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De corpo presente, mas sem ser o foco

Três anos e 4 meses numa favela indiana renderam à jornalista americana Katherine Boo um premiado livro, 'Em Busca de Um Final Feliz', exemplo vigoroso do que pode a escrita de não ficção comprometida com o outro

Lúcia Guimarães,

09 de março de 2013 | 01h34

NOVA YORK - A autora manda mensagem de texto avisando que vai se atrasar porque foi parar no lado oposto de Manhattan. Antes de partir, Katherine Boo, a figura loura e miúda que bateu à porta, uma das mais premiadas autoras de não ficção de 2012, pede orientação para não se perder de novo, a caminho do próximo compromisso. E pensar que ela circulou com desenvoltura durante mais de três anos numa miserável e violenta favela de Mumbai.

Katherine Boo é autora de um extraordinário livro-reportagem que acompanha o leitor muito além da última página. Ela cresceu em Washington, onde começou a vida de repórter, e ganhou, em 2000, um Prêmio Pulitzer cobrindo a situação deplorável das residências públicas para doentes mentais.

No ano passado, Boo conquistou o maior prêmio literário americano, o National Book Award, por Em Busca de Um Final Feliz, resultado de sua convivência com a comunidade da favela de Annawadi, de 3 mil habitantes, cercada de hotéis de luxo e próxima ao aeroporto de Mumbai. Afluência e miséria - vizinhas, mas não simplificadas pela autora. Os habitantes se revelam como personagens de um romance, mas Boo faz questão de reafirmar, no fim do livro, que é tudo verdade. Abdul, o adolescente catador de lixo; Fatima, a mulher aleijada e promíscua; Manju, que quer ser a primeira moradora de Annawadi com diploma universitário. Tratada, nas primeiras semanas, como um animal exótico e intimidada pela polícia, esta descendente de suecos que tropeçava e caía na poça do esgoto enquanto filmava, foi se misturando aos moradores de Annawadi. E emergiu, três anos depois, com sua narrativa sem nunca ofender a humanidade dos que vivem a rotina abjeta, na sombra da globalização.

No Brasil, o livro chega às livrarias no próximo dia 20, pela editora Novo Conceito. A seguir, a entrevista exclusiva de Katherine Boo ao Sabático.

Porque escolheu a favela de Annawadi como cenário do livro?

Quando comecei o projeto, em 2007, estava trabalhando em várias favelas para conhecer áreas diferentes da cidade, mas voltava sempre para Annawadi porque havia esperança por todos os lados. A favela era cercada de hotéis de luxo e um grande aeroporto. E as pessoas ali tinham uma noção mais forte, comparada à de outros moradores de favelas mais distantes, de que, um dia poderiam vencer a barreira entre a vida na favela e a vida dos ricos. Um aspecto que torna o livro interessante é você nunca saber o que vai acontecer. Se tentar prever o futuro sempre pode errar.

O livro é crítico da tentação dos escritores de descrever a pobreza como um sintoma de um argumento que já existe, antes dos personagens?

Trabalho em comunidades de baixa renda há 25 anos e uma coisa que me torna impaciente é a simplificação que se faz dos pobres. Eles são apresentados como passivos ou unidimensionais quando, de fato, as pessoas que encontro são tão complexas quanto eu e meus amigos. Acho que, mesmo pessoas que têm empatia evidente pelos pobres podem reduzi-los a figuras simples. E eu digo, não, se você quer entender o que significa viver numa comunidade como a favela, você tem de respeitar a complexidade, a inteligência e a imaginação das pessoas.

Outra preocupação do livro não foi representar apego à vida expressado por pessoas tão destituídas?

Especialmente na Índia, porque há a ideia de que os hindus acreditam em reencarnação, ou que islâmicos que perdem filhos se consolam com novos nascimentos, esse apego pode ser subestimado. É uma tendência de olhar por uma lente de exotismo, uma negação do fato de que, aqui, falo do Islã, os pais sentem profundamente a perda de uma criança. E rotular a morte como um episódio espiritual é negar que a vida é preciosa para outras culturas.

É difícil evitar uma sensação de deslocamento no tempo, ao ler o livro. A vizinhança evoca a nova Índia e a favela nos remete ao passado. Sentia esse deslocamento?

Esse é um ponto muito interessante. Penso que vivi vários tipos de deslocamentos. Mas devo dizer que, ao longo da reportagem, fiquei tão envolvida com as pessoas que o tempo, às vezes, se tornava irrelevante. E o cenário físico não me parecia tão importante quanto as pessoas que o habitavam.

Seu livro expressa um cuidado para não se tornar personagem da narrativa, mas admite que não se pode evitar completamente o efeito da própria presença. Como tenta chegar a um equilíbrio sobre o seu papel?

Essa é uma questão essencial do meu trabalho. Ao longo dos anos, editores me pediram "precisamos que você possa se inserir no livro, que seja mediadora para o leitor e que nos ajude a formar opinião sobre essas pessoas, sejam os catadores de lixo, os professores ou estudantes". Eu tenho uma firme convicção de que, se me meter no meio, vou obstruir a visão que o leitor terá, por exemplo, de como pensa Abdul, o catador de lixo. Quando estou descrevendo o Abdul transportando o lixo em seu pequeno caminhão de três rodas, quero que o leitor pense no Abdul e o caminhão e não eu sentada ali - "ah, cá estou, suando no caminhão com o Abdul". O que eu sinto não tem a menor importância, só o que sente o Abdul. E acredito que o leitor se engaja com ele se nós, escritores, soubermos apresentar a pessoa de maneira apropriada em toda a sua complexidade.

Como segue a sua relação com os moradores da favela?

Continuo muito envolvida com eles. Estou usando royalties do livro e de palestras que faço para inscrever mais crianças na escola, cuidar de casos de tuberculose, coisas desse tipo. Mas deixo claro que é um trabalho lento, e falho tanto quanto sou bem-sucedida. Há casos, por exemplo, como o do garoto que nós inscrevemos em três programas escolares diferentes. Ele quer estudar, mas quando chega à escola, sente vergonha e medo de fracassar. É um processo difícil. O fato é que você não pode prever reações, mas segue com esperança.

E como se preocupa com o efeito do livro na vida dos habitantes de Annawadi?

Antes do lançamento, conversei muito com eles, para que não tivessem surpresas. Mas é muito estranho ter o mundo inteiro acompanhando a sua vida. E eles lidaram com isso de maneira muito graciosa. Como deixo claro no livro, cada dia é diferente do outro e cada pessoa também. Mas até agora, só posso admirar como a comunidade lidou com o lançamento do livro. Sabe que visitantes aparecem na favela e pedem para conhecer as pessoas retratadas no livro? Eu pergunto se isso as incomoda, respondem, não, eles são gentis conosco. Parecem sentir orgulho do fato de que trabalhamos juntos para o resultado do livro.

No livro, as crianças são apresentadas como a mais confiável fonte de informação.

Uma das coisas que aprendi, depois de anos de convivência na favela, foi confiar nos olhos atentos das crianças. Elas veem o mundo sem o preconceito político, religioso ou étnico dos pais. Uma criança hindu de 11 anos descrevia com precisão o que acontecia numa família muçulmana, só fatos. À medida que crescem, começam a enxergar primeiro a casta da pessoa, de onde ela vem, a religião e isso afeta o senso de dignidade conferido ao outro.

Numa passagem no livro, Abdul reclama e pede que pare de fazer a mesma pergunta que traz de volta o passado. A memória, no caso dessas vidas trágicas, se transforma numa prisão?

Isso é a mais pura verdade e é doloroso. Abdul me dizia, em parte: "Para satisfazer o seu desejo ocidental de ser precisa, você me faz sofrer ao evocar memórias". Aprendi, logo no começo, com as pessoas ali, que elas iam minimizar os traumas do passado para poder seguir em frente. Hoje, posso mencionar algo para o Abdul e ele diz: "Isso não aconteceu". E respondo: "Pode ouvir a gravação".

Como a elite indiana recebeu o livro?

Não sabia como seria recebido. Estava realmente assustada. No fim, o livro teve uma recepção calorosa. Isso vai fazer diferença? Veremos. Mas fiz questão de que o livro saísse ao mesmo tempo na Índia e nos Estados Unidos. Porque, se alguém fosse começar a espalhar que publiquei falsidades, queria que tudo fosse logo exposto. Mas sinto que o livro possa ter aberto os olhos de parte da elite que podia não saber da vida nas favelas, a não ser através de suas empregadas domésticas e motoristas.

É possível estabelecer conexões entre o capitalismo global que chegou à Índia e a violência contra as mulheres indianas que domina o noticiário, com episódios recentes de estupro?

Uma das raízes da opressão das mulheres indianas é a tradição do dote. Por nascer mulher, a menina já é vista como uma dívida para os pais, uma despesa a mais. Então, não vejo como se pode explicar a condição da mulher indiana, especialmente nas áreas rurais, apenas como fruto do capitalismo global. A questão é tão complicada lá quanto em outras partes do mundo.

No livro, a globalização é citada por ter provocado o fim do emprego estável, mas, ao mesmo tempo, por trazer esperança para comunidades destituídas.

Nos meus anos em Annawadi, não encontrei uma só pessoa que tivesse saudade dos tempos pré-globalização. Como me diz um morador, "Nós éramos todos miseráveis antes. Agora uns são, outros não". Como escritora, eu tento não simplificar. O que temos agora é uma desigualdade incrível na Índia urbana, que continua a crescer e isso afeta as famílias. Como me disse um homem, "Nossas crianças não nos respeitam mais, se não pudermos comprar um carro ou roupa nova". Mas, ao mesmo tempo, a mulher desse homem ganha melhor com a demanda da indústria de lixo reciclável impulsionada pela globalização. Acho que a responsabilidade dos governos é ainda maior de administrar a volatilidade do capital que viaja pelo mundo hoje. A vida dos pobres está mais dinâmica e mais caótica do que nunca.

EM BUSCA DE UM FINAL FELIZ

Autora: Katherine Boo

Tradução: Maria Angela

Amorim de Paschoal

Editora: Novo Conceito

(287 págs., R$ 29,90)

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