Marcelo Lyra/Divulgação
Marcelo Lyra/Divulgação

De Silvério para o mundo

O que é que o Sul da França tem a ver com o Nordeste brasileiro? Um pernambucano acostumado a romper fronteiras mostra que, no final, todos falam a mesma língua

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2011 | 00h00

"Ousadia." É a primeira palavra que Silvério Pessoa pronuncia na entrevista diante da provocação do repórter. É justamente o mote característico que pauta seus trabalhos. E desta vez o compositor, cantor e músico pernambucano ousa mais, não só esteticamente, mas pelo fato de lançar dois álbuns simultaneamente, No Grau e Collectiu - Encontros Occitans, em que aproxima o Sul da França do Nordeste brasileiro, ambos independentes.

No Grau, diz Silvério, é "uma desconstrução do baião para reconstruí-lo com uma sofisticação harmônica discreta", como se vê nos arranjos de cordas em algumas canções. O primeiro verso da primeira canção, A Volta do Mar (parceria com Zeh Rocha) diz "Meu lugar é o mundo". Collectiu é outro mundo, fruto de sua descoberta, de uma outra França, a partir de 2007.

"Desde 2003 venho realizando turnês pela França e na verdade saí daqui lembrando apenas da introdução de O Dia em Que Faremos Contato, de Lenine, que já colocava dois franceses cantando uma embolada, que eram os Fabulous Trobadors", lembra Silvério. "Quando cheguei lá, conheci Claude Sicre e Ange B e foi quando eles começaram a me falar da cultura occitan. Daí para mim descortinou todo um universo."

Para Silvério, a cultura occitan é como o forró, "um universo, uma disciplina, uma área de conhecimento", que vem da Occitania, uma região sem Estado que envolve cidades francesas e um pedaço da Itália. O "espírito de investigador, pesquisador e pedagogo" de Silvério o levou a fazer amizades na região, onde morou por 100 dias, e a participar de festivais. Daí a ideia de produzir um disco com encontros.

Cavaleiros andantes. "Aquela região também desenvolve uma filosofia de resistência, de reconhecimento frente a Paris, se unindo pela música, pela culinária, pela oralidade. Eles têm uma hipótese muito sugestiva: acreditam que os trobadors, aqueles cavaleiros que andavam pelos burgos declamando poesia nos anos de 1200, de um lirismo, de um romantismo voraz, foram aos poucos sendo expulsos pelos reis franceses. Diante disso, migraram para a Espanha, Portugal, Bélgica. Eles acreditam que o registro do último trobador foi em 1300 e que 200 anos depois o DNA, toda essa história, essa oralidade deve ter aportado aqui junto com as caravelas, com a colonização", conta Silvério.

Daí a semelhança com o Nordeste brasileiro pela questão ibérica, moura, de toda a influência árabe. "A hereditariedade dos trobadors está nos cantadores, nos tocadores de viola, nos repentistas. Eles, quando veem um repentista, dizem: o trobador de vocês é esse." Além da música, de certos instrumentos como o pífano e o acordeom, há semelhanças nos rituais de dança como a quadrilha (em que se usa palavras em francês como anavantu e anarriê), na culinária, na religiosidade, na aridez do clima, na ruralidade. É mais uma vez Pernambuco falando não só para o mundo, mas com o mundo.

RECIFE

"Ousadia." É a primeira palavra que Silvério Pessoa pronuncia na entrevista diante da provocação do repórter. É justamente o mote característico que pauta seus trabalhos. E desta vez o compositor, cantor e músico pernambucano ousa mais, não só esteticamente, mas pelo fato de lançar dois álbuns simultaneamente, No Grau e Collectiu - Encontros Occitans, em que aproxima o Sul da França do Nordeste brasileiro, ambos independentes.

No Grau, diz Silvério, é "uma desconstrução do baião para reconstruí-lo com uma sofisticação harmônica discreta", como se vê nos arranjos de cordas em algumas canções. O primeiro verso da primeira canção, A Volta do Mar (parceria com Zeh Rocha) diz "Meu lugar é o mundo". Collectiu é outro mundo, fruto de sua descoberta, de uma outra França, a partir de 2007.

"Desde 2003 venho realizando turnês pela França e na verdade saí daqui lembrando apenas da introdução de O Dia em Que Faremos Contato, de Lenine, que já colocava dois franceses cantando uma embolada, que eram os Fabulous Trobadors", lembra Silvério. "Quando cheguei lá, conheci Claude Sicre e Ange B e foi quando eles começaram a me falar da cultura occitan. Daí para mim descortinou todo um universo."

Para Silvério, a cultura occitan é como o forró, "um universo, uma disciplina, uma área de conhecimento", que vem da Occitania, uma região sem Estado que envolve cidades francesas e um pedaço da Itália. O "espírito de investigador, pesquisador e pedagogo" de Silvério o levou a fazer amizades na região, onde morou por 100 dias, e a participar de festivais. Daí a ideia de produzir um disco com encontros.

Cavaleiros andantes. "Aquela região também desenvolve uma filosofia de resistência, de reconhecimento frente a Paris, se unindo pela música, pela culinária, pela oralidade. Eles têm uma hipótese muito sugestiva: acreditam que os trobadors, aqueles cavaleiros que andavam pelos burgos declamando poesia nos anos de 1200, de um lirismo, de um romantismo voraz, foram aos poucos sendo expulsos pelos reis franceses. Diante disso, migraram para a Espanha, Portugal, Bélgica. Eles acreditam que o registro do último trobador foi em 1300 e que 200 anos depois o DNA, toda essa história, essa oralidade deve ter aportado aqui junto com as caravelas, com a colonização", conta Silvério.

Daí a semelhança com o Nordeste brasileiro pela questão ibérica, moura, de toda a influência árabe. "A hereditariedade dos trobadors está nos cantadores, nos tocadores de viola, nos repentistas. Eles, quando veem um repentista, dizem: o trobador de vocês é esse." Além da música, de certos instrumentos como o pífano e o acordeom, há semelhanças nos rituais de dança como a quadrilha (em que se usa palavras em francês como anavantu e anarriê), na culinária, na religiosidade, na aridez do clima, na ruralidade. É mais uma vez Pernambuco falando não só para o mundo, mas com o mundo.

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