De olho no cobiçado Oscar

Ministro da Cultura quer mudança no critério de selecionar os concorrentes

Rafael Moraes Moura / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

11 de agosto de 2010 | 00h00

E lá se vão seis anos sem reconhecimento da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood. Desde que Cidade de Deus foi indicado para quatro Oscars (diretor, roteiro adaptado, edição e fotografia), em 2004, o Brasil é ignorado pelo maior prêmio da indústria do cinema. Considerando a categoria filme estrangeiro, o hiato é ainda maior: a última lembrança foi em 1999, com Central do Brasil. Volta e meia, discutem-se os motivos para o não-reconhecimento da produção brasileira - entre eles, os critérios que norteiam a comissão responsável pela escolha. Afinal, falta qualidade aos filmes brasileiros? O Brasil não sabe fazer filme para o Oscar? Ou não sabe definir bem seu representante? Para o ministro da Cultura, Juca Ferreira, é necessário um grupo mais "heterogêneo" na hora de bater o martelo sobre a indicação.

"Sou favorável a uma comissão maior, mais heterogênea. Da vez passada, sem nenhum demérito para o filme que foi representado (Salve Geral), acho que faltou uma visão mais ampla do cinema brasileiro, do que significa o Oscar", disse o ministro ao Estado, em entrevista concedida no mês passado. "Vou conversar com a Secretaria do Audiovisual se não há possibilidade de ampliar a comissão, ouvindo um número maior de gente."

Em 2009, seis pessoas formaram o grupo que optou por Salve Geral - três delas foram ouvidas pelo Estado: o cineasta Carlos Gerbase, o produtor Beto Rodrigues e a diretora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ivana Bentes. "A escolha como tem sido realizada até agora tem sido correta", diz Rodrigues. "Salve Geral tinha vários ingredientes com cara de Oscar, mas obviamente apareceram outros filmes com apelos artísticos e de realização mais consistentes. Não há fórmula que garanta ficar entre os cinco (finalistas)."

Na opinião de Ivana, há uma tendência da comissão em cair no "clichê". Antes de Salve Geral, haviam sido escolhidos filmes como Última Parada 174, O Ano em Que Meus Pais Saíram de Férias, Cinema, Aspirinas e Urubus, 2 Filhos de Francisco e Olga.

Caretice. "As comissões querem ser mais previsíveis que a própria Academia, no sentido da caretice. Não pode ser mais careta que o Oscar", analisa Ivana. Ela critica a atitude de se preferir um cinema mais convencional, em detrimento de um trabalho experimental. "Pessoalmente, apostaria sempre num tipo de filme mais singular. Ano passado, gostei muito de A Festa da Menina Morta (de Nachtergaele), Se Nada Mais Der Certo (Belmonte), o próprio Salve Geral (Sérgio Rezende) tem seus méritos, mas podíamos ter apostado em outras possibilidades."

Para Gerbase, há um conjunto de características que torna um filme mais "oscarizável": uma linguagem narrativa mais convencional, temáticas de apelo universal, uma forte "carga de emoções". "O que adianta mandar um filme que o júri gosta e que obviamente não tem o perfil do Oscar?", questiona. "A comissão procura entrar dentro da cabeça de uma possível seleção norte-americana, o que é um exercício muito difícil."

Os filmes escolhidos, avalia Gerbase, não ficaram entre os finalistas do Oscar porque não foram considerados suficientemente bons pelos membros da Academia. Na opinião do cineasta, o prêmio não serve de parâmetro para medir o momento da cinematografia brasileira. "Para o cinema brasileiro, o festival de Cannes ou o de Berlim são muito mais importantes. O Oscar nem é um festival exatamente."

Mas que seria bom levar uma daquelas estatuetas douradas para casa, não há dúvidas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.