De Sica, a dignidade que vem da reflexão

Diretor italiano inspira documentário de Mario Canale e Annarosa Morri

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

02 Julho 2010 | 00h00

Essencial. Vittorio De Sica radicalizou o neorrealismo, mas também abriu o movimento para o mágico, o maravilhoso e o cômico

 

Seus documentários anteriores, sobre Marcello Mastroianni e Marco Ferreri, fizeram a ronda dos grandes festivais - Cannes, Veneza. Mario Canale e Annarosa Morri trabalham atualmente num documentário sobre a passagem do neorrealismo para a comédia, que marcou o cinema italiano nos anos 1950. Essa passagem está no centro da vida e obra de Vittorio De Sica, o grande diretor que eles retratam em outro documentário. Vittorio De Sica, Sua Vida, Seus Amores estreia hoje nos cinemas brasileiros. A dupla de diretores mal consegue acreditar. Na Itália, o documentário não teve vida cinematográfica. Foi feito para - e exibido na - TV. Mas eles acham que o próprio De Sica gostaria de ver o filme nos cinemas.

"O cinema italiano teve muitos artistas, grandes diretores, e De Sica foi certamente um dos melhores", diz Annarosa, numa entrevista por telefone. Mas tem mais - "A Itália atravessa hoje um período de baixa estima cultural. Tem a ver com a situação política, com (Sílvio) Berlusconi, com o poderio da RAI (a grande emissora) na TV e no cinema. Num certo sentido, esse é um documentário de persistência, feito numa TV pequena, independente. Os italianos precisam se mirar no espelho de um homem íntegro, como foi De Sica", explica a diretora.

Ela lembra o início da trajetória de De Sica - galã nos tempos dos filmes produzidos sobre o fascismo, ele fez a transição para o neorrealismo, sendo um dos precursores do movimento com Siuscià (Vítimas da Tormenta). "O filme causou tanto impacto, e não só na Itália, que nos EUA a Academia de Hollywood criou o Oscar de melhor produção em língua estrangeira para homenagear o diretor." De Sica é um dos grandes vencedores da história do Oscar, tendo recebido quatro vezes o prêmio - as outras por Ladrões de Bicicletas, Ontem Hoje e Amanhã e O Jardim dos Finzi Contini -, mas o primeiro ainda nem tinha a denominação de melhor filme estrangeiro. Isso veio depois.

 

Veja também:  

Trailer de "Vittorio de Sica - Minha Vida, Meus Amores"

De Sica radicalizou o neorrealismo (em Umberto D), mas também abriu o movimento para o mágico e o cômico (Milagre em Milão e O Ouro de Nápoles). Cooptado por Hollywood, fez Stazione Termini, com Jennifer Jones, do qual não tinha orgulho. "Voltou à Itália, às origens, e retomou o neorrealismo com O Teto, mas não havia mais espaço para aquilo", conta Canale. O neorrealismo surgiu num determinado momento, o pós-guerra, expressando as dificuldades técnicas e humanas que a Itália vivia. "Aqueles autores forçaram o povo italiano a se olhar num espelho. Umberto D, por mais duro que seja, está muito atual", afirma o codiretor.

Prova disso é que Annarosa e Canale não tiveram dificuldades para reunir o impressionante casting de diretores internacionais que dão seu testemunho sobre De Sica - Clint Eastwood, John Landis, Pasquale Squittieri. A parceria com o roteirista Cesare Zavattini é lembrada e a colaboração com Sophia Loren e Marcello Mastroianni.

Eles encaram as críticas de demagogia e até de abuso infantil que o cineasta sofre atualmente. São muitas as histórias sobre como ele abusou do menino Enzo Staiola, levando-o ao limite, para tirar dele a expressão no desfecho de Ladrões de Bicicletas.

"São críticas que não procedem. De Sica fez seu cinema para celebrar a dignidade. E, como ator, ele possuía um jeito especial para tirar grandes interpretações de todos aqueles com quem trabalhava. Shirley MacLaine e Clint Eastwood, com quem ele fez o episódio de As Bruxas, lembraram como De Sica representava a cena para seus atores."

Annarosa Morri e Mario Canale também consideram absurda outra acusação, a de que De Sica, tendo sido um dos artífices da utilização de não profissionais no neorrealismo, depois fez filmes para mistificar a dupla clássica Mastroianni/Loren.

"Sophia é sempre maravilhosa, como mulher e atriz, com De Sica, mas os melhores momentos, como em Duas Mulheres, que lhe deu o Oscar, a desmistificam e realçam seu status de mulher do povo. Neste sentido, Matrimonio à Italiana é um de meus filmes favoritos", diz Annarosa.

De toda a trajetória de De Sica, o que resta para o cinéfilo? "É a humanidade. De Sica muitas vezes aceitou compromissos, como ator, para desenvolver sua obra de diretor." Até como autor cometeu seus erros. O universo de Sartre, em Os Condenados de Altona, não é o dele. "E quando incursionou pela comédia, ele não o fez só pelo dinheiro. É uma forma riquíssima de expressão."

O documentário sobre a passagem do neorrealismo para a comédia vai privilegiar Luigi Comencini, Mario Monicelli, Dino Riksi e, claro, o próprio De Sica. Depois, Annarosa e Canale esperam realizar outro documentário, sobre outro artista essencial, Roberto Rossellini. "Num momento de achatamento da riqueza cultural italiana, nada melhor do que resgatar os grandes artistas comprometidos com o popular", avisam. E dão um conselho aos espectadores que forem redescobrir o velho De Sica: "Vão de coração aberto. No cinema de De Sica, a reflexão vem da emoção."

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