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De pai para filho

Dava gosto ver a emocionada vibração com que ele, já passado dos 80, falava de seu pai, do pai perdido em morte brusca que fez dele órfão a poucos dias de completar 16 anos. Pessoa de fora que o ouvisse poderia até pensar que falava de alguém que tivesse, como ele, atravessado quase um século de vida. Mas não; seu velho não chegou a ser velho, finou-se aos 56, levado por uma pneumonia difícil de remediar naquela altura da década de 30.

HUMBERTO WERNECK, O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2014 | 02h05

Debulhava casos e mais casos do pai médico, professor, político e até empreendedor malgré lui:transplantado para Belo Horizonte, cidade ainda mais nova do que ele, na qual estava tudo por fazer, o forasteiro carioca era chamado a participar de todo tipo de iniciativa. Ao morrer, era presidente de banco, no futuro um dos maiores do País, do qual foi um dos fundadores. Ali onde foi parar aos 28 anos, para consolidar a cura de uma tuberculose, viveu outros 28, teve a maioria de seus 13 filhos, virou figura pública, acabou nome de praça. Teve uma fazenda nas imediações e lá construiu um sanatório em que pôs muito do hospital suíço onde se tratara.

Nas histórias que o filho relatava, a certa altura me chamou atenção o fato de que só em duas ele próprio figurava. É que naquele tempo, explicou, não havia isso de pai dar corda a filho. Da cria para o criador, havia a trava de intransponível cerimônia, feita de reverência e temor. Menino era menino até o dia em que, socialmente, virava homem, de uma hora para outra, sem que entre as duas condições tivesse havido adolescência. Feita a passagem, aí sim, algum diálogo podia existir. Diálogo? Não exageremos. Pai era algo colossal, inabordável.

Em qualquer família ou só naquela ali, feita em sua maioria de gente não especialmente dada a delicadezas?

Um dia, já próximo do fim, o patriarca anunciou ao filho, o último entre os varões: precisamos ter uma conversa. Acontecimento inédito na vida do mocinho que aos 15 anos um decreto paterno promovia assim a homem-feito. Quase não dormiu naquela noite, e era todo emoção e sobressalto quando foi convocado ao escritório. Você já pensou no que vai fazer da vida?, perguntou o pai. Queria ser médico também - mas do outro lado da mesa veio o argumento de que na família já havia dois. Que tal odontologia? A escolha seria dele, mas que meditasse na alternativa, para fecharem o assunto em nova conversa.

Não houve tempo, a orfandade desabou quase em seguida. Pela vida afora o filho vai dizer que nem hesitou, que caminhou espontaneamente para a odontologia, profissão que amava, até porque, desaparecido o provedor, o clã se enredou em dificuldades financeiras - circunstância que impunha ao moço um curso mais breve, metade dos seis anos da medicina, para que pudesse logo trabalhar. Será? Em mim ficou a desconfiança de que sobretudo ele não quis contrariar o que julgava ser um desejo do falecido.

A outra história ocorreu uns anos antes, num momento em que o pai, batendo os olhos no menino, estranhou os cabelos cacheados e a roupa infantil. Vamos dar um jeito nisso, decidiu.

No mesmo dia, seguiu com ele para o comércio. (Levava o menino pela mão? Pouco provável que um tal pai se permitisse tanto mel na relação com filho macho, onde já se viu?)

A expedição foi rapidíssima, contava radiante. Calças? Uma dezena, estipulava o pai, tão expeditivo quanto exagerado. Camisas? Uma dúzia. Cuecas, outro tanto - e em minutos o menino tinha todo um farto guarda-roupa de marmanjo, sem que tivesse sido consultado uma só vez sobre cor, feitio, nada. Ao encantamento de se ver objeto de cuidados de um pai até então distante talvez se misturasse, mas isso sou eu que especulo, certa humilhação de ser vestido à revelia. À saída da loja, o olhar sumário do pai se deteve numas pilhas de chapéus - palhetas, adereço da masculinidade ainda em voga no final dos anos 20. A primeira, grande demais. A seguinte, menor do que precisaria ser, mas isso era lá problema para o doutor? Um piparote no tampo e a palheta se encaixou, justíssima, no coco do menino.

Já na rua, agora homem de fato e fatiota, meu pai teve que apertar o passo para não se perder do meu avô.

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