De volta à ficção

Autor de livros sobre arte, o crítico Rodrigo Naves lança 'A Calma dos Dias'

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

02 de março de 2014 | 02h12

Mais conhecido como crítico de arte, autor de livros fundamentais sobre El Greco, Amilcar de Castro, Goeldi e Nelson Felix, entre outros, o paulistano Rodrigo Naves volta à ficção 15 anos depois de sua estreia com O Filantropo. Seu novo livro, A Calma dos Dias, é igualmente uma obra literária híbrida. Em prosa poética, Naves combina ensaios, pequenas crônicas do cotidiano, reflexões sobre comportamento e perfis de artistas amigos. Tudo isso com o extraordinário talento de um professor de arte avesso à comunicação arbitrária. Em A Calma dos Dias, a linguagem deixa de ser puramente instrumental para estabelecer um vínculo afetivo com o leitor. Trata-se de um esforço reconstrutor de um homem que esteve à beira da morte, à deriva entre o céu e sabe-se lá que estação infernal.

Naves, felizmente, continua entre nós. E bem. Ele vai autografar seu livro no dia 22, no Centro Universitário Maria Antonia. A Calma dos Dias chega antes às livrarias (dia 7). É provável que muitos de seus leitores tenham conhecido alguns dos amigos de Naves citados na obra (Mira Schendel, José Paulo Paes, Willys de Castro), mas não da maneira como ele os descreve. Essa forma híbrida inventada pelo escritor é um instrumento linguístico submisso ao onírico, não ao mundo da razão, na fronteira de uma revolução morfológica que dispensa o léxico incompleto dos gramáticos, como se estivesse trazendo o cinema para o interior da linguagem literária, dando à palavra um uso particular.

O grande crítico literário João Moura Jr., um dos amigos cujo perfil ele tenta (de forma heroica) definir no novo livro, disse, a respeito de O Filantropo, que a "promiscuidade de gêneros" em seu livro de estreia na ficção produzia de imediato um "choque moderno". Com efeito, trata-se de uma experiência literária pós-cubista, em que a fragmentação dos elementos, ao decompor seus personagens em partes, tentava reconstitui-los em sua integridade.

Curiosamente, no melhor perfil de A Calma dos Dias, o do poeta José Paulo Paes (1926-1998), de quem Naves foi grande amigo, essa modernidade se traduz na evocação de Merleau-Ponty pelo autor. O fenomenólogo francês dizia (a respeito de Cézanne) que "o melhor de um artista deve ser buscado em sua obra", resistindo à ideia de cruzar biografia e trabalho. Naves, porém, comenta que são "neuróticos renitentes" como Cézanne que entendem de salvação. Como explicar de outra forma os "epigramas econômicos" de Paes, anteriores ao livro Prosas Seguidas de Odes Mínimas, sem considerar o agravamento da doença do poeta? De forma semelhante, como justificar a opção pelos epigramas por Naves sem considerar a urgência desse homem, monumento da crítica no Brasil, de compreender os estados experimentados por ele no hiato entre vida e morte?

Não é uma inconfidência. Após breve nota introdutória, em que Naves fala de seu retorno à prosa e justifica a natureza híbrida do livro, o autor declara: não está se despedindo. "Acontece que as forças diminuem e julguei por bem me desfazer de parte da bagagem." Lembra um pouco o personagem John Grant, do perturbador livro de Kenneth Cook, Sobressalto (Wake in Fright), cruzando o árido outback australiano e despejando sobre a areia os seus livros. Grant, um professor, como Naves, é então conduzido à escada de descida ao purgatório, cercado por caçadores de cangurus que o fazem beber e voltar à mais aberrante barbárie.

Em passagens do livro, Naves recorda também suas noites selvagens e etílicas com os amigos (como na narrativa O Balcão e Meu Amigo João). Não chega a matar cangurus, como John Grant, mas faz, a exemplo do professor australiano, um balanço da própria vida e se vê - ele e o amigo João - como "duas corujas velhas, esperando do álcool, das drogas, da noite e dos amigos muito mais do que eles poderiam oferecer".

A forma curta desses relatos torna evidente que a literatura buscada por Naves é a do compromisso com a vida, com a própria experiência existencial, o que não significa necessariamente sucumbir ao docudrama ou ao naturalismo rasteiro. Se a descontinuidade do tempo na tela levou à criação do cinema de poesia de Pasolini, no conjunto de textos curtos de Naves é a poesia que anula o tempo e conduz a uma técnica narrativa que inverte essa ordem, como no poema Queda (Cair assim/sem peso/como um/sabiá). Pasolini, ao falar da morte, em La Religione del Mio Tempo (1961), diz que volta a ela (a morte) como um emigrado a seu país, redescobrindo-o com medo e raiva. A morte está incluída nesse estado, distante para ser percebida, mas próxima demais para ser ignorada - como na visão do sabiá que cai sob o olhar de Naves. É necessário cruzar a fronteira entre os gêneros (prosa e poesia, por exemplo) para entender melhor a filosofia - que não é outra coisa além de meditação sobre a morte, como assinalou o historiador Philippe Ariès.

Não se conclua por isso que falte humor no livro. O exemplo do ensaio Maritacas, sua incursão no mundo da moda, é divertidíssimo. Nele, Naves compara meninas de top cintura baixa a um bando de maritacas ruidosas que "alegram uma árvore inteira" e são extremamente volúveis. Ele, como todos os outros homens, custam a entender por que, antes de tudo, essas calças devem cair, sendo suportadas apenas pelos ilíacos. Por que, afinal, ceder à gravidade antes que a morte imponha a esses corpos uma desconfortável queda? Impossibilitado de responder à pergunta, Naves volta-se para o exame da uniformização cultural que, em nossos dias, obriga essas pobres escravas da moda a usar calças incompatíveis com suas cinturas finas e coxas grossas.

Voltando ao habitat natural, Naves dedica ao professor de Literatura José Antonio Pasta, irmão do pintor Paulo Pasta, um dos melhores textos de A Calma dos Dias. Nele, o crítico discute a aproximação entre arte e vida e a dimensão lúdica de obras contemporâneas, que reduzem o espectador à condição de idiota. É contra a noção de paródia e comércio artístico (Jeff Koons, por exemplo) que se insurge. Os malefícios do capital são denunciados no conto Teoria do Cão. Nele, um homem adota o cachorro de um mendigo, após sua morte, para em seguida ser conduzido pelo vira-lata às ruas e viver da caridade alheia. Enfim, um trágico moderno.

A CALMA DOS DIAS

Autor: Rodrigo Naves. Editora:

Companhia

das Letras

(171 págs.,

R$ 34). Nas livrarias, dia 7.

"Foi na época em que, por motivo de saúde, precisei abandonar os cigarros e as drogas...

Além disso, a pressão alta me obrigou a perder dez quilos. Bem-sucedido nos três casos, julguei que poderia superar todos os obstáculos pela força de vontade, o meu forte. E isso me deixou eufórico. Pus-me inclusive a imaginar novas dificuldades, de modo a poder experimentar o gosto do triunfo sobre as adversidades: larguei os refrigerantes, o açúcar e até mesmo a cerveja.

Contudo, uma insatisfação renitente continuava a me intranquilizar. Então me dei conta de que restringia meu poder de decisão apenas a renúncias e que certamente o exercício positivo de suas forças poderia me abrir caminhos desconhecidos."

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