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Lúcia Guimarães
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De frente para o crime

O corpo ainda estava lá, estendido no chão molhado. A trinta metros do Kremlin, o corpo crivado de balas do político descrito por Boris Yeltsin como o futuro presidente da Rússia, não tinha sido removido, e já o porta-voz de Vladimir Putin decretava: a morte, em estilo execução, do ex-vice primeiro ministro e ex-deputado Boris Nemtsov era um ato de provocação. Contra Putin.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

02 Março 2015 | 02h06

Dias antes, Nemtsov contara que tinha medo de ser assassinado a mando do líder que agora assume pessoalmente a farsa da investigação. Putin chegou a telefonar para a mãe de Nemtsov dando pêsames. Mas o presidente nunca pegaria o telefone para encomendar mais um defunto na longa lista de suprimidos "inimigos do Estado". Há muito, Putin vive numa bolha de convivência com poucos 'yes men', deixou os anos de botar a mão na massa na KGB para trás. O caso Nemtsov pode ser uma morte anunciada, mas não interessa ao presidente ditador, que continua com 86% de aprovação. Não, Nemtsov não há de ser uma vítima direta dos donos do poder, como foi o ex-agente secreto Alexander Litvinenko, envenenado com polônio em Londres, em 2006.

Além disso, o político que coordenava um protesto antiguerra marcado para ontem, como bem disse o porta-voz do Kremlin "com todo o respeito à sua memória", não era visto como ameaça a Putin. O protesto acabou atraindo mais russos para as ruas, marchando sob fotografias de Boris Nemtsov e brandindo cartazes que diziam "Não tenho medo".

Mas medo é a moeda corrente da Rússia hoje. Medo do Estado visível e do invisível. Medo de grupelhos radicais apoiados pelo Estado. Medo do teatro do Judiciário, utilizado, por exemplo, para tomar o negócio legítimo de qualquer empresário cujo sucesso incomode um comparsa do Vladimir. Medo da mídia que incita ódio a minorias, espalha teorias conspiratórias e apresenta a Rússia como vítima do expansionismo do Ocidente depravado. Desde o período caótico que sucedeu o colapso da União Soviética, quando a corrida para pilhar o tesouro russo mantinha assassinos de aluguel fazendo hora extra, não ocorria nada semelhante à morte de Boris Nemtsov.

Nem os mais calejados opositores do regime orwelliano acreditavam que um ex-alto membro do governo pudesse ser executado de maneira tão ousada e simbólica, sob as barbas das câmeras de segurança nas torres do Kremlin. O carro supostamente usado pelo assassino foi encontrado. O assassino, ou possivelmente, o escolhido para posar de autor do disparo, pode até ser preso e julgado. Mesmo os que engordam a porcentagem de aprovação de Putin não têm ilusão de que o crime será esclarecido.

Trata-se do país, onde, em 1999, 300 pessoas morreram num atentado a um complexo residencial de Moscou, mais tarde atribuído por investigações independentes aos serviços de segurança. Um segundo atentado na cidade de Ryazan foi evitado e o carro usado para transportar os explosivos colocados no subsolo do prédio tinha placas ligadas ao FSB, o serviço secreto sucessor da KGB.

Se, para atiçar no público o desejo de vingança e atrair apoio para a guerra na Chechênia, os donos do poder são capazes de promover com impunidade um mini 11 de setembro contra seus compatriotas e produzem falsos culpados, o que esperar hoje, quando não há mais disfarce sobre o avanço autoritário?

A mídia que a grande maioria dos russos assiste logo espalhou teorias como a de que Nemtsov foi morto por ter forçado sua jovem namorada ucraniana a fazer um aborto. Há dias, um protesto "anti-Maidan" por um grupo financiado pelo governo russo, que inclusive pagou diária para os manifestantes, desfilou com a foto de Nemtsov e pedia morte à "quinta coluna".

A tática de igualar oposição à traição do povo não é monopólio do Kremlin. Mas é um processo que sempre pode terminar por escapar do controle de quem se esconde atrás de quem aperta o gatilho.

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