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De moscas, bêbados e dedicatórias

Há coisa de um mês me referi aqui ao projeto de uma antologia literária sobre a mosca que a morte não deixou o escritor guatemalteco Augusto Monterroso levar adiante. Não me alonguei sobre o tema, restringindo-me ao próprio Monterroso (que revelou seu intento em Movimiento Perpetuo) e a Lydia Davis, que ao mais universal dos insetos dedicou dois dos microrrelatos compilados em Tipos de Observação, recém-traduzidos pela Cia. das Letras; e se agora o retomo é para, única e exclusivamente, dar conta de uma presença brasileira, e das mais ilustres, na confraria das moscas.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

13 de julho de 2013 | 02h14

Se você não leu Um Inseto Sentimental, publicado neste caderno, pouso mensal de Milton Hatoum desde 2007, recupere o prazer perdido no preâmbulo às dezenas de crônicas que compõem a coletânea Um Solitário à Espreita, seleção de quase duas décadas de atividade jornalística do grande ficcionista amazonense, lançada durante a Flip pela Cia. das Letras. São 280 páginas de deleite ininterrupto, infensas à ação do tempo e pelo menos uma delas, Estádios Novos, Miséria Antiga, publicada no Estadão um ano atrás, atualíssima, para não dizer profética.

Hatoum cultiva o hábito, raro no gênero e profundamente gentil, de dedicar determinadas crônicas a amigos que de certo modo têm algo a ver com elas. Qual não foi minha surpresa ao me descobrir contemplado com uma dedicatória. Ganhei o dia, fiquei prosa como não ficava desde 2008, quando Tom Zé lançou um neossamba bossa nova (Barquinho Herói, no CD Estudando a Bossa), segundo ele inspirado num artigo sobre a mulher que eu havia publicado no Pasquim em 1970.

O mimo que o solitário à espreita me ofertou foi escrito para um livro sobre a Era Vargas, publicado em 2004. Com título de Uma Fábula, é uma viagem ao ano em que Getúlio se matou, a partir de lembranças da infância de Hatoum em Manaus. Ele tinha apenas 2 anos quando o presidente saiu da vida para entrar na história com o pijama manchado de sangue, mas conviveu longo tempo com seu fantasma: o retrato do velho na parede do grupo escolar, as brigas familiares em torno dele (um parente próximo o venerava, outro o odiava).

Custei um pouco a descobrir onde nessa história me encaixava. No dia em que Getúlio se matou eu estava de cama, derrubado por uma caxumba. Ouvi a notícia pelo Repórter Esso da Rádio Nacional, em edição extraordinária. Sem qualquer parti pris em relação ao presidente (tinha só 12 anos e meus familiares pareciam indiferentes aos arranca-rabos entre o trabalhismo e o udenismo), minha única reação à trágica notícia foi de regozijo pelos três dias de feriado na rede escolar, decretado pelo governo.

A reação do parente getulista de Hatoum foi dramática. Soube do suicídio enquanto almoçava no centro do Rio com a namorada; largou os talheres, a namorada, e foi-se juntar à turba enlutada diante do Palácio do Catete. O parente antigetulista morava em São Paulo e aderiu ao festejo que algumas vítimas da ditadura estado-novista, entre as quais o escritor e jornalista Paulo Duarte, improvisaram no velho e já desativado hotel Esplanada.

Nele pouco antes se hospedara William Faulkner, vindo de Lima (Peru) para um congresso de escritores. Só aí atinei com o motivo da dedicatória: Faulkner no Brasil. Ou terá sido outra coisa, recôndita, enigmática?

Por dez dias Faulkner não pegou a morte de Vargas. Chegou em 8 de agosto e se mandou seis dias depois. Bêbado full time, mal viu, se é que viu, a cidade, que num primeiro instante confundiu com Chicago, e no congresso fez forfait o tempo todo. Não desceu ao saguão do hotel para dar autógrafos nem entrevistas, "preferiu ficar bebendo e talvez escrevendo em seu quarto", conjectura Hatoum, quem sabe finalizando Uma Fábula, que publicaria naquele ano e, apesar das primeiras críticas adversas, lhe valeria um Pulitzer.

Admiro Faulkner, com menos intensidade que Hatoum, presumo, mas o ano em que Getúlio se matou e eu peguei caxumba ficou mais marcado em minha memória infantil pelo fiasco do Brasil na Copa do Mundo na Suíça, pelas fatais duas polegadas nos quadris da Marta Rocha, pelo Congresso Eucarístico no Rio, pelos ecos do Quarto Centenário de São Paulo, e, acima de tudo e todos, pela curta e tempestuosa temporada carioca da atriz Ava Gardner.

Faulkner acabara de ir embora, e Getúlio também, quando ela, "o mais belo animal do mundo", na imortal definição de Cocteau, desembarcou no Rio para promover o lançamento do filme A Condessa Descalça. Até porque não tinha idade para frequentar os lugares onde ela pisou, nem sequer de longe pude vê-la. Conheci, porém, um punhado de gente que a viu de pertinho, até apertou-lhe a mão e acendeu-lhe um cigarro (façanha histórica do José Lewgoy), e confirma: era mesmo o colosso projetado na tela.

Sua beleza inexcedível, quase irreal, dispensava realces artificiais. O menor adorno lhe era supérfluo. Até com os cabelos displicentemente presos com os palitos das azeitonas do Dry Martini (assim um fotógrafo amigo surpreendeu-a no bar do Copacabana Palace, e até hoje lamenta ter deixado sua câmera em casa) continuava imbatível. O problema era o martini; ou melhor, os martinis. Ava bebia como gente grande; muito grande. E do sexo masculino. Sua passagem pelo Rio foi, dizem, um pileque do princípio ao fim. Como a do Faulkner pela Pauliceia.

Ava armou um tremendo fuzuê no hotel Glória porque esperava ser hospedada no Copacabana Palace, onde por fim a alojaram depois de muita gritaria, ameaças (era desbocadíssima) e alguns móveis quebrados. Em sua autobiografia, a deusa negou tudo. Resta ver se na que acaba de sair, The Secret Conversation, fruto de longas conversas da atriz com Peter Evans, ela fornece mais detalhes sobre a "armação" de que teria sido vítima, a mando de Frank Sinatra, que por ela ainda morria de ciúmes. Quem não?

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