De Fa-Tal ao recanto

Gal Costa volta ao palco carioca que a levou 40 anos atrás à condição de voz essencial da música brasileira

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

06 Outubro 2012 | 03h09

Sete meses rodando capitais com o repertório de Caetano Veloso do CD Recanto, e Gal Costa quis voltar aonde tudo começou. Mais precisamente ao palco no qual se consolidou como uma das intérpretes brasileiras fundamentais. Segunda e terça agora, o recém reinaugurado Tereza Rachel, no Rio, a ouvirá pela primeira vez depois de 40 anos, para a gravação de seu DVD.

Foi no então novíssimo teatro de Copacabana, em 1971, a temporada do show Fa-Tal, que reuniu tantos jovens hippies cariocas por metro quadrado quanto as chamadas Dunas da Gal, perto dali, em Ipanema. E ainda João Gilberto, os tropicalistas, a fatia da crítica musical que já olhava com atenção para a Gracinha da Bahia.

Cabelos volumosos divididos ao meio, barriga reta à mostra, ela vinha de microfone na mão desde 1964, quando estreara, em Salvador, aos 19 anos, com Caetano, Gil, Bethânia e Tom Zé. Em Fa-Tal, anunciava que estava de partida para um período de autoexílio em Londres com os companheiros. "Aqui já me aconteceu de tudo, o resto é rotina. Não acontece nada na música popular", chegou a dizer a jornalistas.

Para dirigi-la no chamado Terezão, Waly Salomão. Fa-Tal viraria um disco duplo que acabaria, décadas depois, nas listas dos maiores da MPB. Descalça, bustiê e saião, Gal, violão nas mãos e um power trio à sua volta, estava melancólica: os amigos longe, o movimento hippie em crise. A contracultura, acreditava, havia falido. "Foi um show importante e dedicado a Caetano, Gil. Havia uma melancolia e uma tristeza", ela rememorou esta semana, falando por e-mail ao Estado.

"Lembro que era bom fazer o show. Do Leon Hirszman, que filmou tudo em 16 mm por vários dias. Do (guitarrista) Lanny (Gordin) e do Pepeu (Gomes). Do Waly. João Gilberto ia assistir, ficava atrás do palco e saía antes de acabar. Ia encontrar João depois e cantávamos a noite toda."

Caetano foi na volta do exílio. Ficaram recordações de "noites muito mágicas". "Era muito bonito. Gal era magnífica em cena. A plateia era desbundada e a banda, sensacional. Gal reinava sobre toda a cena da época. Fez muito bem ao Brasil."

Era uma época em que a porta-bandeira tropicalista queria mostrar todas as possibilidades de sua voz. Além de Caetano (Coração Vagabundo, Como 2 e 2, Maria Bethânia), cantava outros contemporâneos - Jorge Ben (Charles Anjo 45), Roberto e Erasmo (Sua Estupidez), Galvão e Morais Moreira, dos Novos Baianos (Tinindo Trincando) e um novato Luis Melodia (Pérola Negra) -, além de Geraldo Pereira (Falsa Baiana) e um Gonzagão e Humberto Teixeira (Assum Preto).

Gal vai reviver o Terezão num momento de renascimento, graças à força de Recanto, passada uma sequência de discos de pouca expressão. "É um teatro simbólico na minha carreira".

Em comum há, no roteiro, Vapor Barato, de Waly e Jards Macalé - então o ponto alto da noite. É um de seus clássicos incluídos por ela e Caetano, que dirigiu CD e show. E mais Baby, Meu Bem, Meu Mal, Força Estranha, Um Dia de Domingo, Folhetim, um bis com Modinha de Gabriela, puxado pelo remake da novela.

Não se cogitou remake do set list de 1971. "Vamos fazer o show como ele estreou", prefere a cantora. "Em Recanto, Gal é madura e jovem ao mesmo tempo. A sensualidade de seus 20 anos aflora sem precisar ser parodiada por ela", compara Caetano.

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