De onde vem o baião

Exu, no norte de Pernambuco, respira a música de um homem que soa cada vez mais profético

JULIO MARIA , ENVIADO ESPECIAL / EXU (PE), O Estado de S.Paulo

08 de dezembro de 2012 | 02h10

Asa branca é uma dama difícil, fechada e temperamental. Não gosta de gente nem de bicho. Anda amuada desde a noite em que uma quadrilha de gambás entrou em suas terras para devorar cinco amigas que dividiam com ela o pequeno viveiro do parque que leva seu nome em Exu, no norte de Pernambuco. Foi um Deus nos acuda e pena pra tudo o que é lado. Desde então, vive ressabiada entre quatro machos doidos para subir em seu cangote e lhe dar um herdeiro. Se os filhotes chegarem, serão dois: um, por maldição que acompanha a raça, não vai sobreviver por mais de dois dias. O outro, por tradição cantada por Luiz Gonzaga do Nascimento, pensará seriamente em bater asas do sertão.

As terras de Exu ardem desde o início do ano, quando os mandacarus não fuloraram e a chuva não chegou ao sertão. A pior seca dos últimos 30 anos dizima as plantações, faz o pasto virar palha e o gado emagrecer até perder as forças. Quando as pernas das vacas tremem, seus olhos lacrimejam e elas se deitam para morrer. Fileiras de carcaças tomam beiras de estradas e qualquer coisa que se possa beber vira ouro. "Não vendemos água fiado. Não insista", diz uma placa em frente da fazenda Gameleira, de geografia abençoada pela nascente do Rio Brígida. Ali, compra-se um litro de água não barrenta por 75 centavos. Homens do Exército ajudam na escavação de poços e as águas que vêm transpostas do Rio São Francisco, quando não têm seus canos criminosamente perfurados para irrigar plantações particulares, chegam à população. Sessenta e cinco anos depois de garimpar no sertão um canto popular com Humberto Teixeira e lançá-lo com o nome de Asa Branca, Luiz Gonzaga soa em sua terra como um profeta.

E soa alto. Não há um entre os 32 mil habitantes de Exu que não ouça ao menos uma música de Luiz Gonzaga por dia. No alto dos postes, caixas de som espalham sua voz por todo canto, todos os dias da semana. O rosto sorridente do rei do baião está grafitado na fachada de casas e botecos. Um posto de gasolina e um restaurante se chamam Asa Branca. A BR-232, que liga o sertão do Araripe à capital de Pernambuco, é a Rodovia Luiz Gonzaga desde 2008. A praça principal tem lanchonetes com aparelhos de TV exibindo shows de sanfoneiros que tocam Gonzaga. E 80% dos ouvintes que ligam para uma das maiores rádios da cidade, a Acauã FM, querem apenas escutar Gonzagão. "Vamos fazer uma programação só com as músicas dele", diz o locutor Cristiano Santos. Ali em Exu, ou o cabra gosta de baião ou imita a asa branca e some para os lados do Ceará. "Aqui não tem rock não", diz João Euder, um estudante de 19 anos. A única banda que tentou se aventurar pelo gênero que o sanfoneiro chamava de "música de fresco", a C4, sentiu a escassez de público roqueiro e se converteu ao forró.

O braseiro de Exu não vem só do céu. "Até que as famílias pararam de se matar por aqui", diz o policial Raimundo Saraiva, identificador da delegacia da cidade. Ele fala de uma das mais sangrentas batalhas da região, uma troca de tiros e safanões entre os Saraivas e os Alencares que levou mais de 30 anos e deixou 40 mortos pelas ruas de Exu seguindo um roteiro nada criativo. Se um Alencar assumisse a prefeitura, era logo assassinado por um Saraiva. Se um Saraiva chegasse ao poder, ia para a mira da espingarda de um Alencar. A retaliação era automática. Assim que um Saraiva tombasse, um Alencar pagava com a vida. E vice-versa. "As mães saíam de casa e se despediam de seus filhos chorando, como se não fossem mais voltar", lembra o comerciante Zil Freitas. Até Luiz Gonzaga pediu intervenção estadual e o assunto foi esfriando. Saraivas e Alencares ainda evitam bares que são redutos de seus adversários, mas já se trombam pelas ruas sem produzir faísca. Seguem, no entanto, alternando o poder político com disputas acirradas. Os Alencares são conhecidos não oficialmente por bocas brancas e pelo número 40. Já os Saraivas são os bocas pretas e se candidatam com o 14. A última eleição daria um xote de Gonzaga. Léo Saraiva, da frente Por um Exu de Todos (PTB, PR, DEM e PTC), foi reeleito com 10.023 votos contra os 10.022 conseguidos por Jailson Bento, da coligação Avança Exu (PT, PSC e PSB), representante dos 40. Um danado de voto a mais que prova a tolerância dos novos tempos. "Agora é trabalhar pela cidade", diz Saraiva, sem colete à prova de balas.

Há tempos que as aves de Exu não se assustam com tiros - mais precisamente há 10 meses, período em que não há nenhum registro de homicídio na região. "Vamos fechar um ano sem mortes", acredita a delegada Livia Pires. Se assim for, será mesmo uma vitória de fazer a Organização das Nações Unidas soltar rojões. As tolerâncias mundiais são de 26 homicídios para cidades com até 100 mil habitantes. Quem dá mais trabalho em Exu são homens que bebem além da conta e batem em suas mulheres. "Ainda impera a cultura machista da região", diz Livia. O crack não existe por lá, mas a cocaína e a maconha sim. E as carcaças de carros depenados se acumulam pelas ruas. "Sem dúvida, é um destino de automóveis roubados."

Seu Reginaldo de Carvalho entende de carro, mas entende ainda mais de Luiz Gonzaga. É um dos raros personagens que ainda vivem em Exu com histórias para contar na condição de testemunha e protagonista. Como um fiel em busca do padroeiro, foi até a casa de Seu Luiz, no final dos anos 70, pedir ajuda para conseguir renovar sua carteira de motorista. Depois da fama do sanfoneiro era assim. Ou o povo pedia a intercessão espiritual de Padim Cícero ou apelava para a intervenção moral de Seu Luiz. Uma das duas sempre funcionava. "Vamos pro Crato amanhã mesmo que eu resolvo isso pra você", disse o sanfoneiro.

Gonzaga o levou até a cidade vizinha certamente com segundas intenções. Depois de conseguir o que o rapaz queria, fez não um pedido, mas uma ordem: "Agora você vai trabalhar de motorista para o Rei do Baião". E assim foi por três anos, de 1977 a 1980, tempo para Reginaldo rodar todo o País. "Só não fui com ele para o Amazonas."

Ao chegar à cidade de Farias Brito, no Ceará, Gonzaga ficou sem zabumbeiro. Olhou para o motorista magrelo e não teve dúvida: "Reginaldo, pega a zabumba". O homem tremeu que nem perna de vaca na seca. "Mas Seu Luiz, eu não sei tocar não." "E daí rapaz? Ao lado do Rei do Baião todo mundo vai achar que você toca demais." E assim foi.

Quando dizia ser o motorista real do sanfoneiro, o povo mangava de Reginaldo. Ao saber, Seu Luiz resolveu endireitar a história. "Reginaldo, fique atento que vou lhe chamar", avisou antes de um show em Mato Grosso. Lá pelas tantas, o piloto incrédulo ouviu a voz do patrão: "Agora com vocês, meu zabumbeiro e motorista Reginaldo". Foi uma noite de glória.

O show de Mundica era em outro palco. A menina tinha 18 anos em 1968 quando Seu Januário, pai de Gonzaga, a chamou para trabalhar na cozinha de sua casa. Raimunda 'Mundica' Sales foi e não largou mais aquela família. Cozinhou com farinha mas sem a pimenta que Seu Luiz detestava, dizendo que ela tirava o gosto da comida. Fazia uma galinha capoeira e uma carne de cabrito de deixar o homem mole. Só com o sal que não conseguiu um acordo de paz. "Com isso ele era chato. Mesmo que o médico proibisse, sempre queria mais." Mundica, 63 anos, segue cuidando do velho casarão em que Luiz viveu seus últimos dias, dentro do Parque Asa Branca. "Pra mim ele está vivo, mas tenho que me conformar que não vai mais voltar."

Sangue de Gonzaga em Exu que tem mesmo é Joquinha, sobrinho-neto do sanfoneiro, único da espécie a empunhar a sanfona em um peito que nem sempre andou estufado. "Era tanto preconceito que, quando eu morava no Rio de Janeiro, não dizia a ninguém que era parente de Gonzaga." O tio se desdobrou para fazê-lo um seguidor. Deu-lhe uma sanfona de oito baixos, o apresentou em seus shows e o colocou em uma escola de música. "Não aproveitei. Ele pagou um ano pra mim e eu aprendi foi nada." Ainda assim, Joquinha esteve no grupo de Gonzaga o acompanhando em grandes shows, como na apresentação que fizeram na França, em 1986. "Eu acho que foi naquele dia, olhando para aquela plateia, que Gonzaga ficou sabendo o real tamanho que ele tinha."

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