De tirar o fôlego

Osesp, Atherton e o pianista Lewis deixam público em estado de graça

João Marcos Coelho, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Em estado de graça. Foi assim que o público que lotou a Sala São Paulo quinta-feira saiu, após testemunhar duas eletrizantes performances. Primeiro, cinco minutos de tirar o fôlego, com a leitura apaixonante e leve (com o efetivo da Osesp considerável e) da esfuziante abertura da ópera O Empresário de Mozart. Depois, a notável integração entre solista, regente e músicos na obra-prima Concerto Imperador, de Beethoven, desde o imponente acorde sinfônico da abertura e as até hoje surpreendentes três minicadências iniciais cheias de arpejos, trêmolos e escalas do piano solista que preparam a primeira exposição do tema pela orquestra.

Paul Lewis e David Atherton jamais se entreolharam durante toda a execução. A pulsação interior de regente e solista estava de tão sincronizada que olhares eram desnecessários. A escrita orquestral de Beethoven nesse concerto é particularmente rica - e as conversas com o piano nos levam a acompanhar, hipnotizados, o desenvolvimento da obra.

No sublime Adagio central, em que Beethoven adota por alguns compassos-chave a exposição do tema numa nota só, Lewis estabeleceu com a Osesp comunhão rara: nem seu piano amaneirou demais sua parte, nem a orquestra quis sobressair-se. Mérito incontestável do excepcional Atherton. O fim do Adagio foi exemplar dessa intimidade que constrói interpretações magníficas: o tema do Rondó já aparece em pianíssimo com o solista e explode num fortíssimo que instaura o Allegro majestoso conclusivo.

De novo, tive a sensação de que Lewis é melhor ao vivo do que em gravações (e olhem que ele ganhou vários prêmios com a integral dos concertos recentíssima, com a Orquestra da BBC regida por Jirí Belohlávek, em caixa de três CDs do selo Harmonia Mundi). E Atherton deu-nos outra lição, fundamental, de como estabelecer comunhão interna com solista e orquestra, para fazer fluir a música em estado de graça.

Em todo caso, é possível que muita gente tenha saído do concerto perguntando-se por que a primeira parte foi tão entediante - e a segunda tão mágica. Afinal, Atherton e a Osesp executaram com igual competência a Serenata n.º 1 em ré maior, opus 11, de Brahms. O entusiasmo chegou ao clímax no primeiro scherzo (segundo movimento), que já antecipa, em uníssono poderoso, algumas características das sinfonias que só chegariam dali a 15 anos. Mas a adrenalina baixou na sequência, a ponto de provocar tédio do 4.º movimento em diante.

Antes de me crucificarem pela irresponsabilidade de colocar Brahms no pelourinho, fui buscar respostas. E as encontrei num ensaio de Michael Musgrave, um dos grandes brahmsianos da atualidade. Brahms compôs a serenata quando teve um de seus raros empregos fixos, na corte de Detmold, entre 1857 e 1860. É um período de estudos da forma sinfônica, quando Brahms, então com 27 anos, foi basicamente orientado pelo amigo violinista Joseph Joachim. Nesta serenata, diz Musgrave, ele mistura a estrutura das serenatas de múltiplos movimentos com estilos tão diversos como os de Haydn, do primeiro Beethoven e de Schubert. Não é pastiche, alerta. Mas é excessiva no primeiro movimento, por exemplo (o mais longo, mesmo comparando-se com as quatro sinfonias da maturidade). O verdadeiro Brahms, conclui Musgrave, está no primeiro Scherzo - justamente aquele que me entusiasmou.

Assim, podem dormir tranquilos. Não somos todos imbecis incapazes de apreciar a grandeza de um dos maiores gênios da música. Trata-se apenas de obra menor, de juventude, portanto naturalmente desequilibrada. E que mistura qualidades com deficiências. Peço, então, emprestada a frase que o roteirista do filme Quanto Mais Quente Melhor, de Billy Wilder, deu a um de seus personagens: ninguém é perfeito.

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