DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA|ESTADÃO

De Macapá a Curitiba, já são 14 os prédios da Cultura ocupados no País

Artistas e trabalhadores do setor protestam contra governo Michel Temer e extinção do Ministério da Cultura

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2016 | 13h17

RIO - De Macapá a Curitiba, artistas e trabalhadores da cultura já ocupam 14 prédios do Ministério da Cultura, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e Fundação Nacional de Arte (Funarte) em 14 capitais do País. As ocupações começaram no domingo, na sede da Funarte em Belo Horizonte e, nos últimos cinco dias, o movimento se espalhou para o Rio, Brasília, São Paulo, Belém, São Luís, Fortaleza, Natal, Recife, Aracaju, Salvador, Curitiba, Cuiabá e Macapá. Os artistas protestam contra o governo do presidente em exercício, Michel Temer, e a extinção do MinC, com sua subordinação ao Ministério da Educação.

No Rio, o Palácio Gustavo Capanema, onde funciona a representação do MinC para o Rio e Espírito Santo, e também órgãos como o Iphan, a Funarte e a Fundação Palmares, a presença dos artistas, das áreas da música, dança, teatro e cinema, e de trabalhadores da cultura, vem ganhando força e visibilidade a cada dia. São cerca de 50 pessoas dormindo no segundo andar do prédio, e centenas participando de shows, oficinas, performances e plenárias. No Facebook, são pedidas doações de alimentos, materiais de limpeza e de papelaria, para confecção de cartazes, que chegam a todo momento.

Ontem, apresentaram-se no palco montado sob os pilotis os músicos Frejat, Leoni, Lenine e Pedro Luís. Anteontem, houve shows de Arnaldo Antunes e Otto. Hoje, são esperadas as presenças de Caetano Veloso e Erasmo Carlos. Artistas de peso, como as atrizes Andrea Beltrão e Teresa Seiblitz e o cineasta Ruy Guerra foram até lá para dar seu apoio ao movimento e gravaram vídeos de endosso, veiculados no Facebook.

O anúncio, anteontem, do nome do novo secretário nacional de Cultura, Marcelo Calero, até então secretário de Cultura do município do Rio, não mudou em nada os rumos da ocupação carioca, que recusa diálogo com a gestão Temer, por considerá-la ilegítima. O manifesto do grupo diz: "Exigimos a deposição imediata do governo ilegítimo que tenta se instaurar. Não reconhecemos Michel Temer como presidente do Brasil. Qualquer tipo de negociação com o Palácio do Planalto é uma forma de legitimação do golpe. Faremos a governança real e simbólica na luta pelos nossos direitos, ocupando - de forma pacífica, mas contundente - o Palácio Gustavo Capanema. Reafirmamos que o espaço público é o lugar da luta política e que as ocupações são legítimas e necessárias."

"Não aceitamos migalhas, não ficaremos no varejo. Isso aqui não é só um setor reivindicando sua subsistência, embora o que está acontecendo atinja nosso fazer cultural e artístico. A questão é muito maior", disse a atriz e professora Ana Lúcia Pardo, uma das ocupantes.

À frente da Secretaria de Cultura da prefeitura do Rio por um ano e quatro meses, Marcelo Calero conquistou a simpatia da classe artística carioca pelo diálogo aberto com diferentes setores. Nesse período, trabalhou pela descentralização e democratização do acesso à cultura. Inaugurou arenas culturais, reabriu teatros que estavam fechados, implementou políticas de fomento às artes e de residências artísticas na rede municipal de teatros. Por outro lado, foi criticado por ter fechado o Centro de Referência Cultura Infância, parâmetro de teatro infantil de qualidade, que funcionava no Teatro do Jockey, alegando que os recursos deveriam ser empregados em regiões com menos equipamentos culturais. 

Aliado do prefeito do Rio, Eduardo Paes, do mesmo PMDB do presidente em exercício Michel Temer, ele tem 33 anos e trabalha na área cultural há três. Advogado e diplomata, é considerado um bom articulador. Na segunda-feira, como ouvinte, chegou a participar de um encontro promovido pela Associação dos Produtores de Teatro do Rio (APTR) em que representantes do setor cultural pediam a manutenção do MinC.

 

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