De saborear com os olhos fechados

Parece uma colisão do Wings de Paul e Linda com o Talking Heads de David Byrne, mas é mais assimétrico, estranho, causa um efeito meio apoplético. Swing Lo Magellan, sexto álbum do Dirty Projectors, seria uma das melhores notícias fonográficas do ano - mas a notícia é melhor ainda, a banda vem tocar o disco aqui, dia 30, no Cine Joia.

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

03 de novembro de 2012 | 02h06

Liderado pelo vocal sincopado do esquisito David Longstreth, o grupo alterna coros femininos celestiais com digressões e distorções, e o efeito é chapante. Como Animal Collective e Fleet Foxes, inserem-se numa corrente de bandas hipsters que se detêm em um tipo de sensibilidade pop diferente, centrada nos contrapontos vocais, e sem medo de incomodar os ouvidos, de soar desigual.

A lírica entre doce e violenta de canções como Gun Has No Trigger, a melhor do álbum (Você aponta uma arma para sua cabeça/Mas a arma não tem gatilho); a percussão cardíaca de About To Die; a marcação de palmas típica de música para tocar no metrô de Just From Chevron (que também poderia ser canção do grupo Au Revoir Simone): tudo conspira para fazer desse disco uma obra-prima.

Swing Lo Magellan, a faixa-título, evoca alguns dos momentos mais líricos de Lou Reed com o Velvet Underground. Longstreth faz letras que parecem frases grafitadas em fábricas abandonadas, mas que têm grande impacto crítico, como The Socialites, na qual investe contra os esnobes. Chama a atenção sua integridade de compositor e de frontman, um cara que não faz menção de cristalizar uma fórmula, mas de jogar-se na escuridão da próxima música. É show de não se perder. / JOTABÊ MEDEIROS

OUÇA TAMBÉM

LUPICIANA

Artista: Fabiana Cozza Álbum: Fabiana Cozza Gravadora: Independente

Preço médio: R$ 23

DIRTY PROJECTORS

OUÇA TAMBÉM

KILL THE DJ

Artista: Green Day Álbum: Uno!

Gravadora: Reprise Records

Preço médio: R$ 24

OUÇA TAMBÉM

PRA DIZER ADEUS

Artista: Edu Lobo e Nana Caymmi.

Álbum: Songbook.

Gravadora: Lumiar. Preço: R$ 40

Imagine alguém nascido na Itália em 1878, de pai alemão e mãe italiana, sem problemas financeiros. Dividido entre a pintura e a música, Ermanno Wolf-Ferrari decidiu-se pela última por causa de Mozart, seu guru. Igualmente apaixonado por Goldoni, dramaturgo do século 18, dedicou-se à ópera quando os principais nomes da música italiana se voltavam para a música instrumental. Morreu esquecido em 1948. Aos que o criticavam pelo descompasso estilístico, respondia: "Em arte, é o sentimento, e não a razão, que determina nossa reação. Não quero uma plateia de iniciados ou congregação de fiéis, apenas corações puros e abertos".

Neste CD, Francesco La Vecchia, que regeu a Jazz Sinfônica em agosto passado na Sala São Paulo, comanda uma gravação deliciosamente mozartiana, para solistas e orquestra de cordas enriquecida com duas trompas. Feche os olhos, esqueça as datas de Ferrari. E encante-se sobretudo com o doce 'preambulo' do Idillio-Concertino para oboé, de 1932; a atmosfera sedutora se prolonga no Concertino em Lá Bemol Maior, de 1947, para corne inglês (palheta dupla como o oboé, só que uma oitava abaixo, de som mais grave); e a Suíte-Concertino para Fagote, de 1932, que põe uma pitada de humor no caldo sonoro às vezes adocicado demais. Escrita cristalina, melodias memoráveis, execuções impecáveis.

ZZ TOP

LA FUTURA

Gravadora: Universal

Preço médio: R$ 28

ÓTIMO

O ZZ Top tem uma força que não é desse mundo. Quem esteve no Via Funchal no ano passado pode ver esse trio de dois barbudos quakers e um baterista caladão que castiga o pedal de um bumbo fatiando a noite com um som cheio, gordo, de pegada suja e riffs de cortar a alma. Não dá para acreditar que façam isso só com um trio, que consigam preencher todos os espaço apenas com a guitarra de Billy Gibbons, o baixo de Dusty Hill e a bateria de Frank Beard, tudo extremamente reto e hipnotizante. Os caras arrastam o andamento de seus blues rock até o limite e, quando ele está para sair do ritmo, entram com um solo infernal. Criar sobre esta fórmula é mesmo uma dificuldade quando parece que tudo foi dito, disco após disco, mas a genialidade de La Futura está, como sempre, nos detalhes. I Gotsa Get Paid, o abre, é o soco no estômago inicial de uma pancadaria que segue com o original esqueleto de Chartreuse, evolui no peso de Consuption e só ganha um carinho na balada Over You. Nenhum trio é mais rock and roll. / JULIO MARIA

SWING LO

MAGELLAN

Gravadora:

Deckdisc

Preço: R$ 29,90

ÓTIMO

MAYSA

DOIS TONS DE MAYSA

Gravadora: Universal

Preço médio: R$ 39,90

ÓTIMO

D ois discos de fases distintas de Maysa (foto), bons exemplos de sua força e sensibilidade, voltam às lojas neste box. No espetacular Maysa (1964), gravado ao vivo, suas qualidades são realçadas pelos arranjos de Eumir Deodato. O repertório é essencialmente o da dor-de-cotovelo e o grande destaque é o medley que abre o álbum, juntando Demais com I've Got You Under My Skin. A melancolia da primeira dá lugar ao viés debochado e raivoso em sua leitura do standard americano, mostrando versatilidade e a porção atriz que exercitava ocasionalmente no teatro e na TV. Com a capa evidenciando o verde dos olhos que Manuel Bandeira chamou de "dois oceanos não-pacíficos", Ando Só Numa Multidão de Amores (1971) mostra Maysa comedida, talvez pela grandiosidade dos arranjos repletos de cordas de Roberto Menescal e Luiz Eça. Mas ela se mantém segura em Chuvas de Verão e na regravação de Resposta. Esta reedição traz cinco faixas bônus, entre elas registros para as novelas Irmãos Coragem e O Cafona, na qual atuou. / RENATO VIEIRA

ELIS

NO FINO DA BOSSA

Gravadora: Eldorado

Preço médio: R$ 53,90

ÓTIMO

A parceria de Elis Regina com gigantes (Tom Jobim, por exemplo) rendeu antológicas gravações, mas o box No Fino da Bossa - Ao Vivo, com três CDs, é um histórico encontro da cantora com compositores e intérpretes do nível de Adoniran Barbosa, Baden Powell e Dorival Caymmi, entre outros, todos no período mais agitado da MPB (entre 1965 e 1967). Único documento sonoro do programa de TV Fino da Bossa, que marcou época e incentivou outros especiais de música na televisão, o CD triplo traz Elis cantando Trem das Onze com Adoniran, Formosa com Baden Powell e Das Rosas ao lado de Caymmi, entre outras memoráveis faixas. Registradas num gravador portátil Ampex mono pelo crítico Zuza Homem de Mello, elas passaram por restauração analógica e transferência digital. A Gravadora Eldorado entrou como parceira e o resultado é uma resumo acurado do programa que ajudou a divulgar para milhões de espectadores o que de mais sofisticado a MPB produzia na época, de Edu Lobo e Luiz Eça a Tom Jobim e Vinicius de Moraes. E não só os brasileiros. No disco, Elis canta Somewhere, de Leonard Bernstein e Stephen Sondheim. / ANTONIO GONÇALVES FILHO

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.