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De Niterói para o mundo

Sérgio Mendes criou um buliçoso estilo imutável que conquistou os sete mares

Sérgio Augusto, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2017 | 03h00

Na contramão da penúria e do baixo-astral fluminenses, abriram no Rio um Blue Note. Com 400 lugares e em fase de “soft opening”, é o oitavo clube de jazz da franquia no mundo inteiro. Mais bonito que o de Nova York e o de Tóquio, fez questão de ressaltar sua mais recente atração, o pianista, compositor, bandleader e cantor Sérgio Mendes. Só conheço o de Manhattan, e concordo. Convidado ao show do xará, aceitei sem piscar. Não o via em cena desde sua apresentação, en privé, no Instituto Moreira Salles, anos atrás, a última que entre nós fizera, e confesso que fui sem a arriscada expectativa de encontrar novidades. 

Sérgio Mendes criou um buliçoso estilo imutável, um misto de jazz, samba e bossa nova, com direito até a maracatu, que conquistou os sete mares, na década de 1960, e dele se recusa a abrir mão. Seu grupo pode mudar, à exceção de Gracinha Leporace, crooner e sra. Mendes, e mesmo ser acrescido de um rapper, mas o repertório e os arranjos nos asseguram sempre uma viagem deleitosa aos tempos do Brasil ’66. 

Homenageando seus mestres (Tom, Moacyr Santos, Baden) e companheiros de geração (Chico, Edu, Dori, Jorge Ben Jor), fez o que ele próprio nominou “um passeio musical pelo Rio”, nas asas de Mas Que Nada, Água de Beber, O Cantador, Upa Neguinho, mais seus standards gringos, igualmente infalíveis, entre os quais o melhor A Fool on the Hill sem os Beatles. Foi uma noite plena de evocatórias alegrias. Um passeio a um Rio que era doce e se acabou. Andava bem necessitado de uma bolha como aquela. Quem não?

Conheci Sérgio Mendes deslanchando carreira no Bottle’s, um dos berços da bossa nova, no Beco das Garrafas, em Copacabana. Volta e meia o reencontrava, de madrugada, na estação das barcas, na Praça 15, de volta para Niterói, onde ele e seu baixista Tião Neto moravam, pois costumava acompanhar até lá alguns companheiros de redação e cinema que também residiam do outro lado da baía, como Walter Lima Jr, Ely Azeredo, Décio Vieira Ottoni e Nelson Pereira dos Santos, o meu Esquadrão de Arariboia.

Reencontrei-o anos depois, ainda do outro lado da baía, outra baía, a de São Francisco, fazendo sucesso no legendário bar The Trident, em Sausalito. Linda paisagem, belas garçonetes, combinação perfeita com Scarborough Fair, seu último hit na época. Há uma cena em Sonhos de um Sedutor, com Woody Allen dando vexame na varandona do Trident. 

Para ir ao Blue Note tive de interromper a leitura de um dos livros mais apaixonantes que li este ano: O País Que Não Teve Infância (Autêntica, 286 págs.), coletânea de 86 crônicas de Antonio Callado (1917-1997), publicadas na coluna Sacada, que o escritor manteve na revista IstoÉ, entre 1978 e 1982. A coincidência não é irrelevante. Callado nasceu em Niterói. Ou melhor, em Niterói-On-Avon, como sempre insiste Jaguar, menos por ter Callado vivido em Londres e trabalhado na BBC durante a guerra do que por ele ter sido um autêntico lorde inglês, o mais brasileiro (o mais caboclo, segundo Tom Jobim) de sua espécie, da qual foi, creio, o único espécime. 

Não bastasse, nas primeiras décadas do século passado, a praia de Icaraí, a mais famosa de Niterói, era quase uma colônia de ingleses, pois lá ficavam a Western Telegraph e a Leopoldina Railway Company. E muito, muito antes até da chegada dos tupinambás, lá já existia o que viria a ser chamado de morro do Cavalão, ao pé do qual Vinicius de Moraes, refugiado na casa do primo Carlos Leão para escapar do carnaval de 1943, teve o estalo de Orfeu da Conceição. Ironicamente aditivado por uma batucada carnavalesca provinda de uma incipiente favela do Cavalão. 

Agora ao livro do Callado. O país que não teve infância – vale dizer, que nunca cresceu – é mesmo aquele bonito por natureza e também notório pela “obstinada determinação de fazer com que a imensa maioria do povo sustente uns 10 ou 15% da população”, sintetizado pelo autor em maio de 1980. Um país dividido, desde o descobrimento, “entre sesmeiros e farofeiros”, cruel com seus primitivos donos (daí a intransigente admiração do escritor por Rondon, os irmãos Vilas-Boas e todos os padres que durante a ditadura militar foram perseguidos, presos, torturados e mortos por defenderem os índios e uma distribuição menos iníquia da terra), além de relapso com seu meio ambiente, e latinamente perdulário e incompetente. 

Poucos de nossos intelectuais amaram tanto o Brasil e o compreenderam com igual lucidez, na prosa ficcional e na jornalística. E como escrevia bem, caramba. Seu texto, mimeticamente elegante, pontuado de observações irônicas, sempre crítico, e veemente quando necessário, flui como um plácido riacho. Publicadas no início do último governo militar, suas crônicas são um retrato sem retoques das insanidades daquele período. Falam de política, costumes, cultura, arbítrio, corrupção, violência, destacando e perfilando heróis, mártires e vilões, não só daqui como das demais ditaduras do Cone Sul. 

Se o show de Sérgio Mendes me aconchegou numa bolha de euforia, as crônicas de Callado me trouxeram de volta à realidade, puseram-me o pé no chão, espantaram o kismet, reavivaram lembranças que ainda hoje, desgraçadamente, não pertencem só ao passado. 

Em 1978, por exemplo, a PM expulsou dos seus quadros, por envolvimento com o crime, 144 soldados, cabos, sargentos e até oficiais. A cada 42 horas um policial foi expulso por crimes que iam do tóxico à tortura e ao assassinato – ou assassínio, como preferia o castiço Callado, que, aliás, em breve será visto na tela num documentário dirigido por Emilia Silveira, suficientemente intitulado “Callado”. 

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