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Humberto Werneck
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De um diário de bordo

Sem um pingo de arrogância, o comandante Ramide deixa claro: aqui manda ele. "Aqui" é o Iberostar Grand Amazon, confortável "hotel ship" no qual, embarcados em Manaus, vamos singrando (sempre quis usar este verbo) as águas cor de Coca-Cola do rio Negro. O comandante Ramide, jovem setentão com cara de papa Francisco, sorri e acrescenta: neste barco, a lei lhe permite prender quem quer que seja - até mesmo um presidente da República. Sopito a vontade de perguntar: até mesmo o Joaquim Barbosa?

Humberto Werneck, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2014 | 02h24

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A Dilma não participa desta quarta edição do "Navegar é preciso", bem bolado programa náutico-literário nascido da imaginação do Samuel Seibel, da Livraria da Vila. O Roberto Carlos, que ultimamente não pode ver um navio sem nele embarcar, também não veio. Se quiser prender alguém, o comandante Ramide terá de se bastar com os 50 passageiros e 60 tripulantes que neste cruzeiro constituem a população flutuante do Iberostar. Entre eles, convidados pelo Samuel e seu filho Rafael, a cantora Marina de La Riva, os escribas Marcelino Freire, Alejandro Zambra, Ilko Minev e este cronista, dos quais se esperam papos literários que, dotados de indispensável balanço, nem por isso causem enjoo. De minha parte, quero crer que fui convidado em razão da suposta leveza de meu texto: também nesse sentido, convém não sobrecarregar o navio.

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Passeio de lancha pelos meandros do arquipélago das Anavilhanas. Podemos ver, muito empertigado numa ponta de pau seco, um tucano. Como é próprio de sua espécie, talvez queira levar o pessoal no bico. Continuará ali depois de outubro ou terá encontrado pouso num toco mais alto? Até onde vai? Nada sei das aspirações desse tucano.

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No auditório do navio, abrindo a conversa com o Ilko Minev, me parece de bom tom agradecer tanto à Livraria da Vila como à empresa que organizou nossa viagem. Só que em vez de AuroraEco sai "NaturaEco". Não tarda a vir um bilhetinho sugerindo retificação. Nesse passo, dentro em pouco terei de aceitar se me tratarem de Humberto Eco. Mais um desastre da idade? Prefiro supor que é genético. Tenho um sobrinho que, menino, foi apresentado ao então prefeito de Belo Horizonte, Pimenta da Veiga. Conhece o moço? - instigaram os pais. E ele, sem titubear: Meiga da Pena!

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Saída noturna, de lancha, por entre a vegetação semiencoberta pela cheia no rio Negro. Volta e meia nosso guia Wenceslau, o Lau, joga o foco da lanterna na barafunda dos galhos, clamando, excitado, ali! ali! Como no jogo dos sete erros, custo a ver, ou simplesmente não vejo. Tínhamos saído para espreitar os jacarés. Vi um, miúdo, mas jacaré. Uma serpente de mais de metro a se enroscar num galho fino. E, hierática, bem perto de nós, indiferente à aproximação da lancha e aos flashes das câmeras, uma coruja. Na volta, surge a hipótese de que, na ausência de fauna mais farta, e não querendo nos deixar frustrados, o Lau deu de ver coisa onde não tinha. Há quem afirme que mais tarde ele retornou ao local para tirar a pilha da coruja cenográfica.

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Na roda de cerveja no deck do Iberostar, alguém (não eu, juro) se põe a defender a tese de que, desafetos há décadas, engalfinhados em porfias verbais -de concreto, por ora nada -, os poetas Ferreira Gullar e Augusto de Campos seriam, na verdade, a mesmíssima pessoa, desdobrada em duas num lance de marketing que aos dois beneficia. O mesmo, acrescenta alguém, se poderia dizer das duplas Caetano & Bethânia, Mário & Oswald de Andrade e, acredite, Tom Jobim & Luiza Erundina.

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Quanto a mim, reconheço que me falta estofo para elaborar uma tese mais ou menos assim: nas viagens de navio, a ausência de terra firme sob os pés pode precipitar os viajantes, sem que eles se deem conta, numa espécie de vale-tudo amoroso e/ou sexual. A bordo como alhures, tudo é passageiro - ou não. Seja na calmaria, seja em águas encapeladas, o macho ou fêmea parte para o tudo ou nada: o barco até pode encalhar, mas eu é que não!

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