Renato Spencer/Usefoto
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De outro mundo

A lenda McCoy Tyner exala em palavras aquilo que seu piano faz em notas

Roberto Nascimento, O Estado de S.Paulo

18 de setembro de 2010 | 00h00

Um grupo de cinco notas empilhadas e contorcidas tece a trama sonora de grande parte da música do século 20. Debussy as ouviu em uma feira oriental em Paris e ficou hipnotizado pelo equilíbrio proporcionado: um som que transcendia o lirismo triste e alegre da música ocidental e se assemelhava à reflexão melódica da paz. Era o yin e o yang musical. Do Oeste africano, migraram para os EUA em cantigas de negros cativos. O envergar dos intervalos nos lamentos da plantação era o catalisador do grito de liberdade contido, o arrimo para a dor do mundo.

Mães do blues, madrinhas dos acordes suspensos de Debussy, as cinco irmãs da escala pentatônica e as correntes eruditas e populares que originaram se convergiram nas mãos de McCoy Tyner para formar um dos estilos pianísticos mais influentes da história do jazz. "Eu simplesmente ouvia este tipo de som. Juntava dois intervalos e abria as vozes do piano para que todas as sonoridades pudessem entrar. É como uma porta, nada entra se você a mantém fechada. Então eu a abri. Foi total liberdade", contou McCoy, aos 71 anos. O pianista é um dos mestres que tocam em um excelente DVD lançado pela Wet Music, e falou ao Estado no dia de sua apresentação no recente festival Mimo, em Olinda.

A gênese criativa ocorreu em 1961. John Coltrane havia levado o frenesi harmônico do bebop ao limite em sua composição Giant Steps e músicos encontravam-se em uma encruzilhada estilística: abandonar todas e quaisquer regras, enveredando pelo free jazz, ou desconstruir a complexidade do bop em favor do minimalismo harmônico ditado por Miles Davis em seu seminal disco Kind of Blue.

Sem regras. Foi quando Coltrane, um dos músicos do disco, deixou o grupo de Miles para livrar-se do vício em heroína e contratou o jovem pianista da Philadelphia, sua cidade de residência, para desenvolver os conceitos trabalhados pelo trompetista. "John me dava um punhado de acordes e dizia: toque o que você está escutando", contou Tyner, num tom quase sussurrado, sobre suas primeiras experiências com Coltrane. "Não havia regras. Ele não dizia toque esta ou aquela nota. Por isso, era grande professor."

Os dois se apresentaram ao vivo por alguns meses e partiram para o estúdio para registrar o clássico My Favorite Things, tema do musical A Noviça Rebelde, que Coltrane vislumbrou como veículo para as novidades sonoras. O disco foi um marco. Favorecia uma harmonia cíclica, que se repetia como um mantra, possibilitando largos panoramas de improvisação. No piano, as pentatônicas reorganizadas em uma profusão de maneiras formavam os acordes rarefeitos de McCoy, impulsionando a música em uma espiral ascendente que, acompanhada do sax soprano de Coltrane, levava o ouvinte ao sublime.

"Era o resultado das experiências musicais que tinha vivido até então. Tocava em uma banda de R&B, acompanhando uma cantora. É a melhor maneira de começar, pois o R&B é o alicerce do jazz. Também cantava em um coral na escola e tocava o repertório erudito ao piano", disse.

Foi a primeira visita ao País em 30 anos e McCoy estava de bom humor. Seus olhos, emissores de um olhar mediúnico e imprevisível, ora fitavam o horizonte, ora saltavam repentinamente do molde esguio de seu rosto para acompanhar uma risada. Trajando terno de linho e boina, à moda do Harlem antigo, queria saber o nome das árvores locais e não economizava conselhos espirituais aos jornalistas que se agregaram aos seus pés.

"Comecei a tocar por causa da minha mãe", contou. "Ela era esteticista, dona de um salão de beleza e adorava música. Toda vez que atendia um cliente que tinha um piano, me levava junto para que eu pudesse tocar. Ela comprou um para mim mas não cabia em casa, então o colocou no salão. Enquanto cortava cabelo, eu praticava. Passava horas lá. Às vezes até ensaiava com o meu grupo enquanto as moças se embelezavam."

Dinâmica. Após os primeiros discos, Coltrane logo agregou o baterista Elvin Jones e o baixista Jimmy Garrisson à banda, formando a seleção de 70 do jazz moderno. "Eu já conhecia a família Jones. Hank era um grande pianista e Thad, um brilhante arranjador. Eu achei que não poderia haver outro cara tão bom na família. Então, John contratou Elvin, que tocava com uma força fenomenal, tinha uma dinâmica explosiva, mas ouvia atentamente. Estava sempre em cima de tudo o que eu tocava."

Depois do auge do grupo, que veio com o disco-prece A Love Supreme, McCoy deixou Coltrane para fazer carreira-solo. A prolífica discografia inclui álbuns magníficos com Joe Henderson, Freddie Hubbard, Wayne Shorter e outros gênios. Nas últimas décadas, tornou-se um guardião do jazz que concebeu, mantendo a integridade estilística durante as mudanças do fusion e o jazz moderno, que, curiosamente, bebe como nunca de sua fonte musical. Em Olinda, McCoy se apresentou em uma igreja, onde sua personalidade recatada deu vez a um som incendiário e intensamente rítmico. "Se nos distanciarmos da essência, a música perde o elemento dançante. Aqui no Brasil, a dança é inseparável da cultura", contou, antes de batucar um samba e mostrar um molejo sapeca, manhas da nata da malandragem jazzística.

DISCOGRAFIA

My Favorite Things

Primeira colaboração de McCoy com Coltrane, praticamente definiu os moldes do jazz modal.

Inception

Primeiro álbum como líder. Destaque para Speak Low.

Ready for Freddie

McCoy e Wayne Shorter em sessão com Freddie Hubbard.

Live at Newport

Um encontro de gerações entre McCoy e o genial trompetista Clark Terry.

A Love Supreme

Disco sacro considerado o ápice do famoso quarteto.

Ballads

O lado lírico de McCoy e Coltrane em baladas de tirar o fôlego.

Sahara

Da fase de pesquisas de sonoridades africanas. Flautas e percussão dão um verniz.

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