, Silvia Handroo decidiu também levar o repertório de Isaurinha para os estúdios. Escolheu 15 canções da cantora, entre elas as clássicas Mensagem (que valeu a Isaurinha o apelido de Rainha dos Carteiros) e Risque para rechear o álbum que chega ao mercado em 2003, quando se completam dez anos da morte de Isaurinha. "Ela era muito irreverente, uma cantora à frente do seu tempo", diz Silvia. "Foi um dos primeiros nomes da velha guarda a aderir à bossa nova. As pessoas falam muito da reclusão e das crises de depressão de Isaurinha, mas o brilho dela foi maior que a tristeza. Ela soube, a vida toda, fazer apenas o que tinha vontade". Personalíssimo Coração, o show que Silvia faz com o apoio de cinco músicos, divide-se em duas partes. Na primeira, a cantora incorpora os trejeitos, o sotaque e o figurino de sua homenageada. Na segunda parte, não menos cativante, faz uma leitura atualizada de músicas que Isaurinha defendeu nas décadas de 40 e 50. Em sua pesquisa sobre a vida da cantora, Silvia Handroo, 36 anos, recorreu à monografia A Personalíssima Isaura Garcia, escrita por Regina Fazenda, também formada em regência, a pedido da Funarte. Integravam a monografia várias horas de depoimentos de Isaurinha que nunca chegaram ao público. Todo material, depois, Silvia encaminhou ao neto da cantora, Rick Garcia, que pretende transformar em livro para também ser publicado no ano que vem. Silvia Handroo é uma cantora que, mesmo participando de espetáculos de temática um pouco mais moderna, como o musical Hair, dirigido por Jorge Fernando, sempre manteve os ouvidos presos ao trabalho de compositores da primeira metade do século 20. "Meu trabalho sempre privilegiou as composições de Noel Rosa, Pixinguinha. Sou fascinada pela produção musical dos anos 30 e 40", diz a cantora, que também integrou o elenco dos musicais Besame Mucho e A Cor de Rosa, baseado na vida de Noel e que teve direção de William Pereira.

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