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De uma cesta de Natal

Para quem não acredita nele, Papai Noel deixou um feixe de historinhas verdadeiras

Humberto Werneck, O Estado de S. Paulo

27 Dezembro 2016 | 02h00

Para quem não acredita nele, Papai Noel deixou um feixe

de historinhas verdadeiras

Doses de vida real, para quem acha que Papai Noel é o pai da gente.

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Relato de um avô que, pelo visto, legou ao neto de 9 anos seus talentos de sedutor:

“O André está apaixonado por uma colega de escola. Ficamos sabendo porque ele gravou uma confissão no WhatsApp – o Dedé e os amigos se comunicam pelos celulares dos pais. Corajoso, o carinha: reconheceu que a menina não gosta dele. Mas não quis ficar em desvantagem: “Eu também não gosto dela”. Em seguida, porém, entregou os pontos:

– Ela não sai da minha cabeça...

Silêncio ruminativo.

– ... o que significa que eu gosto dela.

O áudio bombou na turma. Foi assunto de conversa no carro em que a mãe de um colega levava três ou quatro para uma festa. Dedé tentou descrever o fogo que o consome, e sua luta para ficar no controle: seu coração, explicou, é um “dragão”, e o cérebro, um “cavaleiro” montado no dragão. Os meninos ficaram mudos, mas a menina quis saber:

– E seu pinto?

Dedé, impávido:

– Meu pinto está vagando.

*

A falta d’água, isso que as autoridades chamam de crise hídrica, se desdobrava em efeitos colaterais. Na casa de praia, o jeito de agilizar o banho das crianças foi mandá-las para o chuveiro com algum adulto.

O avô está lá dentro, em pelo, quando entra o neto de 6 anos. Mal se fecha a porta e vem o berro:

– Meeeeu! Parece um extintor de incêndio!

*

O avô português de meu amigo Paulo vivia numa chácara em Inhaúma, no Rio de Janeiro, e ali, na data nacional do país adotivo, fazia questão de hastear a bandeira brasileira. Mais: achava que a cerimônia exigia hino. Como o netinho não conhecesse o Virundum, buscou alternativa:

– O que tu sabes cantar, ó m’nino?

– O Periquitinho Verde – respondeu o garoto, e foi ao som desafinado da marchinha de Antônio Nássara e José de Sá Róris que o auriverde pendão subiu mastro acima naquele 7 de setembro.

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O mesmo cidadão entrou num mictório público no centro do Rio de Janeiro, acompanhado do irmão – o qual se pôs a protestar contra o xixi pago e, com veemência ainda maior, contra estampidos inequívocos em mais de uma cabine.

– E o que tu queres por 1 vintém? – cortou rispidamente o outro. – Ouvir a Tosca?

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No sofá da sala, aquela vovó dormiu no meio de um filme em que Gregory Peck, como sempre, era o mocinho. Quando acordou, lá estava seu ídolo – só que convertido em vilão.

– Meu Deus! – exclamou, horrorizada –, o que foi que aconteceu com este moço?!

A neta precisou explicar que, terminado o filme, ela engatara outro, Os Meninos do Brasil, o único em que o Gregory faz papel de bandido.

*

Autor veterano, ele veio se queixar da má vontade com que os críticos receberam seu livro mais recente.

– O pior foi o Fulano, com uma resenha à la Jorge Amado.

– Como é isso? – perguntei.

– Uma no cravo, outra na canela.

*

Era estreia do “Castelo de Caras”, na Itália, e os convidados começavam a chegar, quando um funcionário se deu conta de falha grave: faltava uma profissional para massagear, ante o fotógrafo, mais do que o ego das celebridades.

Alguém deu a ideia de publicar anúncio no jornal do vilarejo vizinho. Funcionou. Na hora, porém, de pôr mãos à obra, a moça não sabia o que fazer. O quê?!, escandalizou-se o gerente, massagista que não sabe massagear? Não sei – desculpou-se a criatura, e explicou que tal tipo de massagem não se incluía entre suas especialidades:

– Io sono una putana...

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Pergunto ao zelador qual foi a cena mais bizarra que presenciou em décadas de batente no edifício. Ah, diz ele, “o dia em que ajudei a baixar, numa cadeira, o cadáver do desembargador do 501”.

Na garagem, ao abrir-se a porta do elevador, deu-se uma constrangedora pororoca: chegava um carregamento de flores para uma recepção no salão de festas.

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Historinha contada pelo Luiz Carlos, que me aprovisiona de bizarrias, não fosse ele próprio uma delas.

Ao abrir sua loja de malas, botas e selas em Belo Horizonte, nos anos 50, o camarada decidiu chamá-la Casa Cubana. Por que? Soava bem, sei lá, remetia a salsa, merengue e outros requebros calientes... Começou a preocupar-se quando, em 1961, os EUA romperam relações com Cuba – e entrou em pânico no golpe de 1964. Por via das dúvidas, muniu-se de pincel e tinta e, altas horas da noite, tratou de retocar a placa na fachada, na qual há mais de meio século se lê uma contradição: Casa Cabana.

Resume o Luiz Carlos:

– O cara tirou o U da seringa.

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Sabedoria destilada por meu querido Edson Nery da Fonseca, que do Além continua a me socorrer:

– Ninguém é interessante depois de 40 minutos.

Mais um motivo para ir ficando por aqui, eu que já passei, e muito, das 40 linhas.

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