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De matar de rir

Numa semana vazia de acontecimentos literários dignos de atenção, sem novos lances na briga da Hachette com a Amazon, o assunto mais palpitante acabou sendo o não que duas grandes editoras europeias - a Gallimard na França e a Carl Hanser Verlag na Alemanha - deram ao novo romance do escritor inglês Martin Amis, The Zone of Interest. Ambas, além de grandes, editam Amis há anos naqueles países. Pelos elogios que lhe fizeram na Grã-Bretanha, onde a Jonathan Cape o lançou mês passado, o romance não merecia ter sido descartado por meras "razões literárias", conforme alegou a Gallimard, ou "por falta de méritos", a justificativa da editora alemã.

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

20 Setembro 2014 | 02h14

Os verdadeiros motivos da recusa são de outra ordem. The Zone of Interest conta uma história de amor tendo como pano de fundo o Holocausto; o que não seria nada demais, no máximo uma pieguice padrão A Vida É Bela, se o autor não a tivesse revestido de um tipo de humor "perturbadoramente grotesco", nas palavras de Marie-Pierre Gracedien, da Gallimard. Como bem lembrou um crítico do Le Monde, a editora não teve o mesmo escrúpulo ao editar, na década passada, As Benevolentes, aquele cartapácio de Jonathan Littell sobre os horrores da guerra narrados do ponto de vista de um carrasco nazista. A Calman-Lévy, do grupo Hachette, já comprou os direitos de tradução para a França.

Na Alemanha, a reação da mídia não foi menos adversa. O jornal Die Welt qualificou de "ridículas" as objeções da Carl Hanser e duvidou que a atual onda de antissemitismo na Europa tenha suficiente combustível para transformar em tabu qualquer abordagem mais polêmica da questão do Holocausto. As discussões suscitadas pelo controverso filme de Margarethe von Trotta sobre Hannah Arendt não perturbaram a paz nas ruas de Berlim. A invasão de Gaza por Israel sem dúvida futucou a brasa dormida do antissemitismo alemão, com insultos a judeus e atos de vandalismo contra sinagogas e cemitérios judaicos, mas o livro de Amis não é um sucedâneo ficcional de Eichmann em Jerusalém, o ensaio-reportagem de Arendt que deu cria e fama à expressão, hoje um clichê, "banalidade do mal".

A ação de The Zone of Interest se passa na ficcional Kat Zet I, o mesmo imaginário ersatz de Auschwitz de outro romance de Amis parcialmente ambientado na Alemanha nazista, A Seta do Tempo. Seu verdugo é um oficial da SS, Golo Thomsen, cuja devoção ao hitlerismo incomodou sobremodo os mandachuvas da editora alemã. Uma leitura equivocada, segundo Amis, que assegura ter feito de Golo não um servidor cego do regime, mas um sabotador enrustido das iniquidades do Reich. Até agora nenhum crítico contestou a explicação de Amis, de resto, verificável à simples leitura do romance, ao contrário da tese de Arendt, abalada (ou relativizada, mas não invalidada, a meu ver) pela revelação de que Eichmann se fingira de idiota no tribunal israelense.

Arendt não banalizou o Holocausto e seus horrores nem afirmou que o mal encarnado por Eichmann seja o único tipo de mal existente neste mundo. Mas essa discussão, complexa, já cinquentenária e aparentemente sem fim, não cabe aqui, pois meu assunto é o escândalo provocado não pelo romance de Amis, mas por suas editoras na França e Alemanha, como bem salientou o Die Welt.

Dedicado a todos os que sobreviveram e morreram nos campos de extermínio nazistas, à memória de Primo Levi e Paul Celan, e a todos os judeus e meio judeus com os quais conviveu no passado e convive no presente, em especial sua sogra (mãe da escritora Isabel Fonseca) e as duas filhas do casal, The Zone of Interest tem por epígrafe a repulsiva caldeirada que as bruxas cozinham no quarto ato de Macbeth. Com tantos trechos lapidares à disposição ("os sorrisos que punhais escondem", "são iguais o belo e feio", "a vida é apenas uma sombra ambulante, uma história contada por idiotas", etc), Amis fez uma opção cômica, para não dizer grotesca, por um ensopado de sapos, cobras e lagartixas.

"O senso de humor dos ingleses é diferente do nosso", comentou um dos editores da Carl Hanser. Ainda bem.

Adorno achava impossível fazer poesia depois de Auschwitz. Foi uma frase de efeito. Os poetas entenderam seu sentido mais profundo, mas nem por isso abandonaram a poesia. Presumo que fazer piadas com o flagelo dos judeus talvez fosse, para o pensador alemão, uma impossibilidade ainda maior; e no entanto o humor nunca se deixou reprimir pelas humilhações e agressões antissemitas cometidas na Alemanha antes e depois da ascensão do nazismo. Nem o Holocausto calou o proverbial (e insuperável) humor judaico.

Dos estudos a respeito conheço apenas um, Dead Funny: Telling Jokes in Hitler's Germany, de Rudolph Herzog, repleto de piadas de alemães sobre judeus e de judeus sobre nazistas e judeus. Bom título: dead funny=de matar (ou de morrer) de rir. Herzog examina o fenômeno de vários ângulos, questiona, mas não condena, o riso como reação adequada a piadas sobre o sofrimento alheio, e levanta a suspeita de que o tratamento a sério do Holocausto talvez tenha esgotado toda sua munição.

Sem poder lutar contra Hitler, alemães judeus e não judeus esmeravam-se em bolar piadas sobre ele, ridicularizando-o, reduzindo-o à categoria de bufão, o bobo de sua própria corte. Não era apenas uma catarse, mas também uma forma de reduzi-lo à condição humana, de desdivinizá-lo, de fixar sua imagem não como um übermensch demoníaco, um avatar do anticristo, mas um mortal racista e depravado.

The Zone of Interest só chega à Livraria Cultura, à Amazon e em versão kindle no próximo dia 30, e a tradução da Cia. das Letras em fevereiro de 2015. Até lá recomendo a leitura de A Seta do Tempo, o mais inventivo romance sobre o Holocausto, o cruzamento perfeito entre os delírios de Matadouro Cinco (de Kurt Vonnegut) e o alegórico "anjo da história" de Walter Benjamin, que almejava despertar os mortos e reconstruir o que foi destruído. Não é fácil encontrá-lo, o livro, quero dizer, não o anjo. O Angelus Novus, de Paul Klee, que inspirou Benjamin, continua no Museu de Israel, em Jerusalém.

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