Ivan Dias/AE
Ivan Dias/AE

De igual para igual

Autor da famosa pintura que ocupa o 'Buraco da Paulista', Rui Amaral inaugura, neste sábado (9/4), uma galeria para artistas como ele - ligados ao grafite e à arte de rua

Marina Vaz - O Estado de S. Paulo,

08 Abril 2011 | 09h35

Quando olha para as paredes da Spray Galeria, que ele inaugura sábado (9/4), junto com o sócio e amigo José de Souza Queiroz, os olhos de Rui Amaral brilham. O artista de 48 anos, um dos pioneiros do movimento do grafite brasileiro, sonha em ter um espaço assim desde os anos 80, quando começou a colorir as ruas da cidade.

 

Agora, o autor do famoso mural de fundo azul que ocupa o 'Buraco da Paulista' se junta com antigos amigos - Carlos Delfino, Ciro Cozzolino, Marta Oliveira e Zé Carratu - para a primeira mostra coletiva da galeria, 'Remédio'.

 

Abaixo, ele fala sobre a Spray Galeria, seus planos para o novo espaço e como vê a arte de rua hoje.

 

Com exceção de Marta Oliveira, todos os artistas que você reuniu nesta primeira exposição da Spray são ex-integrantes do grupo 'Tupinãodá', do qual fez parte nos anos 80. Por que essa escolha e o quanto ela revela sobre o perfil da galeria?

 

Acho legal sempre pegar um pouco de cada época. Agora são artistas da década de 80, depois dos anos 90, 2000... Por enquanto, começamos com esses cinco artistas, mas estamos formatando um time para projetos legais, para fazer uma conversa com outros espaços lá fora, como exposições em museus, intervenções.

 

Você vai trabalhar com artistas exclusivos da galeria?

 

Vamos ter alguns, mas também faremos trabalhos com outros. A ideia é ter um e-commerce bem legal - vender os trabalhos dos nossos e de outros artistas pela internet.

 

Há quanto tempo você planeja criar essa galeria?

 

Sempre sonhei com isso, desde os anos 80. Os grafiteiros expõem seus trabalhos na rua; acaba sendo algo menos comercial. Ter seu próprio espaço é uma tendência muito pop, algo diferente no mercado. Com isso, você rompe muitas coisas.

 

Isso é algo inédito?

 

No final dos anos 90, o Flip, um grafiteiro que talvez exponha aqui, montou uma galeria em cima de uma lojinha. Daí veio a Grafiteria - que não vingou, foi uma pena - e depois a Choque Cultural. A Grafiteria tinha um time muito bom, como o da Choque, e era comandada por grafiteiros. Já o pessoal da Choque vem de outras áreas. Para nós, é muito duro ver pessoas de outra área ocupando um espaço que a gente poderia ocupar também; e não ocupa por falta de grana mesmo. Acho que cada vez mais devem aparecer outras galerias desse tipo. E o que vai diferenciar mesmo é o trabalho de cada uma, os projetos, as propostas.

 

E quais são as propostas da Spray?

 

A gente quer investir muito em educação, dar aulas, workshops, oficinas, palestras. E também pensar em projetos sociais. Em outubro, queremos trazer pichadores para expor aqui. Seria a primeira vez que a pichação ocuparia um espaço comercial.

 

Obviamente os trabalhos expostos aqui tendem a ter mais foco em pintura. Mas você pretende trazer outras linguagens, como instalações, esculturas?

 

Com certeza. O problema da instalação é que ela não é vendável, mas eu sinto falta de coisas assim. Em uma exposição como essa, a gente precisa de um carro desses (aponta para a escultura que Carlos Delfino vai expor lá). O problema da minha arte é isto: eu gosto de fazer as coisas que não dá para vender (risos). Essas ambientações deixam as coisas mais legais, mas a tela é a base, é o feijão com arroz. E você tem que saber fazer um belo feijão com arroz.

 

Porque a escolha do nome da exposição, 'Rémedio'?

 

A gente é tudo louco (risos). O Carratu é que teve a ideia do nome 'Remédio'. E nós pensamos: "por que não?" É uma coisa nonsense mesmo. Daí começamos a viajar, fazer o convite em formato de bula. Nós cinco somos uma usina de criação. É um grupo muito bacana.

 

Domingo passado (3/4), onze grafiteiros foram presos na Zona Norte. Como você vê a receptividade ao grafite e à arte urbana hoje?

 

O grafite, a arte de rua, está passando por um processo de legalização. O grafite sempre vai existir - e sempre vai ser ilegal. Sempre vai ter um lugar onde não vai ser permitido e alguém vai querer pintar. E a isso tem que se dar o nome de grafite, não outro nome. Mas o que eu vejo é um movimento muito forte de arte de rua, de street art; isso está 'bombando'. É você chegar numa padaria, ver um estacionamento com um muro todo quebrado, chegar para o dono e perguntar: "posso pintar aí?". Daí chamar os amigos e pintar.

 

Você sai às ruas para fazer grafite com muita frequência hoje em dia?

 

Saio toda semana; às vezes uma semana sim, uma semana não. Não consigo ficar sem pintar na rua por mais de 15 dias. Mas isso é pouco. É que também o spray é muito caro. Sempre pinto na rua com sobras de outros trabalhos. Por isso é que a gente usa muito látex, é mais barato.

 

 

SERVIÇO:

Exposição 'Remédio'. Spray Galeria - R. Delfina, 112, V. Madalena, 3034-3879. 11h/20h (dom., 14h/20h; fecha 2ª). Abre sáb. (9), 14h/20h. Grátis. Até 7/5.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.