De tudo um pouco

Jorge Bastos Moreno que encontrei poucas vezes, mas que é um amigo de infância, revelou na sua coluna no Globo a surpresa com a qual eu, também como antropólogo, me preocupava com o fenômeno humano da atriz Isis Valverde. Ele supunha, diz com humor, que a nossa tribo só estudasse índios...

Roberto DaMatta, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2012 | 03h09

O elo entre o humano e a Isis Valverde é por demais complicado para ser estudado numa coluna, salvo para ressaltar a raridade do encontro da capacidade dramática da belíssima atriz com o papel de piriguete na trama de Avenida Brasil. A hiperbeleza que acena com o céu e as traições do papel que conduzem à perdição são engenho de uma permanente bruxaria. Afinal, quem não gostaria de ser tirado do vasto armário no qual nós, homens, sempre andamos, pela Suelen?

Voltando ao Moreno, posso afirmar que o elo entre índios e antropólogos é tão certa quanto a dos generais com o campo de batalha, a dos administradores públicos com a honestidade, e a dos cantores com o sucesso. Hoje, uma plêiade de jovens antropólogos escrevem sobre temas brilhantes sem jamais terem visto um índio.

Não obstante, a observação levou-me a meditar no que me prestei a fazer, mantendo-me dentro do que vovó Emerentina chamava de "pobreza envergonhada". A carência caiada de quem está no vermelho, mas não pode usar sapatos furados. As aparências enganam porque são tudo o que temos. São elas que num sentido inconfundível - como sabem os membros da delirante tribo dos atores - nos tornam humanos, pois a novela que para você é uma bobagem tem um valor inestimável para outras pessoas. E, assim, de ilusão em ilusão, seguramos o peso do mundo.

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A equação entre antropólogos e índios levou-me àquela região pré-histórica, capaz de tornar plausível desculpas mentirosas, do tipo: "Naquele tempo eu não sabia de coisa nenhuma... Era inocente!" O que fica muito longe transforma-se em miragem (ou ponto turístico) e pode ser usado em benefício da dúvida que inocenta, mesmo quando deveria condenar. E foi olhando para essa pré-história que vi quanto me prestei a ser além de estudante de índios.

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Em São João Nepomuceno, pensei seriamente em ser engraxate e, quando mais menino ainda, em Rio Largo, Alagoas, a arte da telegrafia era um sonho profissional que levei a sério. E já que estamos em plenos Jogos Olímpicos - que James Brooks, um notável colunista do The New York Times (a América não tem cronista) descobre, pelo tamanho do desencanto com o seu país, ser um evento contraditório, porque todo mundo quer vencer quando o ideal é competir -, lembrei-me que fui comentarista para a televisão Manchete nos Jogos de 1984, em Los Angeles, e acompanhei, ao lado de Paulo Stein, o time de vôlei do Brasil com opiniões tão fora de hora que produziam, como me informava meu amigo Luiz Gleiser, notas negativas na imprensa local. Fui patrulhado como comentarista e ignorado como antropólogo. Que mais posso desejar?

Na minha primeira pesquisa com os índios Gaviões, em 1961, fui parteiro, vaqueiro, mateiro e enfermeiro. Quase morri afogado no Rio Tocantins e quis comprar um diamante para minha noiva. Foi quando aprendi a montar em burro brabo, amamentar recém-nascido e a dar injeção. Difícil era viver sem latrina, sem roupa de cama limpa, sem chuveiro com água quente e lâmpada de cabeceira - isso que chamamos de civilização, conforme me ensinou Roque Laraia.

Uma das maiores perplexidades da minha vida ocorreu quando, em meio da pesquisa com os índios Apinayé, um sertanejo que morava próximo da aldeia me questionou por que o "nosso governo" não mandava ninguém para estudá-los. Eles, que eram ainda mais desgraçados do que os índios...

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Fui também cantor, apresentando-me num show devidamente pago pela parentela, que compareceu em peso com as empregadas. Nos Estados Unidos, fui tradutor do grande dom Helder Câmara numa conferência em Harvard. Tentei um emprego como taxista, mas uma bolsa da Fundação Ford deu-me a paz para terminar a tese antes de voltar ao Museu Nacional.

Fui curador das exposições temáticas de pinturas sobre carnaval, futebol e mulher por obra de Carlos Roberto Maciel Levy, Cláudio Valério e da Acervo Galeria de Max Perlingeiro. E tocado pela mesma pobreza envergonhada, escrevi e apresentei na televisão Manchete, com Maurice Capovilla e Cacá Diegues, dois documentários. Num dado momento, colaborei com a BBC num programa sobre o Brasil no qual eu surjo como um fantasma, comentando um Fla-Flu - nervoso e trêmulo - péssimo na televisão.

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Um primo muito amado, Raul, que foi ator de cinema e teatro, não me convenceu a realizar o sonho de ir para Hollywood e de, assim, abandonar a realidade da fantasia escrita e por escrever numa folha de papel. Esse papel que faz o jornal que você pega, dobra e, diferentemente do livro, faz barulho quando é lido.

Esse papel branco como a inocência que nos embrulha, em que escrevemos com letras grandes e pequenas toda a nossa impureza e muito da nossa imensa crueldade e ignorância. O cronista está certo. Embora admirador revelado da maravilhosa Isis Valverde, eu continuo vendo o mundo e, sobretudo, a beleza da vida com os índios quando acerto - o que às vezes acontece - como eles.

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