De pérolas e reflexos

Muito mais do que de Vermeer, livro fala da aurora do mundo global

TEIXEIRA COELHO, ESPECIAL PARA O ESTADO; É CURADOR DO MASP, AUTOR DE O HOMEM QUE VIVE ENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h08

Escrevendo no The Guardian em 2008, Jerry Brotton, especialista em Renascença, descrevia este livro de Timoty Brook como o melhor sobre Vermeer em muitos anos. Estava certo. E errado: o livro é excelente, mas não é sobre Vermeer, apesar do título. O assunto real de Brook vem no subtítulo: O Século XVII e o Nascimento do Mundo Global. De passagem, difícil dizer por que os editores brasileiros insistem em empobrecer os títulos de seus livros (não só eles); talvez - nesta era brasileira de populismo e analfabetismo secundário em que os jornais explicam entre parênteses o significado de uma palavra "difícil" - por acreditarem que os leitores não entenderão nada além das fronteiras da ignorância do primeiro político que cruzar a rua. Em inglês, trata-se do século 17 e da aurora do mundo global. Aurora é belo e eloquente; um começo pode ser a qualquer hora e de qualquer modo; aurora é outra coisa. E em inglês, não se trata do "mundo globalizado" mas do "mundo global": um mundo globalizado sofre a ação que o faz tal; um mundo global é agente da história, de si mesmo...

Enfim, muito mais do que Vermeer, o assunto de Brook é a aurora do mundo global, a Primeira Idade da Globalização, embora Vermeer não seja um pretexto forçado. Haverá alguma esperteza da editora original de Brook, ou dele mesmo, ao propor um título principal mais palatável. No lugar desse, poderia vir qualquer outro dos sugeridos pelo próprio livro: A Delft de Vermeer, As Janelas de Vermeer, O Geógrafo de Vermeer, A Prata de Vermeer, O Oriente de Vermeer. Se um título pode ser substituído por outro, não é essencial - e no fundo, é enganoso. O que não se pode alterar, aqui, é o subtítulo: O Século XVII e o Nascimento do Mundo Global. Esse é o assunto de Brook - e entendê-lo resgata a frustração inicial do leitor quando percebe que Vermeer ocupará pequena parte do livro. Brook não é um especialista em arte, mas um sinólogo da Universidade de Oxford; sendo-o, aquilo de que falará será, antes, a China. Mas, fala não só da China como do Ocidente - e das relações entre eles e de como se descobriram e definiram o mundo moderno.

De arte, o livro fala pouco. E muito. Mas, está bem que seu autor seja um sinólogo, não um especialista em arte: quando o autor vem de outro campo, o que era invisível (porque o especialista vê sempre a mesma coisa) emerge.

E o livro se revela um deslumbramento de erudição e narrativa.

Como quero que o leitor deste artigo tenha uma boa impressão final do livro, direi desde logo que é um ótimo livro apesar da tradução, da revisão e seus erros grosseiros e variados - algo cada vez mais comum por aqui, mesmo (talvez mais) em editoras grandes e magníficas e soberbas e caras. Irritante. Mas não conseguem destruir a beleza do livro.

Brook parte de Vermeer, e de seu chapéu, porque Vermeer vem de Delft, isto é, dos Países Baixos, e os Países Baixos eram os Países Emergentes da época (mais do que o país Brasil nesta sua época) que então competiam com Portugal e Espanha pelo domínio comercial do mundo. E o que Brook faz é mostrar o que não se vê nas cinco telas de Vermeer (a "orelha" do livro não sabe sequer contar as obras do artista ali analisadas), numa faiança que imita a cerâmica chinesa e em duas obras menores.

No capítulo A Vista de Delft, Brook fala de Xangai, do esfriamento global no século 17, da fundação da Companhia Holandesa das Índias Orientais e de como vai operar no livro: tomando a pintura de Vermeer e algumas outras imagens como portas que se abrem para um vasto mundo - para quem souber encontrá-las e abri-las. Um capítulo é melhor que o outro. Como não posso falar de todos, que baste citar O Chapéu de Vermeer e o que esse chapéu tem a ver com os franceses que foram buscar a passagem para as Índias via Canadá e de lá saíram com peles de castor; e Pesando Prata, a partir da Mulher com Balança de Vermeer (o livro traz as imagens), servindo como pretexto para Brook lembrar que as moedas da época não tinham peso certo (daí ser preciso "pesar a prata" a cada vez) e como a introdução da prata trazida às toneladas das Américas mudou a vida da Europa, no melhor capítulo do livro; e o capítulo da fruteira que imitava outra coisa e que deixa Brook discorrer outra vez sobre a China, o fumo e como isso mudou a cultura da Europa.

O livro é muito menos sobre a história da arte do que sobre a história da cultura, ou das ideias. E menos sobre a arte do que sobre a vida, e menos sobre a vida do que sobre o mundo.

Mas, sendo parco sobre a arte, é uma lição inesquecível de como ver e ler uma imagem buscando captar o que ela não diz. O embate entre Picasso e Duchamp, molduras do século 20, insinua-se neste livro sem dizê-lo: Picasso queria dispensar o cérebro e pensar com os olhos enquanto Duchamp buscava pintar para a mente. Quem estava errado?, pergunta uma exposição recente que confronta os dois. Nenhum. Os dois. É preciso pensar com os olhos e deixar que a mente (a razão) enxergue.

Um historiador da arte "normal", viciado nos códigos e rumos esotéricos de sua disciplina, não faria o que Brook fez ao oferecer, nas palavras de Descartes sobre a Amsterdã de 1631, um "inventário do possível" em arte, economia, geografia e ilusão humana. E o autor revela seu método, sumariado na imagem budista da "teia de Indra": quando Indra moldou o mundo, o fez na forma de uma teia; e de cada cruzamento da teia fez pender uma pérola. Cada coisa, cada ser, cada ideia é uma pérola na teia de Indra. Cada pérola liga-se a outra nessa teia e em cada uma se vê o reflexo de todas elas... E é assim que o chapéu de Vermeer (ele pintou também uma moça com brinco de pérola: coincidência?) reflete o explorador francês que foi matar índio no Canadá com a nova tecnologia do arcabuz e levou para a Europa a pele do castor com a qual se fez o chapéu que Vermeer pintou... Cada palavra em itálico é uma pérola na qual se projetam as outras... (No Ocidente, esse esquema tem o nome de semiose infinita; mas essa é outra história.)

E assim Brook pinta a globalização, que as almas pequenas insistem em ver como grande trama maliciosa enquanto Brook mostra quanto de acaso&escolha existiu e existe nisso. (A ideia do acaso é simplesmente inaceitável para as almas místicas e as materialistas.)

Um livro belíssimo, surpreendente de erudição em tão poucas páginas, que leva a entender o mundo de ontem e hoje e a descobrir na arte um modo de pensar. De quebra, Brook sugere uma resposta à pergunta que sempre se faz: "Afinal, quem ou o que dá valor a uma obra de arte ou a alguma coisa?". Puxando ilicitamente a epígrafe de Brook para o fim desta resenha, "nossa chegada ao significado e ao valor são pausas momentâneas no diálogo com outros, do qual brotam significado e valor" (Gary Tomlinson). Brook oferece esse diálogo e com isso, uma medida do valor - da arte, da vida e do mundo.

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