De quem é a culpa?

A psicanálise dominou o estabelecimento psiquiátrico norte-americano até os anos 70. Por motivos variados, a partir dos anos 80 os protocolos da neurociência e do cognitivismo tomaram-lhe a dianteira, impondo uma visão divergente sobre o funcionamento mental normal e patológico.

Sérgio Telles, O Estado de S.Paulo

04 de fevereiro de 2012 | 03h08

A contínua disputa entre as duas correntes fica especialmente aguda quando se trata do autismo, como vemos agora na polêmica que se desenvolve na França em torno do documentário realizado por Sophie Robert, Le Mur - La Psychanalyse a l'Eupreuve de l'Autisme. O filme não foi ainda lançado no circuito comercial, mas pode ser visto no YouTube, legendado em inglês.

Le Mur está estruturado em torno de entrevistas com pediatras e psicanalistas (lacanianos), que tentam explicar as hipóteses teóricas sobre o autismo. A isso é contraposto o cotidiano de uma família de quatro filhos com diversos distúrbios, dois deles com autismo. Segundo a mãe, o mais velho foi tratado com métodos baseados na psicanálise, obtendo resultados precários. O outro, que recebeu treinamento cognitivo, apresentou grande melhora. Isso é o suficiente para Sophie Robert se queixar do "atraso" da França ao tratar o autismo como uma "psicose", ou seja, uma doença mental, quando de fato seria uma doença neurológica, do cérebro. E isso se deveria - a seu ver - ao fato de serem ali ainda usados métodos "ultrapassados" como a psicanálise, ao invés dos novos treinamentos cognitivos. Vale dizer que na França, ao contrário dos Estados Unidos, persiste a hegemonia da visão psicanalítica nos procedimentos psiquiátricos e psicoterápicos.

Le Mur se posiciona abertamente contra a psicanálise. Não fica claro se a postura dos analistas entrevistados se deve a um radicalismo que lhes é próprio ou se decorre da maneira pela qual as entrevistas foram conduzidas. Eles não falam dos prováveis comprometimentos genéticos e neuroquímicos que apontam para a possibilidade da existência de vários tipos de autismo e se restringem à explicação psicanalítica, cuja complexidade na apreensão da realidade psíquica e sua lógica regida pelo inconsciente a diretora não faz o menor esforço para tornar mais compreensível para o grande público. Pelo contrário, mostra os psicanalistas como portadores de uma fala louca, defendendo ideias bizarras e distantes do senso comum, levando-os ao ridículo e ao descrédito. Não surpreende que alguns dos psicanalistas entrevistados sentiram-se traídos em sua boa-fé e entraram com uma ação tentando impedir a exibição do filme, alegando que suas participações foram distorcidas na montagem.

A forma como as entrevistas foram mostradas faz com que os analistas pareçam assumir uma atitude acusatória e culpabilizante das mães com filhos autistas. Essa é uma questão antiga e delicada.

Por volta de 1950, Leo Kanner, pioneiro no estudo de autistas, cunhou a expressão "mães geladeiras" (refrigerator mothers), aplicando-a àquelas mulheres que se mantinham frias e distantes de seus bebês recém-nascidos, não lhes proporcionando o ambiente caloroso e amoroso necessários para que estabelecessem adequadamente seus primeiros vínculos afetivos, o que os levaria ao autismo. Tal formulação da questão gerou reações negativas por parte dos interessados. De qualquer forma, com variações mais ou menos extensas, autores como Bruno Bettelheim, Melanie Klein, Winnicott, Margareth Mahler Alice Miller, Frances Tustin e Lacan (como mostra O Muro) consideram o relacionamento mãe-bebê como decisivo na constituição do psiquismo e, consequentemente, na gênese de diversos distúrbios psíquicos.

Como vimos acima, essa teoria foi banida dos Estados Unidos a partir dos anos 80, substituída pela explicação somato-genética, que exclui qualquer menção à relação mãe-bebê. Alguns, como o psiquiatra Peter Breggin, dizem que essa mudança de enfoque não se deve a razões científicas e sim às fortes pressões políticas exercidas pelas associações de pais de autistas, que não toleravam mais a culpabilização que julgavam ver na compreensão teórica psicanalítica.

É compreensível que lamentáveis mal-entendidos tenham gerado esse sentimento nos pais. É frequente se ouvir que a psicanálise põe a culpa de tudo nas mães. Em sendo assim, é claro que a abordagem cognitiva-neurocientífica, que afirma serem os sintomas decorrentes do balanceamento geneticamente determinado dos neurotransmissores cerebrais, ou seja, algo que nada tem a ver com os relacionamentos familiares, pareça-lhes muito mais aceitável.

O fato de a psicanálise apontar para a extraordinária importância dos primeiros anos de vida da criança e das relações primárias com os pais, situando aí os momentos decisivos de sua constituição psíquica e as oportunidades para o aparecimento de inibições, fixações ou regressões no desenvolvimento, não exclui a importância da genética e dos neurotransmissores nem significa culpabilizar a mãe pelas dificuldades que o filho venha a apresentar no futuro.

Em primeiro lugar, porque não compete à psicanálise julgar ou culpar, e sim analisar. Se o relacionamento com um filho não é satisfatório, isso não decorre da maldosa deliberação voluntária e consciente da mãe e sim da possível emergência de seus conteúdos reprimidos inconscientes, que necessitam de acolhimento e cuidados.

Em segundo lugar, porque por mais decisiva que seja a relação do bebê com a mãe, não se pode esquecer a figura do pai e dos demais familiares atuais e antepassados. Trabalhos analíticos mais recentes mostram a importância dos velhos segredos e vergonhas familiares que são transmitidos de forma inarticulada e não simbolizada para as gerações subsequentes, produzindo sintomas. Ou seja, é muito amplo o leque de influências sobre a criança.

Não se trata, pois, de culpar a mãe, o pai ou a família e sim de entender a complexidade da visão psicanalítica no que diz respeito à constituição do sujeito e a possibilidade de ajuda que ela oferece àqueles que apresentem dificuldades no decorrer deste processo, sejam eles pais ou filhos.

Nota. Vi na internet a versão original de Le Mur no início desta semana. Não sei se já foi modificado, pois a Justiça francesa deu ganho de causa aos psicanalistas, obrigando Sophie Robert a retirar do documentário as entrevistas que eles haviam dado e a lhes pagar uma quantia compensatória por danos à imagem e reputação (19 mil). A diretora recorreu da decisão.

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