De muitos bandolins

Rígido, disciplinado, purista intransigente, Jacob do Bandolim passou seus últimos anos afogado em pessimismo. A lenda do choro tinha certeza de que o gênero ao qual dedicou sua energia estava destinado a desaparecer - e que sua própria obra, composta de clássicos como Vibrações, Doce de Coco e Noites Cariocas não sobreviveria à sua morte. Afinal, era uma música para ser executada nos quintais das casas. E os quintais, dizia, estavam em extinção.

Bolívar Torres, O Estado de S.Paulo

14 de abril de 2012 | 03h10

Felizmente, nenhuma de suas previsões catastróficas se concretizou. É bem verdade que está cada vez mais difícil achar casas com quintais - até mesmo na Jacarepaguá em que ele possuía um jardim e uma avarandada. Mas as rodas de choro, contudo, ainda encontram seu lugar. O próprio Época de Ouro, conjunto regional fundado por Jacob nos anos 60, continua firme e forte em atividade. E, longe de cair no esquecimento, a arte do compositor ganhou uma nova fonte para ser perpetuada pelas novas gerações: na quarta-feira, será lançado o Cadernos de Composições de Jacob do Bandolim, com as partituras de sua obra completa, incluindo 15 músicas inéditas.

Resultado de dois anos de pesquisa do Instituto Jacob do Bandolim e uma equipe de estudiosos, o livro traz, em dois volumes, um longo processo de identificação, catalogação e transcrição de todas as composições do mestre. "Usamos principalmente três fontes: discos, manuscritos e fitas de rolo", detalha Sergio Prata, músico, vice-presidente do Instituto Jacob do Bandolim, e responsável pela pesquisa de repertório dos cadernos. "Quando havia mais de uma fonte para a mesma composição, nosso critério era buscar a forma como ela tinha sido eternizada."

As gravações completas, catalogadas numa pesquisa anterior que resultou no lançamento de 14 discos, foram usadas como matriz prioritária para as confecções das partituras, mesmo quando a obra já existia em manuscrito. Como Jacob improvisava o tempo todo, a ideia era justamente conseguir ser mais fiel às pequenas variações do bandolinista - e assim se aproximar da maneira como escutamos estas músicas nas rodas de choro nos dias de hoje. "O próprio Jacob não tocava segundo a partitura", diz o músico e pesquisador Marcílio Lopes, diretor musical da publicação, lembrando que o compositor tocava de ouvido até os anos 50. "Ele dizia que a partitura era o ponto de partida. O chorão tinha que saber ler para depois dar a sua interpretação. Tentamos registrar as conduções do baixo priorizando os floreios e as improvisações, o jeito que Jacob tinha de se antecipar às frases."

Várias surpresas foram surgindo no caminho. Nada menos do que 15 composições inéditas saíram do limbo. Entre as curiosidades, a única parceria conhecida com o bandolinista paulista Amador Pinho (Chuva de Estrelas), uma valsa dedicada a sua filha Elena Bittencourt (Elena), um estudo para bandolim composto em homenagem ao seu médico Arnoldo Veloso (Estímulo N.º 1), e até mesmo um tango (Pensando em Você) - mais próximo da ideia de tango de Ernesto Nazareth do que do tango argentino. Esta arqueologia da obra de Jacob, contudo, exigiu apuração e cautela redobrados.

"Só colocamos no caderno composições cuja autoria podíamos confirmar", assegura Lopes. "Muitas composições tiveram que ficar de fora, como uma chamada Veneno Verde, que até parecia ser dele, mas não havia como comprovar."

Além das inéditas, uma raridade ressurgiu das cinzas. Trata-se da primeira gravação de Jacob como compositor. Lançada em 1939, a faixa Si Alguém Soffreu foi interpretada por ninguém menos do que uma Aracy de Almeida no auge da carreira. Jacob tinha 21 anos e era um completo desconhecido (ouça a faixa no portal do Estado). Ouve-se um bandolim que muito provavelmente foi sua estreia em gravações como instrumentista. O que deveria ser lembrado como uma honra pelo compositor, no entanto, caiu no esquecimento: Jacob nunca mencionou a gravação, nem mesmo para os filhos. "É um mistério, ninguém sabe a razão de ele ter omitido o que foi um dos maiores momentos de sua carreira", diz Prata. "Até porque é um samba muito bom. Se fosse gravado hoje, faria muito sucesso."

O bandolinista Déo Rian, presidente do instituto, conviveu com Jacob e hoje toca o bandolim histórico que pertenceu ao mestre (encomendado em 1937, está em perfeito estado). Rian não acredita que a omissão seja resultado de uma mágoa com Aracy. "Nunca ouvi falar nesta história", afirma.

Entre as fitas pesquisadas, há uma inteiramente dedicada à bossa nova, da época em que Jacob começava a namorar o estilo. "Era um momento de transição para ele", lembra Rian. "Estava preso num turbilhão de informações, novos estilos, e precisava se adaptar a isso. Não vou dizer que ele estava pronto para se casar com a bossa, mas estava em fase de namoro. Adorava Edu Lobo e Tom Jobim, e dizia que a música de Chico Buarque iria atravessar os séculos."

Por outro lado, Déo Rian faz questão de lembrar que, no fim da vida de Jacob, o choro parecia estar num poço sem fundo. O compositor tinha medo de que o gênero tomasse o mesmo caminho do samba, desvirtuado pela comercialização das escolas, que a partir dos anos 60 haviam alterado a marcação do surdo. "Ele tinha uma preocupação com a tradição: modernizava o choro sem nunca mudar suas características", ressalta Rian.

Consciente da importância do choro como patrimônio, Jacob lutava por sua preservação. Foi um dos primeiros a criar um acervo que mais tarde ajudaria os chorões dos anos 70 a recuperar obras de Pixinguinha e do próprio bandolinista. "Eis um de seus legados: entender o papel do choro na identidade brasileira."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.