De Maurício Alberto a Morris Albert

Cantando letras românticas do nível "the book is on the table", vários brasileiros foram lançados com pseudônimos "americanos" nos anos 1970, quando as vendas de discos estrangeiros nocauteavam os nacionais. Foi assim que, entre outros que mantiveram os apelidos, Maurício Alberto Kayserman virou Morris Albert (foto), José Pereira da Silva Neto foi revelado como Chrystian, Ivanilton de Souza Lima ficou famoso como Michael Sullivan.

O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2011 | 03h07

Era comum também o mesmo cantor usar vários codinomes, como Fábio Jr., que gravou compactos repaginado como Mark Davis e Uncle Jack, mas só decolou mesmo com o nome original. Até que eles mantiveram a identidade secreta por algum tempo, estratégia que na era virtual seria desmascarada em questão de minutos. Tim Maia já tinha vindo antes - e foi dos poucos a criar algo original na música brasileira importando não só o prenome como os ritmos, a sonoridade e o idioma dos norte-americanos.

Grupos e cantores com cognomes gringos já tinham surgido na era do rock pré jovem guarda e na onda do iê-iê-iê, mesmo os que cantavam em português na televisão, como Golden Boys, Ronnie Cord, Ed Wilson, Jerry Adriani, Ronnie Von. Muito tempo depois da patética passeata contra a guitarra, o rock e a música evoluída da "genuína MPB" dos anos 1960 deram uma virada no mercado, passando a representar 70% das vendas, o que tornou desnecessário aquele esquema das gravadoras de ludibriar o público para aumentar o faturamento.

Hoje, com a atual crise do CD e a avalanche de shows internacionais com lotação esgotada, apesar de caros, seria mais fácil voltar a vender música cantada em inglês no Brasil? Marcelo Soares, diretor-geral da gravadora Som Livre - que lançou Tiago Iorc e Lu Alone -, diz que não há comparação. "As vendas de discos de músicas em português são muito maiores do que em inglês. Entre os grandes vendedores, os únicos estrangeiros são as superestrelas que chegam aqui impulsionadas por campanhas de marketing multimilionárias do exterior."

Sem contar os bossa-novistas e seus herdeiros ligados ao restrito circuito do jazz, muitos brasucas ainda viajam na ideia de uma carreira internacional, mas poucos no pop-rock - como os grupos Sepultura, Angra e CSS - tiveram grande repercussão em terras estrangeiras cantando em inglês. Até Roberto Carlos tentou, em vão, lançando um álbum de versões de seus sucessos em 1981. Os Mutantes tiveram a tentativa abortada e se depararam com relativo êxito póstumo, já que o álbum Tecnicolor, gravado em 1970, ficou perdido por quase 30 anos.

A única canção composta originalmente na língua dos Beatles por um brasileiro a ter alcance mundial foi Feelings (1975), de Morris Albert, gravada até por Frank Sinatra, depois acusada de plágio de uma canção francesa de 1956. As de Tom Jobim eram versões (que ele detestava) e London, London (Caetano Veloso) é a segunda mais lembrada entre as bem-sucedidas - mas apenas no Brasil. Aí já é outra história. / L.L.G.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.