Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

De olho no Brasil

Diretora da Gagosian critica impostos, mas vê bom momento para o mercado de arte no País

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2013 | 02h17

Victoria Gelfand-Magalhaes, uma das diretoras da Gagosian, que integra o seleto hall das maiores galerias de arte do mundo, é quase brasileira. Nascida na Bielo-Rússia, radicada em Nova York, casada com um carioca, ela entende português, já esteve no País muitas vezes e é apaixonada por arte e música brasileiras. Ou seja, tem bagagem de sobra para analisar com olhos atentos o atual cenário das artes plásticas no Brasil. Mesmo assim, frisa o 'quase' quando ouve dizer que é 'quase brasileira'. "O Brasil, apesar de ser ocidental, tem uma cultura particular. E engana à primeira olhada. Há muitas nuances. É um eterno aprendizado", comentou ela em conversa com o Estado, na última semana, no Hotel Emiliano.

Em sua atual passagem pelo País, para participar da ArtRio, a maior feira de arte da América Latina, que começa amanhã e segue até o domingo no Pier Mauá, ela passou por São Paulo e disse ter aprendido um pouco mais do tradicional jeito brasileiro para lidar com tudo. Inclusive arte. "Não é fácil mapear a arte no Brasil, assim como não é fácil fazer o circuito das galerias em São Paulo. Estão espalhadas, não há um quarteirão das galerias. Impossível visitar tudo em um dia", disse ela. "Se todas ficassem perto, seria tão mais simples. Mas talvez este fator seja uma das características mais brasileiras e interessantes. As coisas não são simples de serem desvendadas."

E são exatamente as peculiaridades da cultura local que fazem com que o 'quase' faça sentido. "O Brasil tem uma forma própria de lidar com a arte, tanto de consumi-la quanto negociá-la", analisou a diretora, que para a terceira participação da Gagosian na ArtRio traz duas grandes atrações: um estande assinado pela designer Claudia Moreira Salles e uma escultura do italiano Giuseppe Penone, um dos expoentes da arte povera, que integra a LUPA, novo programa da feira para obras em grande escala.

Além disso, o espaço Gagosian contará com 60 trabalhos de 40 artistas de todo o mundo. Entre eles, nomes como Alberto Giacometti, Edgar Degas, Damien Hirst, Roy Lichtenstein, Pablo Picasso, Jackson Pollock, Andy Warhol, Henry Moore, Joel Morrison, Christopher Wool. "É um mix de obras mais clássicas e outras contemporâneas, interessante para diferentes tipos de colecionadores."

Para Victoria, o fato da Gagosian apostar em uma lista de tamanha expressão é sinal do quanto o cenário local de compra e venda de arte está aquecido. "Com a economia indo bem, o Brasil começa a entrar para o circuito mundial de arte, tanto para comprar quando vender. Até hoje o mercado local foi muito fechado. Brasileiros compravam majoritariamente arte nacional. A política de impostos para importação é tão alta que se tornava proibitivo comprar arte internacional", explicou. "Nos últimos anos, o governo baixou os impostos e isso permitiu que os brasileiros pudessem comprar mais. As taxas ainda são altas, mas são mais compatíveis com índices mundiais."

Segundo ela, são as altas taxas que têm adiado os planos da Gagosian de abrir sua filial brasileira. Fundada há três décadas por Larry Gagosian, tem três unidades em Nova York, duas em Londres, uma em Paris, Beverly Hills, Roma, Atenas, Gênova e Hong Kong. "Os impostos também explicam porque 85% da arte brasileira é comprada por brasileiros. Mas já há uma abertura e o País dá os primeiros passos em direção a algo bom, para que mais brasileiros sejam também vistos no exterior. Vamos ver como vai ser daqui para frente."

Por enquanto, a Gagosian não possuiu obras brasileiras em seu catálogo. "Isso também tende a mudar. Sempre apostamos em nomes que já têm carreiras muito estabelecidas. E os artistas nacionais estão cada vez mais neste caminho."

Para a diretora, a política nacional em relação à arte precisa de mudanças. "Os museus não recebem o incentivo necessário. Tampouco pessoas físicas o recebem, para que possam doar obras. Foi assim que a Europa e os EUA criaram muitos museus. Não por meio de compra direta do governo, mas por incentivos dados a indivíduos que doaram arte ao País. Isso não existe muito aqui", comenta ela. "É também preciso oferecer mais ao público, que está faminto. Os números de visitação a museus no Brasil superam os de qualquer país. Nunca vi um número tão grande de 'visitantes comuns' em uma feira para o mercado, como na ArtRio de 20012. Se há algo de que brasileiro gosta é arte."

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