De Natal

Não há cronista que não tenha cometido uma crônica de Natal. Alguns são reincidentes, fazem uma crônica de Natal a cada Natal - muitas vezes a mesma crônica. Ou faziam. Hoje poucos se sentem obrigados a não deixar passar a data, talvez porque tenham escasseado, com o tempo, as formas de tratar do assunto com um mínimo de criatividade. Antigamente você podia fazer da natividade uma metáfora moderna: a manjedoura como símbolo da origem humilde de um justiceiro social, José e Maria como despossuídos (os primeiros sem-teto) perseguidos pelos poderosos do dia, como hoje, etc., etc. Ou podia apelar para a crítica política indireta: os Três Reis Magos chegam à manjedoura trazendo só mirra e incenso porque tiveram que passar por Brasília e o ouro desapareceu. Uma vez descrevi a cena na manjedoura do ponto de vista dos animais, perplexos com o que veem e incapazes de compreender o momento histórico que vivem. Minha intenção, eu acho, era fazer uma divagação profunda sobre a neutralidade do mundo natural diante - ou atrás, já que só serve de cenário - dos dramas humanos, e a insignificância destes em contraste com a vasta indiferença das coisas. Ou coisa parecida. Isso tudo sem falar, claro, nas mil e uma variações sobre a figura do Papai Noel e seu saco. Tudo já foi feito. Mas, só para não deixar passar a data, aqui vai a minha crônica de Natal deste ano, na categoria reminiscências com ilações, também já muito usada.

VERISSIMO, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2010 | 00h00

Sempre houve árvore de Natal na nossa casa, desde os pinheirinhos da época dos móveis escandinavos, que era como minha mãe chamava os caixotes de bacalhau norueguês trazidos do mercado e transformados em mesas e estantes. Quando a situação melhorou o pinheirinho cresceu. Eventualmente, acometidos de consciência ecológica, trocamos o pinheiro de verdade por um sintético, que é o que está na sala agora, todo decorado, com uma humilde estrela na ponta onde, no Natal de 2006, tremulava uma fotografia do Gabiru, autor do gol que deu o campeonato do mundo ao Internacional naquele ano, suspiro e reticências. Minha mãe era religiosa mas o nosso Natal nunca foi religioso. Às vezes há mais amigos judeus do que cristãos no jantar da véspera, em nossa casa. E aqui entra a ilação, já que se está discutindo tanto crença e descrença em Deus. O Natal nos fornece símbolos de muito mais coisas, e coisas mais importantes, do que questões de fé. Estamos juntos, nos gostamos muito, isso é o que celebramos todos os anos. E nada mais distante de especulações teológicas do que a Lucinda rondando a árvore, tentando adivinhar quais dos presentes são seus.

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