De Niro, uma influência sem limites

Aos 67 anos, ator que está no novo thriller de Neil Burger fala de sua carreira e dos planos de voltar à direção

Karl Rozemeyer, Associated Press, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2011 | 00h00

"Sem que ele o saiba, nosso relacionamento é bastante antigo", diz Bradley Cooper, "pois foi por causa dele que me tornei ator". Cooper, um dos jovens astros mais requisitados de Hollywood após o surpreendente sucesso de Se Beber, Não Case (2009), está se referindo a Robert De Niro, com quem ele contracena em Sem Limites, um novo thriller que acaba de estrear no Brasil.

"Quando fui chamado para participar do filme, nunca imaginei que Carl Van Loon seria interpretado por Robert De Niro. Isso é o que eu chamo de cereja no bolo!", lembra Cooper. Sem limites traz De Niro como um empresário magnata que, enquanto negocia a maior fusão da história corporativa, é confrontado pela ascensão meteórica de Eddie Morra (Cooper), um desconhecido em Wall Street.

Sem que Van Loon saiba, Eddie era há até pouco tempo um fracassado aspirante a autor, sem perspectivas de vida, até ser apresentado por um amigo a um novo tipo de droga, a NZT, ainda não testada, que possibilita o desencadeamento de todo o seu potencial, não apenas como escritor, mas em todas as esferas de sua vida. Depois de aprender vários idiomas e instrumentos musicais num breve período, Eddie volta suas atenções para Wall Street e, em pouco tempo, assume um valor de mercado de bilhões de dólares.

"O filme não trata apenas da inteligência e do potencial: fala principalmente de questões de poder", diz o diretor Neil Burger. "Precisávamos de um ator que transformasse Van Loon num personagem poderoso. Se o personagem de Bradley Cooper seria alguém que toma um atalho ao usar tal droga, (Van Loon) seria alguém que trabalhou com afinco, investiu seu tempo e pagou suas dívidas. Precisávamos de alguém que encarnasse essas características e impressionasse logo no primeiro olhar", explica Burger.

É aí que entra De Niro. Por causa da ampla gama de personagens assustadores que ele já interpretou - entre eles Vito Corleone em O Poderoso Chefão: Parte II (1974), de Francis Ford Coppola; Travis Bickle em Taxi Driver (1976) e Max Cady em Cabo do Medo (1991) -, o astro pode de fato intimidar, não apenas na tela, mas também pessoalmente. Aos 67 anos, o ator admite que sua presença muitas vezes tem mesmo o efeito de acuar os atores mais jovens. "Essa sensação passa logo", diz ele em entrevista na suíte de um hotel nova-iorquino, onde se mostra surpreendentemente à vontade para um ator conhecido por evitar entrevistas e por sua desconfiança em relação à imprensa.

A palavra de ordem que orientou sua interpretação de Van Loon foi a cautela, refletindo o receio do homem mais velho diante das habilidades extraordinárias de Eddie. "Ele tem a sensação de que há algo mais ocorrendo nos bastidores. Talvez Eddie seja brilhante, esperto, muito bom com os números, mas ainda assim parece haver algo nele que desperta suspeitas."

De Niro diz que ele e Cooper repassaram os diálogos poucas vezes, normalmente quando o material tinha sido reescrito ou se a filmagem de novas tomadas se fazia necessária, como ocorreu em Nova York poucos meses atrás. "Filmamos no dia mais frio de todos e a cena era externa. É impossível descrever como aquilo foi doloroso. O frio era brutal." Essa falta de ensaio foi deliberada: De Niro gosta de manter a espontaneidade em suas interpretações ao se aproveitar do trabalho daqueles com quem está trabalhando, em vez de saber exatamente o que esperar da interpretação de um colega. Ele é conhecido por pedir àqueles com quem contracena que tentem apanhá-lo com a guarda baixa ao fugir deliberadamente do script, e também por fazê-lo intencionalmente de vez em quando.

"Se for comigo, posso por exemplo parafrasear o diálogo ou dizê-lo de outra maneira", afirma ele. "Acho que fiz isso algumas vezes com Bradle Cooper, apenas para quebrar o gelo. Está tudo nas reações, que podem ser surpreendentes. Às vezes, nem avisamos (o parceiro de cena) e simplesmente improvisamos - a não ser que se trate de algo mais físico e complicado, quando a surpresa não funciona. Mas a maioria dos atores sabe lidar com essas situações e aproveitá-las."

Nascido em Nova York, De Niro se sentiu atraído pela atuação desde cedo. "Comecei a interpretar aos sábados quando tinha 10 anos, mas não profissionalmente. Estava apenas estudando atuação. E então voltei a praticar aos 15 ou 16 anos, até completar 17. E então fiz uma pausa. Minha juventude estava se tornando um pouco enfadonha por causa da rotina. Apesar de ser apenas um adolescente, eu disse: "Preciso recolocar a vida nos eixos". E foi assim que, pouco antes de completar 18 anos, decidi estudar com Stella Adler antes de ir para a Dramatic Workshop."

Stella, uma das professoras de atuação mais famosas dos Estados Unidos, seria uma das duas principais influências na carreira de De Niro. A outra foi o diretor Martin Scorsese, que havia crescido com o ator no bairro de Little Italy, em Manhattan. Os dois foram amigos de infância, mas perderam o contato após a escola. "Devem ter se passado uns dez anos, tínhamos um amigo em comum que era crítico de cinema. Combinamos de nos encontrar para jantar na casa dele", ressalta o ator.

De Niro tinha visto o primeiro filme de Scorsese, Quem Bate à Minha Porta? (1967), e teve uma boa impressão. Os dois começaram a trabalhar no filme Caminhos Perigosos (1974), naquela que se tornaria a primeira de suas muitas colaborações, entre elas Taxi Driver (1976), New York, New York (1977), Touro Indomável (1980), O Rei da Comédia (1982), Os Bons Companheiros (1990), Cabo do Medo (1991), Cassino (1995) e Vivendo no Limite (1999), o que faz da dupla uma das mais produtivas parcerias entre ator e diretor do cinema moderno.

"O que mais gosto em Marty é que ele deixa que encontremos nossas próprias soluções. Acho que o traço mais elementar de um diretor deve ser a capacidade de trabalhar com os outros - e não apenas os atores, mas todos os envolvidos no processo criativo -, sabendo quando guiá-los e quando deixar que encontrem o próprio rumo." De Niro sabe do que está falando: trabalhou com alguns dos maiores diretores do cinema contemporâneo, como Alfonso Cuarón, Brian De Palma, Terry Gilliam, Ron Howard, Barry Levinson, Michael Mann e Quentin Tarantino. Mas De Niro também é conhecido por sua disposição em trabalhar com diretores menos conhecidos em projetos alternativos.

Na direção. Atrás das câmeras, Roberto De Niro trabalhou pela primeira vez ao dirigir Desafio no Bronx (1993). Apesar das críticas positivas ao filme, que marcou o início da carreira do roteirista e coastro Chazz Palminteri, passaram-se 13 anos antes que De Niro assumisse a direção novamente, pilotando Matt Damon e Angelina Jolie no thriller de espionagem O Bom Pastor (2006). Ele disse que ainda pretende dirigir mais "dois ou três" filmes, entre eles duas sequências para O Bom Pastor.

O primeiro filme mostrava a história da CIA de 1939 até a sequência da desastrosa invasão da Baía dos Porcos em 1961. De Niro e o roteirista Eric Roth gostariam de levar a história além, da construção do Muro de Berlim, em1961, à queda do comunismo em 1989. "Estou esperando pelos roteiros de Eric Roth", admite De Niro. "Ele está trabalhando em outros projetos, mas essa sempre foi a minha intenção. É assim que quero que a história se desenvolva."

Enquanto isso, não faltam projetos para ocupar o ator. Como tem sido regra em sua carreira, está envolvido em seis produções, entre elas o drama Selma, sobre a questão dos direitos civis, no qual ele deve interpretar o governador segregacionista George Wallace, do Alabama. Em maio, ele presidirá pela terceira vez o júri do Festival de Cannes e atualmente planeja a realização do 10.º Festival Anual de Tribeca, evento que ele fundou para ajudar a revitalizar a cultura e a economia de Lower Manhattan após a destruição do World Trade Center, em 2001. "Vejo o festival como uma instituição nova-iorquina. Algo de que podemos nos orgulhar", acrescenta De Niro. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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