De repente, no verão de 1992, em Gaza

Filha do escritor Edward Said, Najla revê suas experiências em Palestine

Gustavo Chacra, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Najla Said, não fosse pelo nome, poderia ser descrita como uma mulher que cresceu no seio da elite judaica liberal de Nova York. Seria, segundo ela própria, uma espécie de JAP, que é a sigla em inglês para "princesa judia americana", que serve de descrição estereotipada para as patricinhas desta religião na cidade. Frequentava Bar Mitzvas e comia pretzels. Teve mais relacionamentos amorosos com judeus do que com gentis (não-judeus).

Passava férias de verão no sofisticado balneário dos Hamptons e esquiava nos invernos em Aspen ou Vail. Uma de suas maiores preocupações era comprar sapatos e bolsas. Sua família tinha dinheiro. "Muitos me consideravam uma judia sefaradi", diz Najla, uma morena de 35 anos com feições árabes.

Mas, na realidade, sua história era bem diferente da de suas amigas. "Sou filha de Edward Said. Do intelectual Edward Said. Do mais famoso palestino-americano que já existiu", conta Najla.

Ela entende bem o que isso significa. Seu pai, em obras como Orientalismo, revolucionou a forma de os americanos e europeus verem o mundo árabe. Além disso, em seus artigos, criticava duramente a ocupação israelense de áreas palestinas, se transformando no mais importante porta-voz dos palestinos no Ocidente. E o que dizia tinha peso. Seu inglês era perfeito.

Era professor da Universidade Columbia, uma das mais prestigiadas do mundo e com cerca de um quarto de seus alunos sendo judeus. Sempre se vestia de forma impecável, com terno, gravata e cabelos grisalhos penteados para trás. Para completar, Edward Said era cristão e de Jerusalém.

Toda a vivência e experiência de Najla estão na peça que ele escreveu e na qual atua, Palestine. É um monólogo que teve todos os ingressos esgotados para os três meses em cartaz no circuito off Broadway e no qual ela lida com este problema da dupla identidade e de como visitas ao Oriente Médio e acontecimentos internacionais transformaram a sua vida e, indiretamente, a de seu pai e de sua família. Desde pequena, ela se sentia em parte libanesa, por ser a terra de sua mãe e por visitar o país todos os anos na infância. Eram os anos da guerra civil (1975-90) e, em 1983, ela, sua mãe e seu irmão foram retirados de lá.

Em 1992, quase uma década mais tarde, Najla retornaria ao Oriente Médio. Era o verão anterior ao início de suas aulas em Princeton e seria a primeira visita de seu pai às suas terras em quatro décadas. E ela apenas pensava se as suas amigas judias estariam em boates de Tel-Aviv. O problema é que sua viagem foi, segundo ela, para a "Palestina". E com o seu pai, o que atraiu enorme cobertura da mídia.

Califórnia. Visitaram de Gaza à casa onde vivia Said, em Jerusalém. Seu pai era recebido como herói entre os palestinos pela defesa da causa deles nos EUA. A ocupação israelense a chocou, especialmente ao ver palestinos de sua idade e comparar a vida deles com a sua e com os relatos de suas amigas que visitavam Israel. Ao saírem dos territórios palestinos, passaram pela Jordânia, onde ela conheceu Yasser Arafat, com quem seu pai tinha muitas divergências - Said nunca apoiou as negociações de Oslo. No fim, acabaram em Beirute, descrita por Najla na forma tradicional dos libaneses, orgulhosos de sua culinária, dos montes nevados, da vida noturna e da sociedade cosmopolita que fala francês e inglês. "É como se fosse a Califórnia", afirma, sem deixar de mencionar o preconceito entre os libaneses, com a rivalidade entre os grupos religiosos.

Sua grande transformação ocorreria depois do 11 de Setembro. Mesmo sem ser muçulmana e apesar de os palestinos não terem nada a ver com os atentados, ela ficou com medo da reação que os amigos americanos teriam por seu sobrenome ser Said. Najla chegou a brigar com um personal trainer em Manhattan que teria criticado os palestinos e os ligado a Bin Laden. E disse que, pela primeira vez, passou a se sentir árabe.

Anos depois, em 2006, ela estava em Beirute quando Israel bombardeou o Líbano em guerra contra o Hezbollah. "Passei a odiar os israelenses. Ficava pensando nas pessoas que havia visto em Tiro, onde eu havia tomado sol um dia antes." Mas passou. "Diferentemente de muitos árabes, tenho amigos judeus e tento entender o outro lado. E, além disso, todas as noites que estava em Beirute, falava com o meu psicanalista por telefone. Claro, ele era judeu." Aliás, seu pai, maior porta-voz palestino nos EUA, morreu de câncer em um hospital judaico de Nova York. "Hoje, visito seu túmulo todos os anos nos montes do Líbano", finaliza ela.

QUEM É

EDWARD SAID

ESCRITOR, PROFESSOR E ATIVISTA POLÍTICO

CV: Um dos mais respeitados críticos literários dos EUA, Said (1935-2003) nasceu em Jerusalém e desde cedo se engajou na causa Palestina. Em livros como Orientalismo, desmistifica crenças sobre o Oriente.

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