De Mario para Carlos

"São Paulo, 19 de fevereiro de 1926 Carlos do coração Meu Deus! tenho tanto pra falar mas quedê tempo! Vocênão pode imaginar a quantidade fantástica de trabalhosextra-artísticos que tenho tido. Quem me dera a tranqüilidade devocê! E se ao menos eu ganhasse o suficiente pra ter a esperançade descansos... Vida dura, meu caro. Porém vida bem vivida esustansiosa, isso é que é verdade. Estou pra escrever essanotinha pra você faz muito, porém cada nova carta ou cartão devocê é um vai-não-vai pra fazenda. E como você ainda não deu adireção da fazenda eu fiquei com medo do cartão meu de cá pra láse perder. Enfim aí vai ao que Deus quiser, com Terra Roxa edois livros pra você entregar. Já afirmei que os diretores deTerra Roxa mandam pedir a colaboração de vocês... Querem prosa,ouviu. Insista em pedir prosa. Contos curtos ou páginas críticassobre qualquer coisa. É lógico e imprescindível que você tambémestá na lista. Façam o favor de mandar qualquer coisa. Osecretário anda atrapalhado com a falta de originais. O pessoaldo Rio está fazendo fosquinha. Parece que não quer mandar. Pelasegunda Terra Roxa você verá que mandei à fava também o Menotti(del Picchia). Questão de higiene. O diabo esperneou que não foivida. Dias houve em que o "Correio Paulistano" vinha com doisartigos e até três contra mim. Insultos de toda a casta, vocênem imagina. Menotti e seqüela perderam totalmente acompostura. Não se esqueça de mandar a direção nova, heim. Sua cartasobre o Losango é boa mesmo. Quero bem ela. Sobreintelectualidade poética discutirei se me lembrar quando tivertempo. Estou cada vez mais convicto que carece botarinteligência (sentida) na poesia. Meus poemas são cada vez maispensados. Discutiremos. Não sei se é a infecundidade que vem.Tenho medo de dar em poeta brasileiro. Porém não me parece porenquanto. Tudo retumba tanto em mim!...Ciao. lembranças pra Dolores. Mário"

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