De volta ao reino de Maria Heloísa

Aos 93 anos, além de continuar produzindo, escritora e ilustradora tem suas antigas histórias revisitadas e relançadas

BIA REIS, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2013 | 02h07

Quando pequena, a escritora e ilustradora Maria Heloísa Penteado brincava de reunir as crianças para contar histórias que inventava. A plateia era grande: só os irmãos ocupavam sete lugares na roda, e havia também os amigos. Depois, vieram os desenhos, cujas folhas, comumente deixadas no chão pela menina, enlouqueciam a mãe em Araraquara (SP). Agora, aos 93 anos, Maria Heloísa anda revisitando as próprias histórias, que estão sendo reeditadas pela Editora Ática. "Tenho curiosidade sobre meus próprios livros", conta a escritora, em seu apartamento onde vive com uma irmã, em São Paulo.

O processo, longo e trabalhoso, mas muito prazeroso, é feito no tempo de Maria Heloísa. Com uma edição do livro em mãos, a escritora aponta palavras: suprime adjetivos, atualiza o vocabulário, pensa e repensa seus significados. Modifica, com delicadeza, a pontuação.

Primeiro, a escritora se debruçou sobre No Reino Perdido do Beleléu, publicado pela primeira vez em 1980. Ao longo de um ano e meio, voltou ao reino para onde vão todas as coisas perdidas. Recuperou as ilustrações originais, de sua autoria, e viu nascer um projeto gráfico com papel nobre e coloração vintage.

Depois foi a vez de Maricá, Marilá e Maricolá, a história das três irmãs que se orgulham de ser 100% bruxas. A nova edição do livro, publicado inicialmente em 1981, recuperou os desenhos de Maria Heloísa, em preto e verde, que haviam sido substituídos na versão anterior.

Recentemente, a escritora acompanhou o relançamento de seu maior clássico: Lúcia Já-Vou-Indo. Para a edição, resgatou as ilustrações de 1976, com as cores vibrantes que usou para dar vida à lesma que faz tudo devagar e está sempre atrasada para seus compromissos.

"O livro era impresso em fotolito e, com o desgaste do tempo, a intensidade das cores foi se perdendo. Só conseguimos recuperar essa qualidade, as cores deslumbrantes, porque a Maria Heloísa havia guardado todas as ilustrações originais do Lúcia", diz Lavínia Fávaro, editora de literatura infantil da Ática, responsável pela reedição de parte da obra da escritora. Agora, Lavínia trabalha em mais um título, Marcus Robô, previsto para chegar às livrarias no fim do ano. "Queremos dar uma cara mais atual para alguns de nossos títulos e decidimos começar pelos nossos tesouros."

A nova edição de Lúcia resgatou também os textos escritos dentro dos desenhos, marca de Maria Heloísa. "Hoje isso é bastante comum, mas na época não era", afirma a escritora.

Estreia. A história da lesma de cabelos enrolados que carrega uma cesta com alface foi publicada pela primeira vez nas páginas do Estado, em 1957. A professora que trabalhou em escolas públicas de Campinas antes de chegar, em 1944, a São Paulo, com os pais, começou a trabalhar para o jornal em 1949. Certa vez enviou um texto para o Suplemento Feminino e logo foi convidada para organizar as duas páginas dedicadas às crianças que eram publicadas semanalmente.

Nessas páginas, Maria Heloísa apresentava suas histórias e ilustrações, além de brincadeiras, trava-línguas e adaptações de contos universais, como os dos irmãos Grimm e de Hans Christian Andersen. "O jornal importava um suplemento infantil da França e eu achava aquilo muito europeu. Passei a fazer algo mais brasileiro", diz.

Para Maria Heloísa, suas histórias continuam atuais porque as crianças de antigamente não são muito diferentes das de hoje. "Elas continuam iguais. Por isso procuro falar com a mesma naturalidade, sem erudição, como fazia." E como continua fazendo. Além de acompanhar o resgate de seus livros, a escritora segue produzindo, no seu tempo. Quem anda rondando sua cabeça é Maria Rosa, uma menina que gosta de pílulas coloridas. "Quando eu escrevia e desenhava, era sempre a história que vinha primeiro. Agora, fico apenas com a história." E que venham outras.

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