MAM/ Divulgação
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Antonio Manuel abre mostra no MAM do Rio, que dialoga com o que sai na imprensa

Roberta Pennafort / RIO, O Estado de S.Paulo

13 de dezembro de 2013 | 02h09

O noticiário sempre impactou Antonio Manuel em seu trabalho de quatro décadas como escultor, pintor e desenhista. Contestador nos anos de ditadura militar, ele denunciou a violência do regime em obras como Repressão Outra Vez - Eis o Saldo (1968), conjunto de quadros focados na repressão policial a passeatas, mal divulgada pela imprensa sob censura, e Clandestinas (1970), série de edições do jornal carioca O Dia com notícias adulteradas por ele, que eram colocavas para venda nas bancas.

Na exposição que abre ao público hoje no Museu de Arte Moderna do Rio, o artista de origem portuguesa (veio para o Brasil criança, com a família) mostra parte de sua produção recente, que também dialoga com o que sai na imprensa. Nave exibe notícias num monitor de TV colocado numa cabine de madeira. Sobre ele, um líquido é despejado como forma de embaçar essas imagens, esmaecendo-a literal e metaforicamente. "São notícias de tudo que a gente poderia jogar no lixo: educação no buraco, desigualdades, violência, corrupção, polícia batendo em professor", conta Antonio, referindo-se à ação policial contra os recentes protestos de rua.

"As coisas estão se repetindo. As manifestações são sinal da insatisfação geral, está todo mundo pressionado, assistindo a todo tipo de baixaria. A diferença é que hoje não há mais liderança, Acredito que a qualquer momento os protestos possam voltar."

A instalação Fantasma, de 1994, foi remontada. Ela inclui, ao fim da sequência de dezenas de pedaços de carvão suspensos por fios de nylon, como meteoros, uma foto bastante divulgada à época: uma testemunha da chacina ocorrida na favela de Vigário Geral, em agosto de 1993 (21 pessoas foram mortas por PMs), dando entrevista a repórteres com o rosto coberto por um pano branco, sem qualquer resquício de identidade.

Já montada em Nova York, em Paris, na Alemanha e em Portugal, Fantasma é das imagens mais emblemáticas da trajetória de Antonio Manuel. Como não queria que a exposição tivesse caráter retrospectivo, ele preferiu, ao ser convidado pelo MAM, deixar de fora outros ícones de sua produção - caso de O Corpo É a Obra, registro da performance de 1970 no mesmo MAM: para contestar os critérios de seleção de obras de arte para exposições, ele usou o próprio corpo como obra: apareceu nu na noite de abertura do Salão de Arte Moderna daquele ano.

"Não quis retrospectiva de jeito algum. Estou vivo, não vou estagnar o trabalho. Nem catálogo raisonné (publicação que reúne toda a obra de um artista) me interessa", explica.

O recorte feito pelo curador do MAM, Luiz Camillo Osorio, é dos últimos 30 anos. Dez pinturas produzidas entre 1985 e este ano conversam com as instalações e esculturas.

Frutos do Espaço é de 1980; Ocupações, de 1998; Sucessão de Fatos, de 2003. A primeira é composta por grandes estruturas de ferro vazadas que se baseiam na diagramação de uma página de jornal, com suas colunas de texto, fotos e títulos. Cada um preenche da forma como imaginar. "Tenho paixão por jornal e por diagramação", ele diz, lembrando da "mostra" De 0 às 24 Horas, que fez em 1973 nas páginas caderno de cultura d'O Jornal, como forma de apresentar o que havia sido vetado pela censura em sua proposta de exposição física.

Ocupações é constituída por três muros de alvenaria, em cores vibrantes, cada um com uma abertura que permite que o visitante anteveja o muro seguinte ao atravessar o primeiro.

Exibida na Bienal do Mercosul de dez anos atrás, Sucessão de Fatos foi montada pela primeira vez no Rio: numa área de 15 por 7 metros, o artista dispôs 1.700 telhas no chão, e "lagos" com materiais de coloração forte. É como um telhado no chão, sobre o qual se caminha em desequilíbrio.

As obras vieram de coleções particulares e do próprio acervo do MAM. Elas chamam o público a interagir. "São para o corpo, não só para o olhar", segundo o artista.

ANTONIO MANUEL

MAM-Rio. Av. Infante Dom Henrique, 85, Rio de Janeiro, Tel.: (21) 3883-5600.

3ª a 6ª, 12 h/ 18 h; sáb. e dom., 12 h/ 19 h. Até 16/2.

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