De presentes e ausências

Nesta época é comum ver, além das retrospectivas, os apelos piegas ao tal espírito natalino, abusos de expressões como "renovar esperanças", previsões furadas de astrólogos, tarólogos e outros loucos, textos que lamentam onde estão os natais d'antanho, mensagens de boas festas com listas de virtudes. Meu impulso é perguntar por que as pessoas não procuram ser assim o ano todo, e não apenas no solstício que foi apropriado pela religião e pelo folclore para se tornar uma data paradoxal em que se discursa sobre bons sentimentos enquanto se consome em ritmo febril; até mesmo os nacionalistas se calam diante do fato de que a festa não tem cara do calor de 34 graus. E então me ponho a pensar em como generosidade e respeito, para ficar só nesses dois itens, andam em falta nos tempos atuais, especialmente nas grandes cidades, e em como a tecnologia que deveria nos aproximar nos tem dispersado. Mas lembro os Natais de infância, comparo com o dos meus filhos e as diferenças se tornam irrelevantes, porque os prazeres e as questões são muito parecidos. E os dias deliciosamente desocupados, desacelerados, convidam ao balanço do ano, ainda que tenha tido tantas tristezas em meu caso, e sem balanço não há avanço.

Daniel Piza, O Estado de S.Paulo

25 de dezembro de 2011 | 03h06

Somos carne e pensamento, um não se dissocia do outro, e do mesmo modo o Natal é ficar feliz em dar e receber presentes, é ver as crianças alegres com o que ganham e pronto, sem místicas nem melancolias. Lembro que meu avô nos levava em seu Opala, no banco da frente, câmbio atrás do volante, para procurar o Papai Noel. Olhávamos para o céu e achávamos que qualquer luzinha era a carruagem de renas. Quando voltávamos, ele já tinha passado e deixado os presentes sob a árvore. Um primo mais velho me disse: "Cheguei até a ver a perna dele saindo pela janela". Eu devia ter uns 8 anos e achei estranho; afinal, era só ter ficado ali que com certeza o veríamos, já que eu nunca tinha conhecido ninguém que não ganhasse presentes todo santo Natal. (Eu já estava acometido desta mania de descrença: antes de fazer 6 anos, na minha primeira viagem de avião, assim que ficamos acima das nuvens perguntei ao meu pai onde estavam os "anjinhos". Não era ali que diziam que eles moravam?) De qualquer modo, afora as comidas saborosamente calóricas, quase sempre o presente fazia a dita magia da noite. Digo "quase sempre" porque uma vez pedi um Piloto Campeão e ganhei uma Motocleta. Inconformado, reclamei: "Que Papai Noel burro!". Mas a Motocleta, espécie de triciclo evoluído, me divertiu muito mais ao descer a rampa do abacateiro na chácara que tínhamos.

Ver o sorriso de filhos e sobrinhos é boa maneira de encerrar o ano, como o fecho de capítulo de um livro que ainda não terminou, e mesmo que não chegue a redimir o capítulo ruim. Perdi minha mãe e, apesar das falas pseudoconsoladoras do tipo "É a vida" (não, é a morte mesmo) e "Tudo vai ficar bem" (defina "bem"), a dor ganha intervalos, mas a ausência fica. Tive também uma decepção pessoal, que abalou minha confiança, me tirou alguns quilos, me fez ver de novo como nossos melhores esforços podem ser os mais injustiçados, como a ingenuidade é amiga da vaidade, como a efusão brasileira pode ocultar inveja ou egoísmo. Também não fico feliz ao pensar que para tantas pessoas uma experiência insubstituível como ter filhos pode ser vista como algo que "atrapalha" ou, pior, que justifica manter relacionamentos frios ou frustrantes, em vez de renová-los. Mas terminei meu capítulo com páginas encorajadoras, confiante não apenas em ter superado a fase crítica, mas também em não ter deixado o desencantamento tomar conta. Aí está, se me permitem o toque natalino: não deixar o desencanto tomar conta é o melhor presente.

Lágrimas. O final de ano veio marcado por mortes de pessoas marcantes. O ator Sérgio Britto, remanescente dos tempos em que o teatro brasileiro ditava rumos culturais como jamais depois; o carnavalesco Joãosinho Trinta, de uma ousadia que deveria ser o padrão da festa, mas quase sempre foi a exceção; a cantora cabo-verdiana Cesaria Évora, inesquecível com sua voz docemente triste e seus dançantes pés descalços. E o polemista inglês Christopher Hitchens, infelizmente lembrado mais por sua confusa adesão ao neoconservadorismo de Bush II do que por sua corajosa crítica cultural na velha e boa linhagem libertária, ou dissidente, dos britânicos; como já notei, ele caiu em óbvia contradição com seu ataque às religiões, se bem que nestes também foi confuso, como ao desprezar a cultura visual do cristianismo (que legou, entre outras conquistas, o Renascimento).

Rodapé (1). Enquanto as outras áreas culturais fecham para entressafra, os livros bons não param de sair. Na saudabilíssima tendência de novas edições e traduções de clássicos, vejo, por exemplo, os dois volumes de Maupassant, Bola de Sebo e os contos O Horla - A Cabeleira - A Mão - O Colar (editora Artes e Ofícios), que foi de uma influência às vezes subestimada sobre o gênero moderno, em sua abertura ao que não se explica e não se controla. Pode-se dizer que Maupassant levou o conto aonde Flaubert não tinha ido tão claramente, mas sem Flaubert - que lhe dava dicas de estilo caminhando nas ruas de Paris - ele nem teria aonde ir.

Me delicio ainda mais com a Nova Antologia do Conto Russo (Editora 34, organização Bruno Barretto Gomide), que vai de Karanzim (1792) a Sorókin (1998), passando por Puchkin, Gógol, Liermontov, Dostoievski, Turgueniev, Chekhov (o muito bem tecido Ariadne, de 1895), Tolstoi, Gorki, Pasternak, Bunin (um xodó dos russos, que não entendem como o autor desse Insolação é menos cotado no exterior), Bábel e Nabokov. Dos contemporâneos, acho Tatiana Tolstaia, a sobrinha-neta de Tolstoi, representada por A Noite, a dona de um lirismo único. Os russos, claro, são muitas vezes lembrados por seus romances intensos e panorâmicos, mas não foram menos notáveis nas formas breves, ainda que menos produtivos.

Ainda sobre clássicos, acaba de sair o Dicionário de Luís de Camões (Leya, coordenação Vitor Aguiar e Silva), alentado volume de mais de mil páginas que alguns escritores brasileiros bem mereciam, como Machado e Rosa. A escrita é um tanto técnica e formal às vezes, mas verbetes como Maneirismo em Camões são verdadeiras iluminações. Afinal, Os Lusíadas é do mesmo período de Montaigne, Shakespeare, Cervantes e outros (de 1570 a 1620, digamos), com sua combinação de artifício e melancolia, de complexidade e incerteza, na transição do Renascimento para o Barroco. "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/ Muda-se o ser, muda-se a confiança", mas o canto de Camões permanece.

Rodapé (2). A extraordinária iniciativa do livro Grandes Expedições à Amazônia Brasileira, de João Meirelles Filho (Metalivros), ganha agora outro volume, dedicado ao século 20. Lamento que tenha sido decidido não dar aqui o capítulo da importantíssima missão de Euclides da Cunha no Acre em 1905, com resultados geográficos, diplomáticos e literários que se comparam a poucos, mas isso não tira a força do livro. Expedições sanitárias como a de Oswaldo Cruz, fantasiosas como a de Percy Fawcett, etnográficas como a de Lévi-Strauss, socializadoras como a do irmãos Villas Bôas, artísticas como a de Margaret Mee, poéticas como a de Thiago de Mello - estão ali, junto a nomes como Burle Marx, Krajcberg e Jacques Cousteau. E ainda há tanto, tanto a estudar e compreender.

Por que não me ufano (1). Passamos de carro ao lado do futuro Shopping JK, na fronteira de Vila Olímpia e Itaim, e minha mulher nota uma placa do BNDES com aquele logo "Brasil - Um País de Todos". É um empreendimento privado, de luxo, que vai trazer grandes grifes ainda inéditas no Brasil, gerando um comércio tal que sem dúvida em pouco tempo estará dando retorno. Por que, então, dinheiro público emprestado para isso? É como nos patrocínios culturais para grandes nomes do show biz nacional ou internacional, que não precisam ter a menor preocupação quanto a seu potencial de mercado. Enquanto isso, a infraestrutura urbana ao redor daquele empreendimento, como as inúmeras calçadas destruídas ou inacabadas demonstram, é ridícula. E tome desigualdade e transtorno.

Por que não me ufano (2). O primeiro ano de Dilma Rousseff, como previsto, não disse a que veio. Imagino que os membros do governo durmam bem, cientes de que o índice de popularidade espelha o do emprego, como as últimas pesquisas comprovaram. A arrecadação continua subindo, apesar da desaceleração produtiva, e o investimento estrangeiro especulativo quase cobre o déficit gerado pelas importações. Logo, sendo pequenos os riscos políticos e econômicos a curto prazo, eles apostam na força inercial da cultura brasileira. E não fazem nada: nenhum programa eficiente, nenhuma reforma estrutural, nada.

Já a realidade cotidiana, que não necessariamente aparece nas intenções de voto (por que o eleitor vai trocar seis por meia dúzia, se as coisas não estão tão ruins e os políticos parecem todos iguais?), é sofrida. O custo de vida beira o absurdo. A arquitetura dos sistemas institucionais é mais desumana que a de Niemeyer, como se vê no corporativismo do Judiciário e no racismo das polícias. A insegurança e a habitação têm índices calamitosos. A corrupção corrói o dinheiro e o espírito público, impune como sempre (quais dos ministros demitidos por pressão pública serão de fato julgados e condenados?). Etc. Mas o brasileiro não desiste nunca... E nem protesta.

Aforismo sem juízo

 

Há elogios que cegam e há críticas que clareiam. Só quem tem visão própria pode discernir

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