De Johannesburgo à farinha de Igarapava

Alguns leitores reclamaram: você não escreveu uma linha sobre a Copa.

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

16 de julho de 2010 | 00h00

Então, percebi que não escrevi mesmo e não vou escrever. Todo jornalista que conheço falou dela. Para que acrescentar a minha insensatez ao que já foi dito? Falar o que sobre o futebol jogado, inclusive o de domingo passado, final, quando se esperava o brado retumbante, o raio vívido e o que se viu foi o naufrágio da "máquina" holandesa? Na hora, lembrei-me de uma frase que a Cidinha Valério, professora de História no ginásio, contou e que ficou na minha memória para sempre. Não me lembro a propósito do que, se foi durante a invasão holandesa no Brasil, ou quando. "O mar é o único túmulo digno de um almirante batavo."

Todos nós, em nosso ardor juvenil (epa!) achamos a frase solene, heroica e valente. Agora, eu adaptaria. A Copa é o único túmulo digno de um esquadrão de futebol batavo. Se bem que para mim e para a maioria, batavo é marca de leite e um iogurte dos bons. Acho que a Holanda é melhor em matéria de diques e de moinhos, o país é lindo, o povo simpático, estive no festival de literatura e cinema de Roterdã e adorei tudo. Porém, o que gostei mesmo na Copa foi a democrata rainha de Espanha invadindo os vestiários, indiferente ao protocolo. E defendo o goleiro Casillas, que sofreu gol pelo olhar de uma bela mulher. Pelo drama do gol e pela beleza do momento daria um poema digno de García Lorca.

Em matéria de futebol, confesso que me divirto mais no reduzido espaço da Rua Javari ou nas pelejas que a Ferroviária de Araraquara, agora na A2, joga na Arena da Fonte. Quem disse que não temos estádio para a Copa de 2014? Está lá a Arena da Fonte, no mesmo lugar do antigo campo da Fonte Luminosa, uma das boas coisas que o prefeito Edinho fez para a cidade. Verdade que a minha cidade não tem aeroporto adequado. Continua a ser um campo da aviação, como se dizia antigamente. Mas durante o período em que o aeroporto de Ribeirão Preto esteve em reformas, foram lá que Boeings e Airbus aterrissaram por meses e tudo funcionou.

Verdade também que não temos hotéis suficientes para abrigar delegações e turistas, mas lembro-me dos antigos intercolegiais entre cidades do Estado. Uma iniciativa que parece ter se acabado. Uma cidade abrigava os jogos e para lá se dirigiam centenas de esportistas. Qual a solução para alojá-los? Pedia-se a colaboração de cada família e os competidores espalhavam-se por centenas de casas, sendo que o cuidado maior era colocar pessoas da mesma cidade no mesmo lugar para evitar rixas. Assim se dizia, rixas. Era uma coisa que movimentava a cidade inteira e rendia amizades e namoros.

Rio Preto se reconciliava com Catanduva. Bauru com Marília, Araraquara com São Carlos, Ribeirão Preto com Franca, que eram as "inimizades" mais conhecidas. Lembrava muito aquele tempo em que, guardadas as proporções, as cidades na Itália eram Estados e Florença e Pisa guerreavam entre si. Bem, nenhuma das cidades do interior tinha um Leonardo da Vinci, um Giotto, um Rafael, se bem que Brodósqui tivesse Portinari; Itu, Almeida Júnior; Capivari, Tarsila do Amaral; Itanhaém, Benedito Calixto. Nossas "guerras" intermunicipais não matavam ninguém, o que havia eram escaramuças eventuais. Sei que são-carlense não podia ir a Araraquara ou Rio Claro namorar mulheres locais. Catanduva exibia o fato de ter o melhor carnaval do interior e fazia fusquinha para São José do Rio Preto. Ainda é? Marília se jactava de ter Tetsuo Okamoto, uma lenda, o primeiro nadador brasileiro a ganhar uma medalha olímpica, em 1952, em Helsinque, enquanto Bauru dizia: sim, mas temos as três melhores ferrovias do Brasil, a Paulista, Sorocabana e a Noroeste.

Cada cidade tinha seus motivos de orgulho para contrapor e aqueles entreveros provincianos divertiam. Apenas Campinas ficava de fora, campineiro não se julgava interiorano, para ofendê-los bastava incluí-los na categoria caipira. Campinas competia apenas com São Paulo. Quanto a Santos era litoral, tinha mar e praias, argumentos suficientes para derrotar a todos. São pequenas coisas para a história do comportamento. Ninguém superava os famosos biscoitos e bolachas de Jacareí. Outro dia fui lá fazer uma palestra, procurei, não existem mais. E as balas Ailiram? Invertam as letras, dá Marília. E a empada da estação de Jaú? As uvas de Vinhedo, o vinho adocicado de São Roque, os morangos de Atibaia? Ainda hoje os caminhões nas ruas apregoam a excelência deles.

E a pamonha de Piracicaba, o puro creme do milho, divulgada pelas ruas em potentes alto-falantes? E quem nunca comeu os pés de moleque do pipoqueiro (ele faleceu, mas deixou herdeiros) da praça de Casa Branca não sabe o que é o sabor dos doces interioranos. Sim, há também as coxinhas douradas de Bueno de Andrada que revolucionaram uma pacata vila e mostraram o poder da palavra e a credibilidade de um jornal, o Estadão. E a delicadíssima farinha de mandioca de Igarapava, uma fina poeira que se dissolve ao sopro, que descobri por meio da professora Claudia em uma feira de livros? Puxa, de Johannesburgo a Igarapava e tudo porque não falei da Copa. E ainda tem a Copa de 2014 no Brasil sob o signo do troféu "Chico Xavier" e o Brasil com Z e o azul que é nossa marca em vermelho.

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